Quem sou eu

Belém/Ribeirão Preto, Brazil
Amazônida jornalista, belemense papa-xibé. Mãe, filha, amiga... Que escreve sobre tudo e todos há décadas. Com lid ou sem lid e que insiste em aprender mais e mais... infinitamente... Até a morte

Aos que me visitam

Sintam-se em casa. Sentem no sofá, no chão ou nessa cadeira aí. Ouçam a música que quiser, comam o que tiver e bebam o que puderem.
Entrem...
Isso aqui está se transformando em um pedaço de mim que divido com cada um de vocês.
Antes de sair me dê um abraço, um afago e me permita um beijo.

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quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Rememorando ...

Estou sem escrever no blog há alguns bons dias. Postei há pouco o que já estava escrito, meio perdido nos rascunhos...
Há muito por fazer, resolver e como descobri, pela Isto É, que escrever dessa forma pra mim é uma terapia, devo estar bem, sem muita necessidade de extravasar, de misturar letras, costurar palavras, explicitar o que ferve internamente em mim.
As emoções são cada vez mais intensas, muito rápidas, desconhecidas. Uma das mais marcantes aconteceu em Mosqueiro, dia 15 de novembro. Foi um presente de Deus. Precisávamos daquela cerimônia, daquela imersão nos sentimentos mais íntimos, mais nossos. Remexemos tudo que nem lembrávamos mais, imagens como as quedas da Anaterra quando aprendia a andar; as idas do Raul ao hospital para costurar o pé, a boca; o encontro com o timão, o cachorrinho esquálido, sem rabo que adotamos e que agora mora com a Ruthlene.
A pequena e bucólica ilha faz parte da minha história desde quando ia passar férias com a tia Jorgete, ainda criança. Travessia de balsa, demorada, mas sempre repleta de alegria, de proximidade com a água, com os peixes, camarões, siris...
Na juventude foi local de namoros, festinhas, férias de julho em companhia de muitos amigos e na maturidade, ao lado do Manoel e dos filhos, reduto familiar,lazer. Uma casa na passagem São João corou nosso sonho. Simples, mas nossa. Nunca havíamos sonhado com tal possibilidade, mas Raul e Anaterra, durante 9 anos usufruíram do privilégio de acordar na praia, de passear cedinho no Ariramba e no final da tarde, na praça da Vila tomar sorvete, tomar tacacá, comer bolo de macaxeira ou unha de caranguejo com muito molha de pimenta no tucupi. Ou de manhã cedo ir comprar O Liberal ou Diário do Pará e peixe fresco no mercado, mas sempre parando pra uma tapioquinha feita na hora com coco ou manteiga. Nossa história está registrada nas areias da praia do Bispo onde caminhávamos quando a maré estava seca; na praia do Paraíso, onde o Raul quase se afogou e onde passamos nosso lua-de-mel; no Marahu, a nossa preferida...
Era preciso que o Manoel ficasse lá para sempre.
E assim foi feita a sua vontade.
A Consuelo, novamente a amiga a quem nunca poderei retribuir tanta generosidade, organizou tudo. O padre, a missa, os detalhes com o Marquinho, o piloto do ultraleve indicado pela outra querida amiga Érika Siqueira, a encomenda das pétalas de rosa, enfim, os detalhes que fizeram daquela manhã de sábado um dia inesquecível para todos os que presenciaram a grande e merecida homenagem ao Manoel.
Rever pessoas tão queridas que desde que deixamos Belém de forma tão atabalhoada sabíamos apenas que nos acompanhavam e torciam por nós à distância, ao mesmo tempo que elas traziam de volta lembranças adormecidas, nos confortavam. Certamente não lembrarei todos, mas ali estavam os muitos colegas que se transformaram em amigos no longo período que ele passou na Embrapa como a Noemi, Sonia Helena, Osmar, Milton, Zezé, Ana Mirtes, Gisele....Os familiares (meus e dele) tão abalados como nós, em especial o Pedro. O cunhado que nunca foi muito presente em nossas vidas, mas que nos últimos meses do Manoel foi seu anjo da guarda, seu amigo, seu irmão em toda a concepção da palavra. Os vizinhos queridos de Canudos : “seu” Dico, D. Ernestina, Sérgio (ou o Enjoado como ele chamava), Telma, os filhos deles ....A Graça, dona da creche Lar do Curumim onde Raul e Anaterra ficaram quando bebês. Alguém muito especial, amiga querida que muitas vezes participou das caranguejadas e cervejadas em nossa casa em Mosqueiro.
Após a bela e emocionante missa na pequena capela próximo ao tradicional bar Pastel do Oliveira, todos se dirigiram para a praia do Ariramba. A chegada do ultra-leve sobrevoando nossas cabeças trouxeram de volta as lágrimas. Em minutos as águas barrentas do rio Pará se encheram de pétalas de rosas e junto com ela uma leve fuligem que todos sabíamos eras as cinzas do Manoel. Ali ele repousaria, para sempre, o velho companheiro de copo, de planos, de sonhos, de bons desejos aos nossos filhos.
Impossível não soluçar, improvável não recordar os inúmeros momentos que passamos ali. Um filme desconexo, sem edição se misturava à imagem dos amigos nos degraus que dão acesso à praia.
Olhei para o Raul e a Anaterra e fiquei feliz pela sorte que tive de presenteá-los com um pai como o Manoel. Nunca esquecerão que aquele homem às vezes rude, encrenqueiro, mas predominantemente alegre, brincalhão, amoroso, orgulhoso deles a cada conquista, era também muito amado pelos amigos.
A referência de pai que eles levarão para o resto da vida é bem diferente da minha...