Quem sou eu

Belém/Ribeirão Preto, Brazil
Amazônida jornalista, belemense papa-xibé. Mãe, filha, amiga... Que escreve sobre tudo e todos há décadas. Com lid ou sem lid e que insiste em aprender mais e mais... infinitamente... Até a morte

Aos que me visitam

Sintam-se em casa. Sentem no sofá, no chão ou nessa cadeira aí. Ouçam a música que quiser, comam o que tiver e bebam o que puderem.
Entrem...
Isso aqui está se transformando em um pedaço de mim que divido com cada um de vocês.
Antes de sair me dê um abraço, um afago e me permita um beijo.

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segunda-feira, 1 de setembro de 2008

A vida dentro de uma caixinha

Os mistérios da morte há muito intrigam os homens. Filósofos em um passado muito remoto buscaram explicações que até hoje alimentam nossa alma para que a tosca compreensão não nos angustie mais do que a partida definitiva. Mas, nada do que se disser, não do que eu venha a ler, nem toda a minha crença será capaz de atenuar o vazio que tem tomado conta de mim ao conviver, pela primeira vez, com a morte ao meu lado.
Já perdi muitos entes queridos amigos maravilhosos que fazem parte da minha história, mas nenhum esteve na minha vida durante 18 anos de dia e de noite, participando ativamente de minha rotina, dividindo cada plano, discordando ou concordando com cada decisão. Essa deve ser a diferença básica. De repente, como num passe de mágica, não há mais a voz do Manoel ao telefone, mesmo aquela voz do final da vida, cansada, vagarosa, já sofrida. Nossa parceria que envolvia dividir o mesmo carro, a mesma cama, os mesmos filhos, a mesma casa, os mesmos amigos, os mesmos planos, está desfeita.
Tento entender como um processo lógico e natural que todos morrerão um dia, que esta é a certeza da vida. Entretanto, fico perplexa com as descobertas que nos transformam, da noite para o dia, em apenas lembranças. A incerteza da perenidade encoberta pelo silêncio de quem parte, aumenta minha aflição nessa busca por explicações convincentes inexistentes. Não será possível apenas passarmos por aqui e como num passe de mágica deixarmos de existir. Sei que podemos nos transformamos em uma energia, estarmos em um outro plano, sermos um espírito que está em fase de transição ou estarmos aguardando, como aprendi na Igreja Católica, o juízo final. Tudo faz sentido, mas como não ter mais nenhum contato, como aceitar que a partir do momento que o coração silencia nós nunca mais nos manifestaremos ? Como ?
Relembro momentos, perco-me em lembranças, palavras, gestos, cheiros e sinto uma inutilidade enorme pela construção do que não resiste. As roupas, livros, documentos, fotografias tudo permanece, mas você não !! A certeza da efemeridade, da passagem sem volta me assusta e me conduz a muitas reflexões. Acredito que toda essa angústia faz parte do luto, da necessidade de racionalizar o que nenhum homem foi capaz de justificar, mas apenas crer. É mais fácil, é mais reconfortante.
A partida se materializou e agora preciso conviver com o novo momento. Tão absurdo como nunca mais vê-lo. O Manoel, aquele amigo amado, pai amoroso me foi “devolvido” em uma caixinha de metal que agora está encima de uma pequena estante na casa ainda em montagem em São Carlo. Dia 2 de agosto entregamos um corpo, com o rosto que conhecíamos tão bem e no sábado, dia 30, recebemos um amontoado de pó, símbolo de que ele existiu. Uma pequena urna lacrada que me arrepia e me proporciona emoções antagônicas. Ele está ali, mas não está.
A caixa está me incomodando. Olhá-la e imaginar que ali dentro estão os restos do pai dos meus filhos, do marido que tanto me ajudou, que foi o maior de todos os companheiros em minha vida me assusta e até me revolta. Se ele agora é uma luz, uma energia, por que preciso tê-lo simbolicamente preso dentro daquela caixa de metal ?
Tudo é estranho. Tudo é muito novo. Talvez eu devesse, para o meu próprio bem, encarar a morte com mais naturalidade, ignorar a caixa, só olhar pra frente, pra vida que me espera. Mas não faz parte da minha natureza. Sempre quis compreender o que nem sempre pode ser compreendido, pensar e vagar em pensamentos são passatempos que alimento desde a infância quando me perdia em sonhos com os personagens das fotonovelas. Agora não seria diferente.
A cerimônia que antecede a cremação reúne todos os ingredientes para que seja marcante, símbolo da despedida. Bonita, amena, emocionante. Uma saudade dolorosa ao sairmos do local especialmente preparado para que seu ente querido não seja enterrado, não seja consumido pelos vermes do solo. A entrega das cinzas, porém, é mecânica, fria, como se fossemos apenas buscar uma encomenda. Uma mesa e duas cadeiras no meio de um salão rodeadas de pessoas chorosas que aguardam pela cerimônia de despedida, está um jovem a quem se entrega o canhoto que autoriza a retirada e pronto. Alguns minutos e ele retorna, cheio de sacolas como se estivesse chegado de compras em um shopping. Chama pelo nome de quem foi apanhar a caixa e sem nenhuma palavra ou gesto especial faz a entrega do que sobrou de alguém que um dia você dividiu tudo.
Precisava vivenciar essa experiência e crescer como ser humano. Valorizar mais o que antes parecia tão insignificante e renegar muito do que um dia considerei vital.
Hoje a caixinha com as cinzas está em casa. Uma casa que o Manoel sequer conheceu. Ele estará, de algum lugar, vendo tudo isso ? Converso com ele, peço que me mostre um caminho que me tranqüilize diante desse inconveniente desconhecido, que continue protegendo e guiando nossos filhos e que me permita viver mais do que ele e deixá-los mais maduros. Sonho com ele, mas com vida, em Belém e enquanto o tempo suficiente para a absorção da morte dele não transcorre, prossigo na busca pelo meu eu confuso, exigente, intransigente e talvez doente.

5 comentários:

Anônimo disse...

Olá, Ruth! Um abraço carinhoso, da Doralice Araújo.

ELIAS RIBEIRO PINTO disse...

Ruth:
Um dia vou te escrever com calma, momentaneamente liberto do vendaval em que vivemos e vamos nos deixando arrastar, mal tendo tempo para um vislumbre dos escombros que ficam pelo caminho.
Sabes, sou convincentemente ateu, mas banhado por todos os rios de poesia em que naveguei e navego.
A morte é o fim do corpo. Não há nada além. Mas aqui está o maravilhoso. Um exemplo. Machado de Assis (outro ateu convicto) morreu em 1908. Mas nunca esteve mais vivo que agora, no centenário de sua morte. Está vivíssimo nos seus livros, e a cada vez que alguém lhe lê uma página. Morreu-lhe o copro, mas a obra vive.
Nós, que não somos Machado, morreremos sem deixarmos uma obra à altura do Bruxo do Cosme Velho.
Mas ainda assim estaremos vivos em quem nos amou e compartilhou; nos traços dos filhos, se filhos houvermos tido (Machado não deixou a ninguém o legado de sua miséria).
Quero dizer minha amiga querida que o Manoel se foi, mas ele está, por ora, vivíssimo em ti. Depois, a cada vez, irá se apagando um pouquinho, estrela cadente, mas permanecerá parte de ti, e nos filhos sua carga genética estará presente fisicamente e num algo mais que podemos chamar alma.
Estás confusa, claro e naturalmente, diante dos apelos da vida, que continua a soprar e a te impulsionar para frente, mas ainda estás vincadamente presa às raízes que são o Manoel.
Antes, a vida impulsionava uma vida a dois. Agora estas só, e entendo o quanto podes estar só. Mas, aos poucos, se erguerá uma nova Ruth, feita de todas que até agora conhecemos (e que conheces), e refeita em moldes que irás aos poucos amoldando à vida que segue. E aí o nosso querido Manoel será uma parte compartilhada de um passado que irás redescobrindo num cheiro que transcende, num gesto que devolve afetos, num objeto ou paisagem que traz imagens afins, tempos outra vez vividos, amanhecidos em nós, assim, como só cada um é capaz de amanhecer-se e anoitecer-se. E saberás que foi amor, pronta então para redescobri-lo em outros perfumes e vozes, um ser comum devolvido à vida, em suas dores e prazeres. Terás recomposto as partes que somos, soma que também se conjuga de subtrações, de menos, de perdas.
Aí estarás outra vez reintegrada a essa humanidade, com suas plenitudes e ausências, pronta, nessa era virtual, a estabelecer conexões.
Minha querida, desculpa a pressa e o mau-jeito, mas queria te deixar algumas palavras. Outro dia, como te disse, tento expressar melhor esses sentimentos, os meus, que também se perturbaram com a partida do nosso, do meu Pai Manoel.
Beijos,
Elias

Afonso disse...

Oi Ruth! Foi muito bom poder falar contigo e com o Raul ao telefone. Espero que estejam bem! Beijos! Afonso.

graca corteletti disse...

Beijos...remedio não existe..só o tempo...
Graça

adelaide disse...

ruth,

imagina que a caixa é a extensão do teu coração...quem sabe ajuda.fé, esperança e saúde nos teus dias
adelaide