Quem sou eu

Belém/Ribeirão Preto, Brazil
Amazônida jornalista, belemense papa-xibé. Mãe, filha, amiga... Que escreve sobre tudo e todos há décadas. Com lid ou sem lid e que insiste em aprender mais e mais... infinitamente... Até a morte

Aos que me visitam

Sintam-se em casa. Sentem no sofá, no chão ou nessa cadeira aí. Ouçam a música que quiser, comam o que tiver e bebam o que puderem.
Entrem...
Isso aqui está se transformando em um pedaço de mim que divido com cada um de vocês.
Antes de sair me dê um abraço, um afago e me permita um beijo.

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sábado, 17 de novembro de 2007

A surpresa alheia

Não consigo ficar em casa apenas lendo, vendo TV, na Net ou ouvindo música. Por mais que tudo isso me dê um enorme prazer. Tenho que sair, ver pessoas, descobrir lugares, comprar novidades. Devo ser uma das poucas pessoas que adora ir ao supermercado. Não só vasculhar as prateleiras em busca do novo, como também observar as pessoas. Uma mania de adolescente que me acompanha até hoje. A partir das compras nos carrinhos tento deduzir quem é aquele ser que está ali ao meu lado, mas que nunca havia encontrado antes. Se ele (ou ela) tem porções pequenas, quantidades quase individuais e com grande praticidade, deduzo logo que vive só. De repente o carrinho está abarrotado de fraldas descartáveis e Leite Ninho: nenê novo em casa. Ou só refri diet, verduras, leite desnatado, queijo branco e uma grande variedade de frutas , é a galera da geração saúde com certeza e por aí vai...
Tenho ido a esses lugares com mais freqüência. Shopping, praças, supermercados, Estação das Docas, Ver-o-Peso, Icoaraci, igreja de Nazaré. Uma substituição natural aos barezinhos de calçada, aos churrasquinhos ou pizzarias.
Se por um lado essas mudanças ainda me causam impacto (sair da FAZ e nbão parar num botequinho pra tomar uma gelada com o Manoel às sextas-feiras tem sido um suplício), outro fator me incomoda bastante: a reação das pessoas que me conhecem e sabem que estou com câncer.
Não sei se chego a decepcioná-las por não estar pálida, esquálida, careca, de robe de estampa de florzinha suave do Ceará com dois bolsisnhos na lateral, chinelos de hospital e passos trôpegos. As que não conseguem disfarçar a surpresa, indagam logo que souberam que eu estava doente como se a notícia não passasse de um boato. Outras nem tocam no assunto e muitos evitam falar "dessa doença". Sim, porque há outros que para não dizer a palavra câncer, usam, como os médicos, CA ou simplesmente se referem a ELA.
Quanta bobagem !!
De fato não tive muitas mudanças visuais perceptíveis. Apenas as que provoquei: cortei o cabelo bem baixinho, clareei e emagreci alguns quilos. Mas porque me punir se estou me sentindo bem ? Se acredito que ficarei curada ? Se quero viver mais ? Se ainda nem comecei o tratamento do câncer ? Se neste momento o que sinto é apenas uma grande frustação por não poder saborear uma picanha ou um caranguejo devidamente acompanhado de umas cerpinhas estupidamente geladas ?
A surpresa é evidente e eu chego mesmo a me divertir ...