Quem sou eu

Belém/Ribeirão Preto, Brazil
Amazônida jornalista, belemense papa-xibé. Mãe, filha, amiga... Que escreve sobre tudo e todos há décadas. Com lid ou sem lid e que insiste em aprender mais e mais... infinitamente... Até a morte

Aos que me visitam

Sintam-se em casa. Sentem no sofá, no chão ou nessa cadeira aí. Ouçam a música que quiser, comam o que tiver e bebam o que puderem.
Entrem...
Isso aqui está se transformando em um pedaço de mim que divido com cada um de vocês.
Antes de sair me dê um abraço, um afago e me permita um beijo.

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sexta-feira, 26 de junho de 2009

O CHICO EM MINHA VIDA

Todos os que me conhecem um pouquinho sabem da minha paixão, admiração e sei lá mais o que pelo FRANCISCO BUARQUE DE HOLANDA. Quando ele nasceu ? eu sei !! quantas filhas teve ? eu sei? Onde buscou exílio ? eu sei ? onde morou... que cursos fez.. e principalmente sei muito de suas músicas, seus livros, suas peças de teatro.
Só não sei exatamente quando essa relação unilateral começou, mas tenho uma cena bem nítida em minha memória. Anos 70, talvez 1971, eu com 13, 14 anos e encontro entre tantos discos na casa da minha tia Jorgete um do Chico. Não sabia quem ele era, apenas fiquei maravilhada com os seus belos olhos verdes e todas as vezes que ia na casa dela dava um jeitinho de ouvir Construção, Cotidiano ou sei mais o quê. Mas ainda mais encantada com o homem, com aquele rapaz de rosto doce e ar de bom moço.
Aos 18 anos, já freqüentando a redação de A Província do Pará o sentimento deu um salto. Além do homem lindo descobri o poeta, aquele que melhor conseguia traduzir o que nós, jovens dessa geração, vivíamos: medo, rebeldia, insatisfação, impotência e uma vontade louca de provocar mudanças.
Nunca mais parei de acompanhá-lo e ele nunca mais me deixou e à medida que fui amadurecendo ele foi também mudando. Saí da Construção e passei por Cálice que sabia censurada, mas não conhecia; Tatuagem, que até hoje me arrepia; Olhos nos Olhos, Feijoada Completa, Geni e o Zeppelin até hoje rejeitada pelos falsos moralistas; O Meu Amor que queria ter escrito pra alguém.
Momentos e muitas pessoas me são trazidas de volta à memória através do Chico. Como a Sula, amiga com quem dividi apartamento e acompanhei de perto a gravidez e primeiros anos do seu filho e que não suporta ouvir Vai Passar. Estava grávida do Ivan, período de enjôo que eu tornei mais difícil de tanto ouvir a fita cassete que me fora presenteada por outro amigão, o Marcos Magalhães, trazida especialmente pra mim do Rio de Janeiro. Naquela época não se falava em pirataria...
Meu casamento informal com o Manoel depois de 11 anos de casamento de verdade, na capela da praia do Chapéu Virado em Mosqueiro teve como fundo musical apenas músicas do Chico e na entrada, ao contrário da marcha nupcial, eu e meu tio Jaime percorremos aquele interminável corredor ao som de Eu te Amo : “ahh se já perdemos a noção da hora, se juntos já jogamos fora, me conta agora como hei de partir...”.
Tem ainda Iolanda cantada em parceria com o Pablo Milanez. Parte em Português e parte em Espanhol. Lembranças... doces lembranças ...Ou as que a Anaterra já dançou tantas vezes quando ainda era tão pequena como “Os Saltimbancos”.
Gosto de tudo o que ele faz, mesmo tentando ser imparcial. Li os livros (Estorvo, Budapeste, agora o Leite Derramado...) e me delicio quando me proponho a ouvir aquelas músicas que não são as mais conhecidas, mas que me embalam em doces sentimentos, me levam a refletir sobre a vida, sobre as emoções que ele ou alguém de seu imaginário vivenciou.
Sozinha, no mais absoluto silêncio me perco no jogo de palavras e confusos encontros e desencontros da vida em canções tão fortes, tão profundas e tão maravilhosamente belas como Não Sonho Mais (dele e de Francis Hime), Você vai me seguir, com Ruy Guerra; Funeral de um Lavrador com João Cabral; Mar e Lua; A Mulher de Cada Porto e Beatriz, ambos com Edu Lobo. Ahh.. são tantas... tantas...
Os que foram à festinha dos meus 50 anos sabem muito bem o quanto essa pessoa que não me conhece (e talvez nunca venha a me conhecer) é tão importante para mim. Tudo lembrava o Chico: o bolo com a belíssima caricatura, presente do Sérgio Bastos; a música na voz do Alexandre Souza e a platéia de grandes amigos, todos admirados dele, entoando solenemente suas canções.
Meus filhos foram embalados por suas músicas. Substitui as canções de ninar pela obra do Chico mesmo que elas tivessem refrões como “joga bosta na Geni” ou “saudade é o revés do parto. Saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu”. Hoje conhecem e até gostam dele como poucos adolescentes.
Quando estivemos no Rio de Janeiro em abril passado, além da programação típica de turista, eu, Anaterra e a minha sobrinha Ana Júlia fomos ver a peça “Meu Caro Amigo” com a atriz Kelzi Ecard. Vi a programação pela Net do que estava em cartaz e a mais próxima do Chico era essa. Um domingo de decisão entre Botafogo e Flamengo, mas assim mesmo o Teatro Leblon estava repleto.
Vi, chorei, me encantei com o monólogo musical que conta a história de uma professora de História do Brasil, cinquentona, que tem a sua vida ciceroneada pelo Chico. Kelzi dá um show. Parece ser ela a Norma e não um personagem. Depois que ela deixou o teatro me aproximei meio tiete e contei que era uma Norma também. Simpática conversou, comentou sobre a peça, autores e quando eu disse que morava em São Carlos falou que havia previsão de apresentação na cidade. Trocamos e-mail e no último domingo de novo fui ver, através da impecável interpretação da Kelzi, o Chico personificado em um ser único, que transforma, que acrescenta, que faz pensar e nos deixa estarrecidos ou revoltados. Nos faz acreditar mais e mais no amor ou a odiar qualquer paixão e acima de tudo desnuda nossa alma feminina com tanta naturalidade que mesmo expostas no mais íntimo de nosso ser, o perdoamos. É assim que me sinto quando sem pudor, diz :
O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
De me fazer rodeios
De me beijar os seios
Me beijar o ventre (sexo)
E me deixar em brasa
Desfrutar do meu corpo
Como se o meu corpo fosse a sua casa, ai