Quem sou eu

Belém/Ribeirão Preto, Brazil
Amazônida jornalista, belemense papa-xibé. Mãe, filha, amiga... Que escreve sobre tudo e todos há décadas. Com lid ou sem lid e que insiste em aprender mais e mais... infinitamente... Até a morte

Aos que me visitam

Sintam-se em casa. Sentem no sofá, no chão ou nessa cadeira aí. Ouçam a música que quiser, comam o que tiver e bebam o que puderem.
Entrem...
Isso aqui está se transformando em um pedaço de mim que divido com cada um de vocês.
Antes de sair me dê um abraço, um afago e me permita um beijo.

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quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Permissão para (re) viver

Com certeza a marca registrada do Manoel foi e sempre será o de pai. Pai dos filhos que teve comigo e dos sobrinhos (dele e meus), talvez por isso tenha sido tão difícil este primeiro Dia dos Pais sem a presença dele.
No sábado, mamãe, eu, Anaterra, Raul, Ruy, Dóris, Ana Júlia e Sula fomos à missa em intenção a ele. Uma missa rotineira na igreja de Santo Expedito nos fez desabar na saudade, nas lágrimas, no sentimento de perda enorme. O Padre, um negro jovem e simpático, nos identificou como a família da pessoa que tinha apenas sete dias de falecido. Certamente nosso semblante denunciava a dor. Várias vezes, durante a cerimônia religiosa, ele se dirigiu a nós, pediu que tivéssemos paciência e muita fé e disse que fé é algo que não se vê e não se explica, apenas se sente. Falou da perda do pai dele e na saudade que ainda sente. A missa era para os Pais e os pais presentes foram homenageados com uma bela canção entoada pelos jovens da paróquia. Que dor ouvir aquelas palavras, saber que nunca mais meus filhos abraçarão o pai deles, que nunca mais o Dia dos Pais terá o significado que tinha até o ano passado.
Sempre gostamos de festas e essas datas eram para nós mais do que simbolismo comercial. Eram momentos para nos reunir com a família, os sobrinhos aparecerem para um abraço e participarem do farto almoço. Motivo para implícita e carinhosamente dizerem a ele que era um pai também de todos nessa família onde a presença feminina sempre foi muito acentuada. Muitos presentes, muitos abraços ,muito barulho... Bem diferente deste domingo em que as lágrimas cederam lugar aos sorrisos, em que arrumar a mala que veio do hospital com tantas dolorosas lembranças substituiu o desfazer dos pacotes coloridos. Os óculos, as cuecas largas e as roupas e sapatos nunca usados. Quando arrumei a mala em Belém fiz questão de incluir peças de roupa que imaginava ele iria usar em São Carlos ou num passeio em Sampa. Nunca me detivera na possibilidade de que elas iriam vesti-lo depois de morto. A Doris ajudou na seleção e o Ruy, sem problemas, aceitou ficar com algumas. Ele não se incomodará. Era generoso.
Agora quero permissão pra viver, para retomar meu rumo, para olhar de novo pra mim. Não esquecerei nunca o Manoel. Foram 18 anos de convivência diária, pacífica, carinhosa, respeitosa, mas não posso ficar atrelada à saudade, mesmo que ela chegue sem pedir licença, mesmo que as lembranças me invadam só de ver um carro antigo como ele sonhava ter, passar diante de mim ou de nunca aprender como furar uma parede ou apertar um parafuso.
Não aceitarei as pressões dos que, hipocritamente, insinuam uma viuvez do século retrasado. Minha saudade e minha dor são minhas e só eu sei como as sinto, onde dói, quando dói e porque dói.
Hora de olhar o mundo à frente e de frente, viver os dias (que espero sejam muitos anos!) que ainda me restam.
Voltar ao ambiente da Embrapa foi um marco neste recomeço. A Área de Comunicação Empresarial e Negócios da Embrapa Instrumentação Agropecuária de repente se transformou em um porto seguro que me indica que um novo navio aportará. Na chegada, segunda-feira, uma recepção que me surpreendeu e me emocionou.
Um grande banner na parede e o texto
“Ruth Rendeiro
Seja bem-vinda à Embrapa Instrumentação Agropecuária. Ainda que extra-oficialmente, mas já estamos felizes por saber que teremos a oportunidade de dividir com você o mesmo espaço, de conhecer e ouvir um pouquinho das suas histórias e estórias, partilhar do seu conhecimento, desse jeitinho simples de ser mulher. Siga em frente e caminhe segura. Você não está sozinha, ainda mais agora que descobrimos sua paixão pelo Chico”.
Estava de novo em casa. As raízes com a Embrapa Amazônia Oriental são eternas. Ali entrei ainda jovem, ingênua, cheia de sonhos e quase nenhum plano. Ali cresci, conheci o Manoel que se tornaria pai do Raul e da Anaterra, fiz grandes e eternos amigos (relacioná-los seria cometer injustiça) e durante esses meses de enfermidade do Manoel, a constatação de que o que plantamos foi bem adubado, regado e floresceu. Apoio, ajuda e demonstrações de carinho amenizaram a perda.
Agora estão do meu lado, dividindo a mesma sala, a Joana (jornalista generosa que no primeiro contato, ainda de Belém, abriu as portas pra mim), a Beth (que já me permiti uma empatia que ao longe denota uma amizade bonita e forte), o Valentim (que já conhecia das exposições Ciência para Vida) e o Carlos, Sandra, Fabiana e Valéria que acabam de entrar em minha vida. Uma mesa, um aparelho telefônico com ramal e um computador já me aguardavam. Agora é prosseguir com a monografia e mesmo antes de voltar oficialmente (o que só acontecerá em outubro) me envolver em atividades que gosto, que me realizem, que me ocupem, que me façam bem.
Volto a me estressar com os meninos, sinal de vida, de vitalidade. Muito difícil para eles, entenderem tantas mudanças bruscas em tão pouco tempo. O vazio da ausência do Manoel os perturba. Não podem mais se locomover como antes, não têm mais o pai para intermediar quando o conflito comigo parecia inegociável; já não têm mais pai... Algumas vezes sinto que exijo demais deles. Não os preparamos para essa nova fase da vida. Desarrumam demais a casa e agora já não temos também a dona Lúcia que durante 14 anos esteve à disposição limpando, lavando, cozinhando, varrendo, guardando o que deixavam espalhado pela casa. Minha mãe não veio para ser doméstica. Precisa da ajuda de todos. Levará algum tempo para que uma rotina de casa sob nova direção se imponha.
Agora tento agora olhar mais pra mim. A primeira consulta com o mastologista de Campinas, indicado pelo oncologista, me agradou bastante. Experiente, seguro e profissional. Um exame minucioso, o primeiro para conhecer meu corpo, entender minha vida e avaliar-me sob diferentes aspectos. Duas recomendações básicas: diminuir os quilos e fugir do estresse. Prometi tentar as duas coisas. Vou a busca de ajuda de um nutricionista, de um professor de educação física e de algo que possa conter minha ansiedade, minha necessidade de estar ocupada, de estar sempre na ativa. Preciso aprender a não fazer nada, a ler mais e mais, a ouvir minha respiração, a olhar calmamente os passarinhos que visitam nosso pátio, a ficar comigo em silêncio.
A proximidade com a morte me deu a certeza de que vale a pena viver e viver são momentos, dias, horas, segundos e intensamente, sem medo, sem muitos freios e temores. Podemos estar sendo devorados silenciosamente ou com um acidente marcado em nossas agendas sem aviso prévio.
Quero permissão pra chorar, mas só quando tiver vontade e não para impressionar alguém que precise me ver triste para acreditar que de fato estou sofrendo
Quero permissão para sentir a minha dor sem que necessite estar de preto, com o rosto sem maquiagem ou com o cabelo desalinhado.
Não sou tão forte como querem me fazer acreditar, como muitos têm ressaltado. Acredito que estou apenas reagindo às situações adversas que a vida me impôs.
Sofro, choro, me lamento, me pergunto e não encontro respostas e tento viver.
Fico depressiva, reajo. Fico indignada, levanto. Fico desnorteada, revejo-me.
E luto, luto, provavelmente uma luta pela sobrevivência como qualquer animal acuado.

6 comentários:

Carol Saboia disse...

Oi! Eu de novo!
Acabei de ler seu novo texto. As coisas são exatamente assim. Cada singelo e pequeno detalhe, a gente pensa, imagina: "se ele estivesse aqui, provavelmente diria, faria, pensaria isso...". A mudança de verbos é dolorosa.
Mas vida que segue, Cazuza cantou: "o tempo ñ pára". Crescemos ouvindo isso: a única certeza da vida é o seu inverso, mas a ignoramos, é menos doloroso.
Nós sempre escutamos: "grande coisa! Dia dos namorados, natal, dia das mães, tudo isso só p/ enriquecer empresários". Bom, se a finalidade é realmente essa, ñ importa. O fato é que quando ouvimos: "ñ perca essa promoção de natal, círio, páscoa, etc...", lembramos de alguma época em que essas datas, comerciais ou ñ, eram um ótimo motivo p/ celebrar, p/ se reunir, p/ sair da dieta, p/ ajeitar a casa e receber os convidados...
Mas espero que uma nova cidade, uma nova rotina, novos ares diminuam a saudade do outro lado cama. Se vai funcionar? Nos primeiros dias, ñ. Se o tempo diminuirá as lágrimas? Provavelmente ñ, mas torço p/ que ele traga novos risos!
Bjos Ruth!

Ana disse...

Olá,

Essa permissão, só pode ser dada por você mesma. E, pelo visto, com a força da fé, você conseguirá se permitir viver. Pois, a sua vida continua........

Um grande abraço,

Ana Mirtes

graca corteletti disse...

ola amiga,euuu se comunique pelo email:gracacorteletti@gmail.com
Beijos e aguardo

graca corteletti disse...

ola amiga,euuu se comunique pelo email:gracacorteletti@gmail.com
Beijos e aguardo

Lívia Barbosa disse...

Minha mana Ruth,
Embora não estejamos nos falando com freqüência "em pessoa", tenho te acompanhado pelo blog, e tido a ti, Manoel e os Meninos nos meus pensamentos e preces, abraçando e acarinhando vocês e pedindo que onde quer que o Manoel se encontre, possa refazer-se e readaptar-se o quanto antes às novas condições de vida que Deus prevê para nós.
Quero um bem imenso a vocês, podes ficar certa. Sempre-sempre.
Beijo.

Anônimo disse...

Ruth,
É isso aí, mulher! Tens a base e a história de vida como exemplos para um recomeçar, com respeito ao seu passado lindo e muita fé no futuro, seu e dos seus filhos. Todos os seus textos, tristes ou não, são de valorização à vida, aos detalhes do dia-a-dia, às pessoas anônimas ou amigas que passam pelo teu caminho.É mais que coerente, portanto, seu desejo de "viver sem muitos freios e temores".
Um abraço apertado e sucesso também na nova fase profissional.
Fique em paz e saúde, muita saúde!
Gilceana