Quem sou eu

Belém/Ribeirão Preto, Brazil
Amazônida jornalista, belemense papa-xibé. Mãe, filha, amiga... Que escreve sobre tudo e todos há décadas. Com lid ou sem lid e que insiste em aprender mais e mais... infinitamente... Até a morte

Aos que me visitam

Sintam-se em casa. Sentem no sofá, no chão ou nessa cadeira aí. Ouçam a música que quiser, comam o que tiver e bebam o que puderem.
Entrem...
Isso aqui está se transformando em um pedaço de mim que divido com cada um de vocês.
Antes de sair me dê um abraço, um afago e me permita um beijo.

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terça-feira, 5 de agosto de 2008

A partida definitiva

Difícil escrever sobre a morte, uma despedida que todos enfrentaremos, mas que não queremos sequer cogitar. Impossível viver sem ela. A partida definitiva da matéria que nos acompanhou e nos envolveu. Se as partidas nos aeroportos, rodoviárias e portos causam tantas lágrimas, mesmo diante da hipótese do reencontro, não poder mais tocar, ouvir a voz ou apenas ver à distância parece em alguns momentos insuportável.
Vivo agora essa dor. Nego-me a acreditar que nunca mais verei o Manoel, meu colega de Embrapa que numa festinha de São João tornou-se, em menos de seis meses, o pai do filho há tanto sonhado. Brincalhão, meninão, amigo, prestativo, solidário, responsável, ético, bom caráter, profissional ilibado e acima de tudo o melhor de todos os pais.
Difícil aceitar que não ouvirei mais sua voz reclamando da minha rigidez nos horários ou cobrando melhores notas dos filhos na escola. Ou simplesmente saudando os vizinhos com o inconfundível “e aí seu menino ?”.
As lembranças se formam como um filme e não param de se avolumar. Recordações do nascimento dos filhos, os aniversários, as caranguejadas, as idas ao Ver-o-Peso, as cervejas sempre geladas à disposição dos que nos visitavam, a intransigência quando decidia fazer algum serviço na casa. Sempre o mais complicado, sempre o mais perfeito. Choque constante com a minha velocidade, praticidade e pouca rigidez.
Há outras lembranças, porém. As mais recentes, as que têm nos ajudado a entender e a aceitar esse momento. O sofrimento não combinava com ele, mas mesmo assim se manteve forte, otimista e nunca se entregou. Sabíamos, mesmo diante da melhora temporária, que era só uma questão de tempo. A infecção que o levou à morte não conseguia ser debelada e o pulmão atingido estava paralisando. Precisava de máscara para respirar, de fisioterapia pulmonar e de muitos medicamentos que protegiam e o debilitavam ao mesmo tempo. O sangue, sem plaquetas, não mais coagulava e um simples cateter com oxigênio no nariz era motivo para um sangramento intermitente que ele bravamente limpava como se fosse secreção de um resfriado.Minimizando o quadro grave e incômodo.
O Manoel naquela cama, não era mais o Manoel de Belém. Os que têm apenas a lembrança do homem forte e bom camarada devem estar mais impactados com a morte dele do que nós que não queríamos que esse sofrimento se prolongasse. Ele estava morrendo um pouco a cada dia, com dignidade, sem se revoltar, mas com muita dor, limitações.
Sofria ao ser tantas vezes furado em busca de uma veia mais resistente. Com a falta de apetite, com o cansaço quase insuportável pelo mínimo esforço de ir ao banheiro, pela força para tomar um banho, mas precisava mostrar-se bem, se convencer, nos convencer. Os remédios via oral amargos, o café sem açúcar, a comida quase sem sal e a proibição de nem abrir a janela. Um mundo que totalmente incompatível com a sua alegria.
Sofria também por nós. Tinha consciência do quando estávamos fazendo por ele, o quanto mexemos em nossa vida. Não comentávamos, mas sabia do quanto sofríamos em silêncio. Como um acordo tácito, tentávamos transformar cada ínfima melhora na cura, cada simplória conquista na vitória final. Percebia que sofríamos por ele, por não estar vivenciando conosco esse momento de mudança, de novos planos. Por saber que estávamos vivendo em função dele. Horas e mais horas na estrada, malas e mais malas sendo arrumadas e desarrumadas, hotéis no lugar de uma casa e a falsa alegria de reencontrá-lo cada dia mais debilitado.
Sofria por mim. Por saber que tinha relegado a segundo plano meu tratamento, por estar agindo sozinha em tantas coisas que sempre fora responsabilidade dele, por estar administrando com muito zelo o nosso dinheiro e ele ali, preso às máquinas, aos frascos de remédios que só o intoxicavam numa tentativa desesperada de salvá-lo.
Quando nos despedimos dele na quarta-feira estava com a grande máscara que tentava fazer o pulmão captar mais oxigênio. Brincávamos que parecia um pitbull passeando na praça. A última lembrança dele consciente foi um gesto de repreensão a Anaterra para que fosse mais obediente, menos malcriada. O dedo em riste sem palavras...
Deixamos o hospital lastimando a partida. Mas acreditávamos que voltaríamos logo e ele já estaria melhor para comemorar com os meninos o Dia dos Pais. Mesmo a internação no CTI parecia fazer parte do tratamento. A frase dita pelo médico de que “só os que têm chance vão para o CTI” de alguma forma me confortava. Sábado nos encontraríamos e logo logo ele estaria no quarto. Mas até quando, eu me perguntava ? Não queria ser a pessimista, mas no meu choro silencioso e solitário sabia que muito em breve a despedida definitiva aconteceria. A referência do hospital, a competência dos médicos não podiam ser desconsideradas. Certamente já viram inúmeras vezes o mesmo quadro e sabiam que estavam lutando contra o quase impossível. Não queria ver, não queria acreditar, por isso nossos planos se mantiveram e fomos para São Carlos. Lá matriculei Raul e Anaterra na nova escola, tentei transformar a casa em algo que pudesse nos receber com o mínimo de conforto, como ter uma cama digna que tirasse os meninos dos colchonetes no chão. Mas não tinha agenda, nem planos para receber os móveis. Não podia me organizar, nem mesmo comprar um vasinho de planta ou algo mais perecível que permanecesse na geladeira. Onde estaria no dia seguinte ? Quanto tempo ficaríamos fora ? A plantinha resistiria ? A comida não estragaria ?
Sábado deixamos São Carlos. Eu com o propósito de passar a semana inteira em São Paulo. Tudo organizado para que os filhos ficassem com a mamãe. Muitas recomendações, muita saudade antecipada deles. Mas o Manoel precisava de mim.Ou pelo menos eu achava isso ...
O que nos esperava era o que já imaginávamos estar preparados, mas que nunca estaremos. Ouvir do médico que ele tinha poucas horas de vida. Os órgãos vitais já estavam entrando em falência e a infecção avançava descontroladamente. Apenas aparelhos e fortes medicações o mantinham vivo. Uma dor dilacerante e uma grande impotência tomou conta de mim. Lá embaixo aguardavam Raul, Anaterra, mamãe e a Doris. Como me controlar e apenas comunicar que o nosso Manoel estava se despedindo deste mundo ? Eu e o Pedro nos abraçamos e choramos antes de levar a mais triste notícia que já dei.
Passados alguns minutos, fomos os três ao CTI nos despedir. De mãos dadas, eu, Raul e Anaterra dissemos adeus àquele que tanto marcou as nossas vidas. Lágrimas, palavras e um forte abraço selou o último contato com ele. Não sabemos se nos percebeu, mas acreditamos que sim. Sentiu a nossa dor, ouviu nossos soluços e certamente chorou por ter que nos deixar. Agora era esperar pela notícia e ela chegou logo depois das 23 horas desse mesmo dia (2 de agosto).
Outros momentos nunca vividos por mim, pelo Raul, pela Anaterra e pela mamãe nos aguardavam. Ao nosso lado, dando apoio incondicional a incansável Doris, Sula, Ivan e o Pedro. Os representantes de sua família distante e dos incontáveis amigos. As providências são dolorosas, mas necessárias. Funerária, documentos, cheques, decisões. Optamos por uma cerimônia simples e rápida que culminasse com a cremação do corpo. Seu desejo. Nosso desejo. E assim foi feito e no final do ano ficará eternamente na praia do Ariramba, na ilha de Mosqueiro como pediu.
Antes porém, era preciso colocá-lo em um caixão e nos despedir mais uma vez. Mais dor ...Aquele corpo inerte não nos via mais. Ele não falaria mais conosco... Ahh como é difícil acreditar !
Rezamos de mãos dadas no necrotério do Hospital ACCamargo. Por ele, por nós... Falei do privilégio de ter tido o Manoel como companheiro, como pai dos meus filhos, como amigo, incentivador, admirador. Depois, a longa viagem até a Vila Alpina, onde fica o crematório. Outra cerimônia bonita, com música, serena, calma onde predominava o som vindo dos soluços da Anaterra. Tão jovem a minha filha e já vivenciando uma perda tão grande.
Tenho procurado, porém, mostrar a eles que mais do que a dor da partida prematura, temos que celebrar ter convivido com ele, aprendido com ele, crescido com ele. Pouco ou quase nada adiantaria ter um pai com 70, 80 anos que em nada lembrasse o Manoel. Ele foi cedo (faria 51 anos em novembro), mas viveu mais de 100 em intensidade. Era esse o tempo que Deus tinha reservado para ele ao nosso lado.
Ficamos cheios de saudade, com lágrimas que brotam a cada telefonema dos amigos e familiares de Belém, a cada objeto encontrado na sacola que veio do hospital ainda com o seu cheiro, sua marca, mas estamos em paz. Tudo foi feito para tentar salvá-lo, para devolver sua saúde. Não havia mais chance. A doença traiçoeira já lhe fizera refém. Tê-lo a qualquer custo seria egoísmo e sofrimento para todos. Vê-lo morrer lentamente de dor e de tristeza nos mataria também.
Agora queremos apenas deixá-lo vivo em nós, em nossas lembranças, em nossos corações. Nunca o esqueceremos, nunca a nossa vida será a mesma sem a presença dele, mas precisamos continuar vivendo e sei que assim que ele queria. É assim que espera que eu aja.
Preciso retomar meu tratamento, cuidar mais de mim e tentar, de todas as formas, driblar uma recidiva, uma metástase. Tudo farei para que o câncer também não me leve tão rapidamente. Por isso ficarei em São Carlos. São Paulo me permitirá ter acesso a um acompanhamento digno e eficiente e um tratamento (se for o caso) que me permitirá lutar. Belém é a minha cidade do coração, o lugar que nasci, que amo, mas agora preciso aprender a viver longe dela, longe dos amigos. Por mim, pelos meus filhos.
Chego a acreditar que a doença do Manoel foi o instrumento para essa mudança. Talvez não houvesse outra forma de nos trazer pra cá, de permitir que nossos filhos pudessem ter uma qualidade de vida melhor, mais oportunidades profissionais, de usufruírem o que não nos foi permitido.
Nossa vida agora recomeça. Está mais triste, mais vazia, mas aprendemos muito com tudo isso, crescemos como família, como pessoas. Estamos mais unidos, mais conscientes do nosso papel nesse mundo, valorizando cada palavra que chega pelo telefone ou por e-mail, cada abraço apertado mesmo que seja virtual.
Sei que ele continuará me ajudando. Só que de outra forma.
Onde estiver estará guiando nossos filhos, protegendo-os e me apoiando nas decisões, nas loucuras que cometia e que ele apenas endossava, às vezes assustado com a minha impetuosidade, ousadia e até irresponsabilidade.
Nossa dor é só nossa. Cada um sente a sua, manifesta seu pesar do seu jeito. O meu será homenageá-lo sempre, preservar sua memória junto aos filhos e viver. Olhar pra frente e ser feliz mesmo que a saudade perdure para sempre.
Essa saudade que me traz agora lágrimas enquanto escrevo, que me acompanha quando deito, mas que também me dá a certeza de que só a sinto porque vivi, porque ele esteve ao meu lado.
Um abraço Manoel e até outro dia....

16 comentários:

Rosanne d´Oliveira Echebarrena disse...

Você é maravilhosa! SAUDADES AMIGA! SINTA-SE ABRAÇADA....

Anônimo disse...

Postei no outro por engano e passo agora prá cá.

Ruth,

Sua palavras fortes, amorosas e intensas, comovem a todos nós que acompanhamos sua luta através do blog, após o que sou levada por intensa emoção a reafirmar para você o nosso - de todos nós -destino e condição inexpugnável e tentativas de um drible.

Por quê? por que eu? por que comigo? por que aqui e agora?
E não vale só para doença e morte, mas para tudo o que nos traz dor e sofrimento, multiplicado conforme o tempo a que somos submetidos ao infortúnio.

Há vários tipos de perda, dolorosas,externas, internas, inexplicáveis e incomparáveis,
- sei, nada tão decisivo quanto à morte, anulação de possibilidades.

E aí Ruth, outra determinação ancestral, anterior e exterior a tudo que nos rodeia, nos traz outro e mais outro e mais outro amanhecer, com infinitas possibilidades pertinentes à vida, que independente de nossos "emperreios" - e de quem nos acompanha - continua a latejar em nossos membros, pensamentos e sensações ao longo de nosso corpo, limite/ponto de partida de nossa i-materialidade.

Ontem, hoje, amanhã, cedo ou tarde, topamos sem querer, sem pedir, sem esperar, com uma pedra no meio do caminho, desde então, lembrando e aprendendo com você o salto mortal a nos livrar da danação eterna enquanto gente.

Valha-nos Ruth!!!

Heliana Martins Lima

Lilian Bayma disse...

Querida Ruth

Somente hoje soube da partida do Manoel. Receba meu abraço de conforto amigo e força. Fica com Deus.

Lilian Bayma

Maria Lúcia Morais disse...

Ruth,

Muita força nesse momento tão triste.

O Manoel não merecia partir tão cedo.

Estamos torcendo por você e sua família.

Um forte abraço.

Maria Lúcia

Joice Santos disse...

Ruth querida,

Soube agora da partida do Manoel.
De cá da terra, envio beijos, abraços e orações para que vc, Raul e Ana prosigam com força, coragem e muito amor. Pois, como vc testemunhou, é esta história que vc e Manoel construiram: vida plena. Pois sigam agora com a energia sempre digna daqueles que sabem amar nas melhores e mais dolorosas situações.
De quem tem fé e te admira

Joice Santos

Anônimo disse...

Que bom que está tendo força e coragem para enfrentar mais esta "provação". Continue assim, por você, pelas crianças e principalmente pelo Manoel, que deve estar muito orgulhoso de você.

E não esqueça: se precisar, estamos por aqui. Se pudermos fazer mais alguma coisa além das orações....

Um abração,

Ana Mirtes

Anônimo disse...

Ruth,
Muita força para você, Raul e Anaterra.

Sumara

Ana Paula Sampaio disse...

Amiga Ruth, não sabia que escrevia, e de uma maneira tão linda... Acompanhei sua história e do Manoel na comunidade de quimio.
Essas perdas... elas doem tanto. Não sei o que te dizer, apenas que tenha coragem e força até o dia do reencontro. Beijos!

Simone Corrêa disse...

Professora Ruth,só agora soube da perda irreparável.Sinto muito.Fique certa que Deus sabe de todas as coisas e só Ele pode lhe fortalecer todos os dias,que Deus a abençoe.
Beijos,
Simone Corrêa(aluna da Faz,do curso de Comunicação,lembra?)
se quiser falar comigo,está aqui meu e-mail:simpaes@hotmail.com

Anônimo disse...

Ruth, meu abraço bem apertado (mesmo que virtualmente) em vc e em seus filhos.
Bom saber que vc busca força escrevendo (que é natural seu) e
principalmente em Deus!
Ele só mudou de plano, continua vivo, alegre, como era...fica apenas a saudade...mas a certeza que vc um dia irão se reunir novamente.
Fé, cuide-se por por ele, por vc e pelas 'crias'.
bj no seu coração bravamente lutador!
Jesus Cruz

Juliana Rose disse...

Ruth,
Estou imensamente sentida por vc e por seus filhos. Seu texto é lindo e mostra o quanto vc tem garra, mesmo nesse momento.
Gostaria muito de te dar um abraço em vc e em seus filhos.
Força sempre!!!
Juliana Rose

Netília disse...

Ruth, fiquei emocionada pelas coisas lindas que você escreveu, pelo que está vivendo...
Que poderia eu mais dizer?
Cuide-se, você e os seus.
Torço por vocês.
Netília.

Anônimo disse...

Ruth, acompanhei um pouco de sua luta e vi como você é forte, Deus está ao teu lado te guiando e dando forças pra que você consiga administrar esta fase de sua vida, não sou a pessoa mais indicada pra falar pra você mas queria dizer o quanto senti pela partida de Manoel que também não conhecia pessoalmente, foi através da Dulcivânia que soube do ocorrido, e com muita tristeza te escrevo, espero que consiga passar um pouco de força, rezo por você e sua família, que Deus dê o conforto que vocês precisam, um grande abraço pra vocês. Joelma(João Pessoa-Pb).

Nicolle disse...

Tia, soube apenas hoje da morte do Tio Manoel, sinto muito pela sua perda, mas pensar que ele foi um grande marido, pai, companheiro, só fortalece as nossas lembranças dele, uma abraço para você, para a Anaterra ( amiga do peito ) e para o Raul.

De coração,

Nicolle

adelaide disse...

ruth,

dediquei orações à vc e sua família.força extrema nos dias que se aproximam.
fiquem com deus.
adelaide

freefun0616 disse...

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