Quem sou eu

Belém/Ribeirão Preto, Brazil
Amazônida jornalista, belemense papa-xibé. Mãe, filha, amiga... Que escreve sobre tudo e todos há décadas. Com lid ou sem lid e que insiste em aprender mais e mais... infinitamente... Até a morte

Aos que me visitam

Sintam-se em casa. Sentem no sofá, no chão ou nessa cadeira aí. Ouçam a música que quiser, comam o que tiver e bebam o que puderem.
Entrem...
Isso aqui está se transformando em um pedaço de mim que divido com cada um de vocês.
Antes de sair me dê um abraço, um afago e me permita um beijo.

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quinta-feira, 17 de julho de 2008

Esperança renovada

Os dias agora parecem ter 48 horas ou apenas 12. Passam tão rápido, mas ao mesmo tempo registram tantos acontecimentos que me sinto muitas vezes incapaz de acompanhar cada momento, lembrar de cada fato, registrar cada minuto.
Não escrevo aqui faz alguns dias e parecem séculos. A vida está intensa demais, nem sei o que priorizar. Tenho que pensar na casa sendo montada, na transferência de escola dos meninos, no Manoel no hospital, nas despesas que agora são só minhas, na minha saúde. Eu tive um câncer e preciso monitorar cada órgão para impedir que ele volte. Uma qualidade de vida melhor, menos estressada, com alimentação mais saudável e muitos anos pela frente. Não dá pra relacionar e me deter em apenas um. Todos são prioritários, todos são tão urgentes ...
Pelo menos em São Carlos está tudo bem. Uma etapa vencida ! A casa aos poucos toma jeito de lar. Já tem cama, geladeira, fogão, televisão, mesa e quatro cadeiras (novos!) e um guarda-roupa usado. Dormimos duas noites. As primeiras de centenas. Nem sei definir o que senti. Ao mesmo tempo em que comemorei ter agora um endereço fixo, senti muito falta das minhas coisinhas de Belém, do meu cantinho com a minha cara.
Sempre gostei de juntar tralha, de ter lembrancinhas de lugares, de amigos, de pessoas queridas. Preservei quase tudo que tinha uma história: uma cartinha, um jornal velho, um bonequinho ou uma peça de cerâmica compunham a minha casa, meu retrato de vida. Tantos presentes, tantas recordações dos lugares por onde passei que um dia o Euclides Chembra Bandeira ao visitar meu pequeno cantinho no edifício EL Dourado disse que ele lembrava a velha Casa Salomão, em frente ao Museu Emílio Goeldi: “a gente olha, olha, olha e saí com a impressão de que não viu tudo”. Maior ficou na Roso Danin !
Agora não tenho essas lembranças. Elas ficaram para trás, tornaram-se secundárias. Preciso apenas de um lugar pra dormir, uma mesa pra tomar café e uma geladeira pra guardar os alimentos perecíveis. O que me move agora é a esperança que ansiosamente espero se reflita nos próximos exames do Manoel.
Chegamos hoje a São Paulo e aqui ficaremos até início de agosto. Esse momento é crucial. Se por um lado ele está respondendo muito bem à medicação, respirando sem nenhum auxílio, melhorando a performance dos exercícios respiratórios, reduzindo drasticamente o sangramento nas fezes e com o corpo já totalmente desinchado, por outro sei que isso não é tudo. Embora seja muito, muito mesmo !
Ele terá ainda muitas etapas que o colocarão diversas vezes frente à frente com a morte. O quadro continua grave, mas a sua aparência é excelente, sua disposição comovedora, contagiante. Quer saber tudo, acompanhar cada passo do que já avançamos na nova morada. Tem consciência da gravidade, mas não pensa nela, não é seu foco neste momento. Queria ser assim...
Estou muito dividida. Ao mesmo tempo em que me encho de esperança, em que me apego cada dia mais a Nossa Senhora de Nazaré que tantas vezes já ouviu minhas preces, me entrego às palavras dos médicos, ao veredicto que não me sai da cabeça.
E se de fato ele tiver tão pouco tempo de vida como eles dizem ? Quando será o momento que esse quadro se agravará ? Como terei forças para reagir diante da morte de um pessoa tão especial, tão importante na minha história de vida ? E meus filhos como vou ajudá-los a superar essa partida definitiva?
Cada dia mais ratifico a importância deles na minha vida. Sempre soube disso, mas agora mais do que nunca constato o quanto eles são meu mundo.
Não tive um pai presente. Na verdade a minha referência de pai é a pior possível. Uma pessoa fraca, mentirosa, injusta e que não mediu as conseqüências quando abandonou a mulher com três crianças nascidas e uma em gestação. Lembro-me bem dele, mas não são lembranças saudosas, paternais, felizes. Isso talvez explique o esforço desmesurado que incontrolavelmente faço para que meus filhos tenham seu pai perto e possam usufruir dele. mesmo um pai debilitado em uma cama de hospital. Não me importa o tempo que eles ficarão conosco, o que vale mesmo é a qualidade desse tempo, o que deixaremos de contribuição para o desenvolvimento de cada um, para que de fato sejam cidadãos no sentido mais amplo e belo dessa palavra. Pessoas de bem que valorizem o bem, que cresçam até mesmo com essas experiências tão dramáticas, tão dolorosas que estão sendo obrigados a viver.
Não quero pensar no fim, não quero acalentar a morte, não vou me permitir sofrer mais ainda do que a minha terapeuta um dia diagnosticou com muita precisão: a tal ansiedade antecipatória. Quero apenas viver esses dias, independente de quantos serão, de quantos teremos pela frente. Quero que o Manoel tenha certeza de que sou sua companheira, sua amiga e que ficarei ao lado dele o tempo que for necessário. Minha forma de agradecer por tantos anos de convivência harmoniosa, mesmo com os percalços que marcam a maioria dos casamentos.
Ficaremos 15 dias diretos ao lado dele. Uma decisão difícil e cara, mas que valerá o sacrifício. Precisamos dele e ele mais ainda de nós. Queremos ver a sua evolução, queremos acompanhar pari passu a sua reversão e estar ao lado dele quando as maiores vitórias acontecerem.
Comemorando ...

Um comentário:

Michelly Mourão disse...

Olá querida e estimadaaaaaaaaaa e eterna professora Ruth...soubemos recentemente do acontecido, mas saiba que a turma de comunicação institucional (sua primeira turma) está na torcida e rezando muito por vocês, estamos vendo por aqui o que poderemos fazer para ajudar vocês, afinal nos sentimos (fazer parte de sua família) e como família todos damos as mãos, na alegria e na tristeza. Alguém que sempre serviu de inspíração para o nosso crescimento profissional, agora se torna um exemplo de força, fé, esperança. Conte com sua 1ª turma, bjs