Quem sou eu

Belém/Ribeirão Preto, Brazil
Amazônida jornalista, belemense papa-xibé. Mãe, filha, amiga... Que escreve sobre tudo e todos há décadas. Com lid ou sem lid e que insiste em aprender mais e mais... infinitamente... Até a morte

Aos que me visitam

Sintam-se em casa. Sentem no sofá, no chão ou nessa cadeira aí. Ouçam a música que quiser, comam o que tiver e bebam o que puderem.
Entrem...
Isso aqui está se transformando em um pedaço de mim que divido com cada um de vocês.
Antes de sair me dê um abraço, um afago e me permita um beijo.

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segunda-feira, 7 de abril de 2008

Desculpas

Nunca tive problema de pedir desculpas. Se errei, peço desculpas e de coração. Sem rancor. Ultimamente, porém, tenho sentido que algumas pessoas parecem esperar de mim um pedido de desculpas completamente surrealista: pelo câncer que descobri, pelas oportunidades que estou tendo de me curar.
Há cerca de 15 anos faço, religiosamente, ultrassonografia da mama ou mamografia. A Embrapa tem um excelente trabalho de prevenção de doenças que incluiu exames periódicos anuais que variam conforme a idade. A maioria não faz com muita satisfação, muitos chegam a se negar e outros protelam o que podem, mas mesmo não sendo um exemplo, sempre fiz. Com atrasos, mas sempre cumpri a determinação.
Foi através dele que descobri quatro miomas no útero, a pressão alta e a esteatose hepática. Em julho do ano passo descobri mais: o nódulo na mama esquerda, em seguida diagnosticado como câncer ductual invasivo grau I, receptivo a hormônios, HER 2 negativo, lifonodos negativos, menos de 1 cm e sem comprometimento das margens. Informações técnicas que significam um câncer inicial, de baixo risco e com bom prognóstico de cura e que não exige quimioterapia e tem um tratamento restrito a 33 sessões de radioterapia e um comprimido diário de tamoxifeno por cinco anos.
Hoje sei de tudo disso, mas fui atrás das informações, ouvi vários médicos, li muito, conversei mais ainda e com a certeza de que estou fazendo o que é mais compatível com o câncer que me acometeu, relaxo e me preparo para o que está por vir.
Incômodo mesmo é perceber, em algumas pessoas, a frustração ao saber que não ficarei careca, debilitada, amarela ou que não tirei a mama inteira, ela, ao contrário, está mais bonita do que antes do nódulo.
Parecem decepcionadas por eu não ter feito mastectomia, por eu estar fisicamente bem (acho mesmo que melhor do que antes) e não estar usando aquele tom de voz de autopiedade, de condenada à morte.
Não pedirei desculpas a ninguém simplesmente porque quero viver mais, porque acredito na minha cura, porque tenho absoluta certeza de que fiz o que deveria ter sido feito.
Gastei sim um bom dinheiro indo a São Paulo em busca de outras opiniões e não pedirei desculpas também por isso. Fui com o meu dinheiro, com o FGTS liberado com esse objetivo e que está sendo usado com esse objetivo. Não furei filas, não usei o conhecimento que possuo para obter vantagens, mas parece que isso também incomoda. Se aproveitei para passear, para rever pessoas queridas o fiz com o objetivo de também cuidar da minha alma. Viajar sempre foi um de meus maiores prazeres e se juntei médicos e exames a passeios, cuidei do corpo e da alma. Voltei melhor.
Não pedirei desculpas por estar de volta às caminhadas, à hidroginástica, por querer concluir minha especialização, por estar feliz dando aulas, por querer ainda me emocionar muito, curtir meus amigos, filhos, mãe, marido, irmãos, sobrinhos.
Não vou pedir desculpas para os que acreditavam que eu sairia desse capítulo da minha vida pessimista, fraca, moribunda, derrotada.
Sinto-me mais forte e pronta pra enfrentar o que esse câncer ainda me reserva.
Minha maior fraqueza é a dor em meus filhos. Isso eu não suporto e saber, que ao agir e reagir assim eu os deixo melhor ainda, só me dá mais força para prosseguir indo ao cabeleireiro, à academia, a programar novas viagens, novos encontros e reencontros, a estudar mais, a sonhar mais, a viver mais e mais e mais...
Sem desculpas ...