Quem sou eu

Belém/Ribeirão Preto, Brazil
Amazônida jornalista, belemense papa-xibé. Mãe, filha, amiga... Que escreve sobre tudo e todos há décadas. Com lid ou sem lid e que insiste em aprender mais e mais... infinitamente... Até a morte

Aos que me visitam

Sintam-se em casa. Sentem no sofá, no chão ou nessa cadeira aí. Ouçam a música que quiser, comam o que tiver e bebam o que puderem.
Entrem...
Isso aqui está se transformando em um pedaço de mim que divido com cada um de vocês.
Antes de sair me dê um abraço, um afago e me permita um beijo.

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terça-feira, 30 de outubro de 2007

Organizando-me

Agora que a cirurgia parece ser inadiável é hora de começar a me organizar para parar. Há muito ainda for fazer e preciso me planejar. Pretendo deixar as turmas da FAZ só dependendo das avaliações finais. Felizmente tenho contado com a colaboração da direção, coordenação e de outros professores que têm me cedido horários para adiantar o conteúdo. Quinta-feira deverá ser a última aula desse semestre. Há avaliações ainda a elaborar, passar e ainda corrigir.
Só espero não me emocionar demais nesta despedida.
Preciso ainda acelerar o curso de pós na Unama. Ainda não entreguei o trabalho final do último módulo e também definir um cronograma para a monografia. Se tudo correr bem, até maio terei o título de especialista. Nada demais, mas para mim muito importante.
Tem ainda a casa, os detalhes das contas a pagar e os filhos. Sei que vou alugá-los intensamente nos dias que antecederem à cirurgia. De novo vou querer colo. Afagos para não pensar demais. Senti-los juntinhos de mim e ao mesmo tempo em que receber força, passar a eles que este é um momento especial, de superação, de aprendizagem, de amadurecimento. Estão reagindo bem. Não escondemos nada deles. Até ao médico o Raul me acompanha. A Anaterra certamente vai querer de novo ir para o hospital comigo. Verdade, transparência, carinho e segurança é que tento passar a eles. Mesmo quando choro, mesmo quando fico pensativa ou fraquejo.
Hoje tenho plena consciência do quanto o câncer é ingrato. Uma doença que surpreende a todos e que ainda carrega um enorme impacto só no nome. É claro que as mudanças foram radicais nas últimas décadas. Os cientistas têm sido incansáveis. Mas cada câncer é um câncer. Cada diagnóstico traz consigo um carimbo individualizado. Pelo que tenho lido, conversado, pesquisado, o meu diagnosticado nesse estágio tem tudo para dar certo. Mas ele será eterno. Nunca mais esse fantasma deixará de me rondar. A cada seis meses nova apreensão. Não farei uma cirurgia para estipar um apêndice inflamado ou uma vesícula comprometida. Estarei começando uma nova etapa.
Não sei se cairá meu cabelo nem quantas quimioterapias, radioterapias farei. Quais as medicações que terei que tomar, os cuidados e limitações. Sei apenas que já estou tentando mudar minha vida : nada de álcool, quase nada de carne vermelha, muito peixe (sou uma privilegiada por dispor de uma variedade enorme no Ver-o-Peso), frutas, verduras, sucos, chás. Alguém há de dizer : se sabia que tudo isso era sinônimo de saúde por que não agiu antes assim ? Simplesmente porque tinha o direito de experimentar o outro lado também. Aquele de muitas noitadas, com cervejas sem limites e papos deliciosamente molhados. Uma picanha no fogo ou uma maniçoba no prato.
E muitas, muitas histórias ...
Vivi isso, experimentei, gostei e talvez tenha chegado a hora de me frear.
Sem lamentos, saudosismos ou tristezas. Quero viver esse outro momento com o mesmo entusiasmo, intensidade e alegria. Com ou sem cabelo, provavelmente com vários quilos a menos e brindando com um suco de bacuri e no prato uma bela salada de grão-de-bico. Não importa ! O fundamental é estar feliz, rodeada dos filhos - mais do que nunca presentes, mais carinhosos, mais preocupados - da mãe, marido, irmãos, sobrinhos, amigos e curtindo a vida !
Preciso correr para elaborar as provas ..