Quem sou eu

Belém/Ribeirão Preto, Brazil
Amazônida jornalista, belemense papa-xibé. Mãe, filha, amiga... Que escreve sobre tudo e todos há décadas. Com lid ou sem lid e que insiste em aprender mais e mais... infinitamente... Até a morte

Aos que me visitam

Sintam-se em casa. Sentem no sofá, no chão ou nessa cadeira aí. Ouçam a música que quiser, comam o que tiver e bebam o que puderem.
Entrem...
Isso aqui está se transformando em um pedaço de mim que divido com cada um de vocês.
Antes de sair me dê um abraço, um afago e me permita um beijo.

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domingo, 11 de maio de 2008

Alma Cansada

Agora é olhar pra frente, rezar muito e tentar não desabar. Os últimos dias têm sido verdadeiros testes de resistência. Só ontem consegui dormir um pouco mais depois que o Manoel viajou para São Paulo em busca de um tratamento mais específico para um diagnóstico mais preciso.
Foram horas e mais horas de agitação, esperança e desesperança, mas sobretudo de muita amizade demonstrada por pessoas muito próximas ou não tão próximas assim que se mobilizaram para viabilizar a decisão que tomamos dele partir. Dinheiro na conta para ajudar no deslocamento, milhagens da Tam doadas, orações, sangue e muitos telefonemas amenizaram nossa angústia. Colegas da Embrapa, da Faz, da vizinhança ou os antigos que retornaram. Familiares incansáveis na vigília de dormir com ele ou apenas fazer companhia enquanto decidíamos o que fazer.
A decisão enfim foi tomada. O Manoel iria para o Hospital A C Camargo. Difícil afastá-lo de nós em um momento como esse, privá-lo de nossa companhia, mas agora sabemos que para a sua cura a atitude era imprescindível.
Vivi esse período como se estivesse em transe. Um robô que agia incansavelmente em um busca de um só objetivo: permitir sua transferência. O nosso sistema de saúde é muito precário, carece de exames sofisticados, de pareceres definitivos e sobretudo de mão-de-obra capacitada capaz de conviver com patologias como a leucemia diagnosticada talvez precipitadamente.
Viajar para tão longe, com tantas horas de viagem exigiu um aparato que desconhecíamos até então. Ambulância do hospital para o aeroporto e do aeroporto para o hospital, contatos prévios com a companhia aérea e hospital e felizmente a concordância da jovem médica hematologista que o atendeu desde a dengue, em acompanhá-lo na viagem e depois entregá-lo nas mãos dos colegas que cuidarão dele em São Paulo.
Cada visita na sexta-feira teve um gosto de despedida. Sabemos dos riscos, sabemos que podíamos estar dizendo adeus. Lágrimas em abundância, mas sobretudo muita esperança e fé de que outros exames,aparelhos e médicos experientes irão mostrar o rumo certo.
Arrumar a mala, selecionar roupas e imaginar que elas serão usadas tão longe, em um hospital doeu muito. Tentar não esquecer cada item da higiene pessoal sem aquele gosto da viagem de férias. Agasalhos para amenizar o frio paulistano; meias para aquecer os pés e os bilhetes que eu e a Anaterra espalhamos no meio da bagagem. Tudo tão doloroso...
Uma parte da minha história chegou de ambulância no aeroporto, deitado, de máscara no rosto, acompanhado do seu irmão Pedro, que está com ele em São Paulo e da médica. Tão diferente das inúmeras vezes que já freqüentamos aquele ambiente. Eu, a amiga Ieda Jucá, o André (filho dela) e a incansável colega Débora, da Embrapa, fomos na frente para resolver as pendências que um caso como esse exige. Documentos, laudos, atestados e muita cautela da companhia aérea. Afinal, há riscos e ela não pode assumir sozinha. Na maleta da médica agulhas, seringas, estetoscópio, medidor de pressão e muitos medicamentos. Apreensão imensurável.
Depois o avião subindo, levando para longe o pai dos meus filhos, meu amigo e companheiro de tantos anos. Que dor ...
Dor na alma.
Uma alma cansada de sentir medo
De imaginar o pior
De não agüentar
Uma alma cansada de imagens fortes
De decisões difíceis
De controlar emoções
Uma alma buscando esperança
Alegria, reencontros
Depois uma noite sem dormir à espera de notícias que finalmente chegaram pela voz da médica: tudo correu bem e já estavam a caminho do hospital.
Hoje sinto que o dia amanheceu com mais luz, a imagem de Nossa Senhora de Nazaré ali na frente até parecia sorrir. A confiança se restabeleceu, a voz firme e decidida do Manoel do outro lado da linha ratifica que fizemos o melhor. Tudo é diferente, tudo é mais profissional, tem mais rigor e certamente maior probabilidade de se alcançar a cura.
Um Dia das Mães diferente. Pela metade. Não estamos separados porque assim decidimos, porque resolvemos acabar nosso casamento ou porque um foi trabalhar ou mesmo passear em outro lugar. Uma grave doença se interpôs entre nós, cruzou nosso caminho e impediu que ele nos preparasse o já tradicional café da manhã do segundo domingo de maio. Como as mães da família e as vizinhas normalmente têm compromisso no almoço, há alguns anos o Manoel se especializou em nos oferecer um variadíssimo café da manhã que todos os anos fingíamos que não sabíamos que estava sendo planejado. Eu e mamãe éramos obrigadas a ficar até mais tarde na cama e depois rir da arrumação fora de ordem e bem intencionada que nos esperava. Ano passado, no lugar de uma toalha, a mesa foi coberta com um lençol. Todas as que já estavam habituadas a se fartar com as guloseimas do dia das mães, sentiram a falta dele. Algumas não suportaram e choraram.
Nossos dias agora serão cada vez mais cheios de dúvidas, mas nada abalará nossa fé e esperança de que em breve a vida arrumadinha voltará à normalidade.
A saudade é enorme, mas a certeza de que ele está mais bem cuidado conforta.
Preciso cuidar agora um pouco de mim. Uma dor me acompanha desde a última quarta-feira. Um nódulo duro, consistente na mama esquerda incomoda e eu preciso saber o que é. Preciso também concluir minha monografia na especialização. O prazo é improrrogável e tenho um compromisso oficial com a Embrapa.
Felizmente tenho meus filhos. Estão aqui, do meu lado me apoiando, me fortalecendo, crescendo e sofrendo comigo.
E eu que pensei que este seria o primeiro Dia das Mães longe deles...