Quem sou eu

Belém/Ribeirão Preto, Brazil
Amazônida jornalista, belemense papa-xibé. Mãe, filha, amiga... Que escreve sobre tudo e todos há décadas. Com lid ou sem lid e que insiste em aprender mais e mais... infinitamente... Até a morte

Aos que me visitam

Sintam-se em casa. Sentem no sofá, no chão ou nessa cadeira aí. Ouçam a música que quiser, comam o que tiver e bebam o que puderem.
Entrem...
Isso aqui está se transformando em um pedaço de mim que divido com cada um de vocês.
Antes de sair me dê um abraço, um afago e me permita um beijo.

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sexta-feira, 21 de março de 2008

Leme e Campinas

Já que estava a mais de 3 mil km de Belém, por que não aproveitar e ir visitar meu irmão que há sete anos mora em uma pequena e agradável cidade de Leme, à beira da rodovia Anhanguera ?Assim fizemos. Dormimos o sábado e passamos o domingo com eles. A sobrinha-afilhada Ana Júlia já mocinha, bonita, magrinha, elegante, bem diferente dos Rendeiro e a cunhada Dóris sempre cuidadosa com a casa, tudo arrumadinho, limpinho. Dá gosto sempre visitá-los.
Mas o que me deixou aflita foi ver meu irmão, mais jovem do que eu, ainda não ter percebido que chegamos a meio século, que o nosso corpo, essa máquina fantástica, também envelhece, se desgasta, se nega a continuar sendo agredida sem reclamar.
Não é porque descobri esse câncer que agora vou virar “natureba”, fazer discursos naturalistas ou ser a antitabagista ou antialcóolica xiita. Apenas acredito que chega um momento que é preciso parar para refletir, avaliar o que queremos da vida. O meu tumor me trouxe essa realidade com muito impacto e muitas lágrimas, mas gostaria muito que ele pudesse ser um aviso para outras pessoas também, como o querido Ruy que fuma, bebe e come tudo o que não deveria de forma impiedosa e abundante. Está visivelmente mal, mas nega-se a enxergar e ninguém, a não ser ele, pode mudar essa trajetória. Queria tanto que ele “acordasse” em tempo ! As agressões diárias só serão percebidas quando o pulmão for requisitado, quando o fígado precisar sintetizar altas doses de anestesia ou outros medicamentos. Agora estão silenciosos, mas será sempre assim ?
Mesmo assim voltei feliz. Revê-los, abraçá-los e saber que estão bem em uma cidade tranqüila, pacata, acolhedora, em uma casa confortável, é sempre revigorante.
Chegara a hora de mais uma consulta. Mais um médico e de novo a mesma história. Agora em Campinas, a pouco mais de 100 km de Leme. Fui recebida por um profissional que transpira seriedade e segurança e que não me decepcionou quando, ao final, emitiu sua opinião com firmeza: não há necessidade de quimioterapia. Os indicadores contidos no tumor levam a essa conclusão. Os efeitos colaterais e a relação custo\benefício não justificariam. Falou-me das pesquisas com mulheres que descobriram o câncer no meu estágio e que somente agora no Brasil começam a se tornar mais numerosas. Infelizmente a maioria só descobre em um estágio muito avançado e que o tratamento utilizado incluiu, indiscutivelmente, a mastectomia (retirada total da mama), esvaziamento de muitos lifonodos, que causa sérias limitações à vida da mulher, além de quimioterapia e radioterapia. Segundo ele, as dúvidas só existem porque ainda não há certezas sobre o que fazer com segurança, mas nada indica a quimio.
A firmeza, a experiência estampada nas palavras e a convicção nas recomendações levaram-me à decisão, muito difícil, mas necessária: não farei a quimio.
Agora é chegar em Belém é começar o tratamento.
Um outro capítulo ...