Sempre gostei de receber pessoas em casa. Desde solteira quando morava na Conselheiro Furtado em Belém já reunia pessoas que normalmente iam saborear algum prato regional. Lembro de um aniversário meu onde, totalmente inexperiente em pelo menos compatibilizar pessoas x espaço x louças x comida x bebidas, convidei um montão de gente sem noção de como atendê-las. Até a Vera Castro, colunista querida do então O Estado do Pará compareceu e vivenciei um dos maiores vexames da minha vida: a Vera ao sentar no sofá ele simplesmente desabou. Justo a Vera tão chique, acostumada a freqüentar lugares tão sofisticados quase caiu no chão em minha casa !
Muitas outras vezes fizemos reuniões em casa. O cozidão, prato pesado feito com carne de segunda gorda como peito, rabo, com muitos legumes e verduras que vão do jerimum à macaxeira passando pela batata doce, quiabo e maxixe e que se tiver uma banana comprida fica mais gostoso ainda, ficou famoso entre os colegas jornalistas como o Ronaldo Brasiliense, Carlos Honorato e Orly Bezerra.
Depois, morando sozinha, mesmo no pequeno kitnet da avenida Governador José Malcher – o El Dourado- sempre tinha alguém (ou bem mais) em casa tomando uma cerveja, ouvindo música, papeando.
Quando passei para a casa maior na Roso Danin, em Canudos, encontrei o habitat perfeito para receber muita gente. Motivos não faltavam. Agora já vivendo com o Manoel, que também gostava dessas festas improvisadas à base de muita cerveja, peixe ou caranguejo, as reuniões eram quase semanais.
Há cerca de um ano esse clima mudou. Aconteceram até pequenas reuniões como o meu aniversário dia 21 de maio e a visita surpresa das velhas e queridas amigas do Colégio Visconde de Souza Franco ou o miniCírio em São Carlos, no segundo domingo de outubro, mas nada que lembrasse as anteriores. Já havia descoberto o câncer na mama e o Manoel estava hospitalizado e em outubro infelizmente morto.
Hoje, quando começo a perceber que o tempo de fato é o melhor remédio e que tudo na vida passa, mesmo contra a nossa vontade, ainda não me vejo internamente feliz, mas já sinto falta de momentos alegres. O prazer da música alta quando cantava junto com o Chico, João Bosco, Nara Leão, Maria Betânia, Milton ou os nossos cantores do Pará e as cervejas em quantidade maior a ponto de ser inevitável uma boa e demorada sesta após o almoço, ainda não aconteceu. A festa interior não foi externalizada e qualquer insistência seria forçada.
Mas este final de semana chegou perto.
Meu irmão Rulton, a cunhada Socorro, a sobrinha por afinidade Marcela e o queridíssimo e especialíssimo Leonardo, nos permitiram uma quase volta aos dias que ficaram pra trás. Morando em Leme, a convite do outro irmão Ruy, a proximidade nos permite ter mais contatos e amenizar a saudade que ainda maltrata.
A gastronomia baseada na culinária paraense incluiu pirarucu frito com feijão e vinagrete, pirarucu no leite de coco e batata, risoto de camarão salgado do Maranhão com legumes, farinha torrada de Belém, pimenta no molho de tucupi e creme de bacuri como sobremesa, teve agregado ainda as delícias dessa parte do País, principalmente as frutas como caqui, kiwi, ameixa fresca, figos. Na sala um DVD novo da Leila Pinheiro foi repetido inúmeras vezes.
As lembranças e muitos sorrisos surgiram naturalmente.
O Leonardo foi um capítulo à parte. Como sempre cativante, inteligente e carinhoso. Nem lembrava mais o quanto ele era doce e com um raciocínio tão rápido. Eu e a Anaterra (sempre a mais animada de todos) montamos uma agenda específica para ele. Uma ida à loja de brinquedos e a aquisição da nova motocicleta, um passeio à praça no centro de São Carlos, visita ao shopping onde percorreu a exposição da Vila Sésamo, sorvetes e muita, muita conversa.
Tudo muito espontâneo, natural e diferente. O frio das manhãs de São Carlos nos lembrava que Belém estava bem longe, mas rimos das nossas histórias de infância, deitamos na rede armada no pátio e resgatamos muito do que tínhamos deixado para trás. Muito do que ainda está obscurecido pela saudade, pela dor, pelas perdas, pelas mudanças.
Mas não são só as visitas presenciais que me encantam e me fazem companhia, que me permitem dividir uma solidão que ainda incomoda e deixa os dias mais longos. Felizmente tenho recebido diariamente a visita de pessoas amadas via a grande rede mundial de computadores. Não sei como sobreviveria hoje, neste meu mundo atual, sem a Net.
Renata Amoras (a amiga de décadas), Thaís (a sobrinha mais velha), Ana Laura (a amiga de Belém que agora está em Brasília), Ieda (amiga de Universidade e sempre muito presente), Dóris (a cunhada de Leme), Dulcivânia (a colega da Embrapa de Macapá), Kátia (da Embrapa Florestas), Carlos Honorato (amigo de anos que reencontrei há pouco tempo), Érika (a mamãe do ano), Levy (jornalista que a Internet me trouxe de volta), Marcelo Gabbay (que a distância me presentou como amigo), Chico Carlos, Sumara, Andrea, Toni, Carlos, Renata Caetano, Fernando Jares...e tantos e tantos que quando aparecem na tela transformam meu dia. Seja aqui, deixando seus recadinhos, seja no msn para me ouvir e me acarinhar, me dar colo, me fazer companhia.
Tem ainda os que me acompanham à distância, sem se identificar. Vejo pelo número de visitas ou pelas mensagens anônimas que lá estiveram, mas nem sempre é possível saber quem são, o que pensam sobre o que escrevo aqui. Um visitante bem emblemático, lacônico tem deixado mensagens que indicam ser uma pessoa que tem como língua mater o espanhol, manifestados pelas palavras e frases como sentí, reviví, optimista ou y me asusté.
Pela proximidade que tenho com o jornalista Osman, pessoa querida e que neste momento está silencioso como tantas outras vezes já se manteve, deduzo que essas visitas venham de lá, de outro País. Não tenho certeza, mas gostaria muito que fosse...
Ele, assim como todos os que me visitam (em casa ou na internet), deixam minha vida mais leve, mais alegre, com possibilidade de novos sonhos, de retomar caminhos interrompidos e de novo me permitir ser a Ruth que adora passear, caminhar pelas ruas cheias ou silenciosas, visitar lojas de artesanatos, comer peixe e viajar... viajar... viajar... seja para Leme ou para Belém, para Cuiabá ou Brasília, Pirinópolis ou Mosqueiro, São Paulo ou Santa Cruz !
Quem sou eu
- Ruth Rendeiro
- Belém/Ribeirão Preto, Brazil
- Amazônida jornalista, belemense papa-xibé. Mãe, filha, amiga... Que escreve sobre tudo e todos há décadas. Com lid ou sem lid e que insiste em aprender mais e mais... infinitamente... Até a morte
Aos que me visitam
Sintam-se em casa. Sentem no sofá, no chão ou nessa cadeira aí. Ouçam a música que quiser, comam o que tiver e bebam o que puderem.
Entrem...
Isso aqui está se transformando em um pedaço de mim que divido com cada um de vocês.
Entrem...
Isso aqui está se transformando em um pedaço de mim que divido com cada um de vocês.
Antes de sair me dê um abraço, um afago e me permita um beijo.
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quarta-feira, 15 de abril de 2009
terça-feira, 31 de março de 2009
Meu mundo interior
Já consigo visualizar com relativa facilidade meu mundo exterior. Andei muito, corri demais, me perdi em muitas estradas vicinais, mas aos poucos percebo que externamente arrumei o que estava embaralhado pelos recentes acontecimentos. Muita coisa come;a a fazer sentido de novo.
A casa que há alguns meses se limitava a dois colchonetes gentilmente cedidos pela cunhada Doris e umas poucas louças descartáveis, agora tem tudo o que considero essencial para uma vida sem luxo, mas agradável, confortável, com aminha cara. Meu cantinho, de meus filhos e de minha mãe está novamente aconchegante. Apenas algumas caixas que vieram de Belém ainda impedem a arrumação completa. Material que veio da Embrapa, caixas e mais caixas de recordações minhas e do Manoel. Agendas de cinco, dez anos atrás; crachás que demonstram o quanto mudamos; meus inseparáveis caderninhos de anotações; fotografias, textos, documentos e muitas, muitas lembranças.
A alguns quilômetros também consegui arrumar o cantinho do filho. Simples, mas suficiente para abrigá-lo de segunda à sexta-feira. Está se sentindo homem, adulto, embora em uma doce e profunda conversa neste último final de semana tenha ressaltado que liberdade a gente não ganha, não compra, não rouba, conquista-se e, mesmo morando só, a sua liberdade ainda não foi conquistada. Por isso telefono tanto, por isso quero saber onde e com quem anda, o que faz. Se comeu, se dormiu bem. Se não está doente... Aos poucos sei que essas preocupações serão reduzidas. Na verdade já estão sendo ... Nas primeiras noites mal conseguia dormir só de saber que ele estava tão longe, sozinho em um quarto. Agora durmo, sonho e acordo bem. Apenas rezo mais. Peço a Deus, à Nossa Senhora de Nazaré que o proteja sempre, que nunca tire os olhos dele, que não permita que pessoas que possam fazer mal a ele se aproxime e que lhe dê sempre o discernimento para optar pelo bem.
No trabalho também começo a ter uma rotina, afazeres mais prazerosos, descoberta de pessoas interessantes, embora a comparação com a Unidade de Belém seja inevitável. O ritmo é diferente, as atribuições, responsabilidades e reconhecimentos bem menores, mas que tem seu lado bom: estou cuidando mais de mim, incluindo nesse cotidiano a academia e caminhadas pela manhã aproveitando a temperatura agradável de São Carlos que nem nos deixar suar. Ando cada dia por uma rua diferente, explorando casas, pessoas, cachorros, gatos. Uma cidade que ainda é tão nova e que me dá de presente um desconhecido roteiro matinal de agasalho nunca antes usado.
Preciso, porém, agora parar de fugir, reduzir a velocidade externa e olhar de frente meu mundo interior. Esse sim desarrumado, precisando ser colocado de novo de pé.
Muitas vezes paro e tento ver como era a minha vida um ano atrás, dois anos atrás exatamente naquela mesma data. Certamente muito mais intensa, muito mais cansativa, mas muito mais feliz. Tinha planos, tinha sonhos e pessoas no meu dia-a-dia que me completavam de uma forma que talvez só eu entenda.
Viajar, mesmo a trabalho, representava oportunidades de crescimento profissional e pessoal. Reencontrar pessoas amadas, rir, brincar, passear e ir além de mim mesma. Não estava tão frágil, tão carente e facilmente impactável. Não tinha tanto medo de sofrer, de perder, de me dar.
Meus sentimentos ainda me assustam e me enfraquecem. Rio pouco, sonho quase nada e apenas vivo o dia sem muito entusiasmo, tentando encontrar a esperança perdida. Nem mesmo tomar uma cerveja, cozinhas, ouvir o Chico ou sair pra bater um papo me encanta mais.
Não sei onde estão as pessoas que amo. Perdi o referencial de amar, de querer ter perto, de sentir prazer.
Estou árida de emoções.
Às vezes sinto que posso me reestruturar integralmente, que um dia talvez volte ver a vida com os olhos do otimismo, que viver não me pareça apenas ver os dias se arrastarem um atrás do outro.
Sorrio, me arrumo, me perfumo, me maquio, beijo e abraço abraço pessoas, mas por dentro já não me vejo tão acessível simples.
Quando olho pra trás sinto saudade de mim. Da leveza de meus pensamentos, da ternura de meus sentimentos, da exequidade de meus planos.
Queria muito acreditar ser possível retomar de onde parei, recarregar as baterias, rearrumar meu mundo interior e acreditar que estou viva, latente, sedenta de emoções e de novo de braços abertos à felicidade.
Enquanto isso não acontece mudo os móveis de lugar, pinto uma nova parede, cuido das plantas e organizo o que está mais visível aos olhos.
Vou à academia, ao analista, ao cabeleireiro, ao shopping, ao supermercado
E os dias vão passando... anoitecendo.. amanhecendo... anoitecendo de novo... amanhecendo de novo...
A casa que há alguns meses se limitava a dois colchonetes gentilmente cedidos pela cunhada Doris e umas poucas louças descartáveis, agora tem tudo o que considero essencial para uma vida sem luxo, mas agradável, confortável, com aminha cara. Meu cantinho, de meus filhos e de minha mãe está novamente aconchegante. Apenas algumas caixas que vieram de Belém ainda impedem a arrumação completa. Material que veio da Embrapa, caixas e mais caixas de recordações minhas e do Manoel. Agendas de cinco, dez anos atrás; crachás que demonstram o quanto mudamos; meus inseparáveis caderninhos de anotações; fotografias, textos, documentos e muitas, muitas lembranças.
A alguns quilômetros também consegui arrumar o cantinho do filho. Simples, mas suficiente para abrigá-lo de segunda à sexta-feira. Está se sentindo homem, adulto, embora em uma doce e profunda conversa neste último final de semana tenha ressaltado que liberdade a gente não ganha, não compra, não rouba, conquista-se e, mesmo morando só, a sua liberdade ainda não foi conquistada. Por isso telefono tanto, por isso quero saber onde e com quem anda, o que faz. Se comeu, se dormiu bem. Se não está doente... Aos poucos sei que essas preocupações serão reduzidas. Na verdade já estão sendo ... Nas primeiras noites mal conseguia dormir só de saber que ele estava tão longe, sozinho em um quarto. Agora durmo, sonho e acordo bem. Apenas rezo mais. Peço a Deus, à Nossa Senhora de Nazaré que o proteja sempre, que nunca tire os olhos dele, que não permita que pessoas que possam fazer mal a ele se aproxime e que lhe dê sempre o discernimento para optar pelo bem.
No trabalho também começo a ter uma rotina, afazeres mais prazerosos, descoberta de pessoas interessantes, embora a comparação com a Unidade de Belém seja inevitável. O ritmo é diferente, as atribuições, responsabilidades e reconhecimentos bem menores, mas que tem seu lado bom: estou cuidando mais de mim, incluindo nesse cotidiano a academia e caminhadas pela manhã aproveitando a temperatura agradável de São Carlos que nem nos deixar suar. Ando cada dia por uma rua diferente, explorando casas, pessoas, cachorros, gatos. Uma cidade que ainda é tão nova e que me dá de presente um desconhecido roteiro matinal de agasalho nunca antes usado.
Preciso, porém, agora parar de fugir, reduzir a velocidade externa e olhar de frente meu mundo interior. Esse sim desarrumado, precisando ser colocado de novo de pé.
Muitas vezes paro e tento ver como era a minha vida um ano atrás, dois anos atrás exatamente naquela mesma data. Certamente muito mais intensa, muito mais cansativa, mas muito mais feliz. Tinha planos, tinha sonhos e pessoas no meu dia-a-dia que me completavam de uma forma que talvez só eu entenda.
Viajar, mesmo a trabalho, representava oportunidades de crescimento profissional e pessoal. Reencontrar pessoas amadas, rir, brincar, passear e ir além de mim mesma. Não estava tão frágil, tão carente e facilmente impactável. Não tinha tanto medo de sofrer, de perder, de me dar.
Meus sentimentos ainda me assustam e me enfraquecem. Rio pouco, sonho quase nada e apenas vivo o dia sem muito entusiasmo, tentando encontrar a esperança perdida. Nem mesmo tomar uma cerveja, cozinhas, ouvir o Chico ou sair pra bater um papo me encanta mais.
Não sei onde estão as pessoas que amo. Perdi o referencial de amar, de querer ter perto, de sentir prazer.
Estou árida de emoções.
Às vezes sinto que posso me reestruturar integralmente, que um dia talvez volte ver a vida com os olhos do otimismo, que viver não me pareça apenas ver os dias se arrastarem um atrás do outro.
Sorrio, me arrumo, me perfumo, me maquio, beijo e abraço abraço pessoas, mas por dentro já não me vejo tão acessível simples.
Quando olho pra trás sinto saudade de mim. Da leveza de meus pensamentos, da ternura de meus sentimentos, da exequidade de meus planos.
Queria muito acreditar ser possível retomar de onde parei, recarregar as baterias, rearrumar meu mundo interior e acreditar que estou viva, latente, sedenta de emoções e de novo de braços abertos à felicidade.
Enquanto isso não acontece mudo os móveis de lugar, pinto uma nova parede, cuido das plantas e organizo o que está mais visível aos olhos.
Vou à academia, ao analista, ao cabeleireiro, ao shopping, ao supermercado
E os dias vão passando... anoitecendo.. amanhecendo... anoitecendo de novo... amanhecendo de novo...
terça-feira, 24 de março de 2009
Preciso escrever .. me encontrar.. renascer
Estou sentindo um grande vazio e uma necessidade imensurável de escrever, de arrumar sentimentos, de entender emoções, de aliviar a ansiedade, de buscar no mais íntimo de mim o que me parece nem existir.
Talvez achar a Ruth que se perdeu no caminho.
As tarefas que inicialmente pareciam ser bem menores em uma cidade mais tranqüila, o dia-a-dia que tinha tudo pra ser mais prazeroso, menos estressante de repente se mostra tão ou mais efervescente e inadministrável. Deve ser o peso da responsabilidade ou a constatação irrefutável de que nada é mais como antes.
Tenho estado extremamente perturbada com a vida “nova” que se abriu diante de mim. Algumas vezes brindo a oportunidade de estar em outra cidade, conhecendo novas pessoas, experimentando e comparando o novo com minhas raízes e quase sempre constatando que Belém, definitivamente, está há muito abandonada. É uma junção de governos individualistas e irresponsáveis que deixam agora à mostra para o Brasil inteiro a podridão das feridas da segurança (?) pública, da saúde, da educação, do transporte...
Sinto saudade, mas não quero voltar !
Difícil mesmo é me aceitar. Vejo-me mais fria, mais egoísta, menos generosa, menos humana. Talvez esteja me vendo como nunca me vi. Um espelho que mostra que sou também frágil e que se controlo os que amo não o faço por mal, mas que não faz bem a ninguém. Tenho medos, inseguranças, desamores, decepções e muitas, muitas frustrações.
Estou petrificada diante de um ser que se pergunta insistentemente a ponto de doer a cabeça ou não dormir e que caminha a passos lerdos em busca de não sei o quê e nem para onde. Meio sem rumo, meio perdida.
Enxergando a mim e às pessoas provavelmente como elas sempre foram, mas que meu mundo colorido não me permitia ter essa visão grotesca e assustadora.
Afinal que respostas busco ? Sei de antemão que o Manoel não voltará, mesmo que o veja em breves alucinações na multidão dos shoppings ou mesmo chegando em casa; os amigos de Belém já não me telefonam pra sair, pra participar de eventos e os poucos que ainda me procuram cada dia mais os contatos ficam espaçados; o trabalho já não é prazeroso, perdi minhas referências, mudei e encontrei pessoas diferentes, uma diversidade que passa pelo cultural e me choca, me surpreende, me assusta e me entristece.
Sinto-me desanimada e cansada. Exigente demais comigo e com as pessoas, não tolerando tanto, não aceitando pacificamente, não sendo a compreensiva de sempre. Me desconheço ao final do dia. Exausta de não sei o que, infeliz não sei porque e descrente de que ?
O analista que começo a frequentar acredita que há muitos motivos para eu me sentir assim. Voltei à psiquiatria para, através da ciência, talvez encontrar algumas explicações. Perda do marido-companheiro-paizão, retirada brusca de meu chão, minhas raízes, falta de adaptação no trabalho, mudança do filho para outra cidade, afastamento dos amigos. Ele acha muito ! Eu também, mas sei que preciso viver cada dia de uma vez e entender que nada mudará. Este é meu “novo” mundo.
Tento me habituar a este novo cenário. A casa que parece uma réplica de Belém está bonita, mas não tenho o mesmo entusiasmo de antes; os colegas de trabalho são pessoas interessantes, mas dificilmente serão amigos; o Raul já não dorme e acorda na mesma casa que nós e já não produzo como antes profissionalmente.
Tenho ainda me defrontado com pessoas que há muito estão na minha vida e que só agora pareço de fato conhece-las. Eu era cega ou estou vendo o que não existe ?
Estou sensível demais e intolerante para palavras, atos, gestos.
Relevava mais...
Percebo-me impaciente, intolerante e buscando incessantemente uma paz que parece cada dia mais distante.
Nem mesmo as aulas que estou ministrando, o convite para continuar na diretoria da Associação Brasileira de Jornalismo Científico, os passeios que estou tendo oportunidade de fazer, os lugares novos que tenho o privilégio de conhecer tem me encantado ou as conquistas dos filhos que me enchem de orgulho, mas parecem também difíceis de serem digeridas, já que significam uma nova partida, um novo corte de cordão umbilical.
Uma noite qualquer, onde o tempo sobrava e o gato preto que nos acompanha desde Belém veio se deitar ao meu lado na cama, pensei alto (ou talvez tenha conversado com ele): o Manoel já não deita mais aqui, o Raul está longe, a mamãe já dormiu e a Anaterra está lá, no outro quarto, envolvida com a amiguinha. É Nhau .. só sobrou você !
Fiquei com raiva de sentir piedade de mim, de não entender que esta é uma fase, que é preciso eu insistir e superá-la. Viver esse presente que não é tão ruim assim, priorizar o que há de bom, esquecer dos que me incomodam, deletar os que me fazem mal e brindar aos que ainda existem, ao que ainda restou.
Talvez achar a Ruth que se perdeu no caminho.
As tarefas que inicialmente pareciam ser bem menores em uma cidade mais tranqüila, o dia-a-dia que tinha tudo pra ser mais prazeroso, menos estressante de repente se mostra tão ou mais efervescente e inadministrável. Deve ser o peso da responsabilidade ou a constatação irrefutável de que nada é mais como antes.
Tenho estado extremamente perturbada com a vida “nova” que se abriu diante de mim. Algumas vezes brindo a oportunidade de estar em outra cidade, conhecendo novas pessoas, experimentando e comparando o novo com minhas raízes e quase sempre constatando que Belém, definitivamente, está há muito abandonada. É uma junção de governos individualistas e irresponsáveis que deixam agora à mostra para o Brasil inteiro a podridão das feridas da segurança (?) pública, da saúde, da educação, do transporte...
Sinto saudade, mas não quero voltar !
Difícil mesmo é me aceitar. Vejo-me mais fria, mais egoísta, menos generosa, menos humana. Talvez esteja me vendo como nunca me vi. Um espelho que mostra que sou também frágil e que se controlo os que amo não o faço por mal, mas que não faz bem a ninguém. Tenho medos, inseguranças, desamores, decepções e muitas, muitas frustrações.
Estou petrificada diante de um ser que se pergunta insistentemente a ponto de doer a cabeça ou não dormir e que caminha a passos lerdos em busca de não sei o quê e nem para onde. Meio sem rumo, meio perdida.
Enxergando a mim e às pessoas provavelmente como elas sempre foram, mas que meu mundo colorido não me permitia ter essa visão grotesca e assustadora.
Afinal que respostas busco ? Sei de antemão que o Manoel não voltará, mesmo que o veja em breves alucinações na multidão dos shoppings ou mesmo chegando em casa; os amigos de Belém já não me telefonam pra sair, pra participar de eventos e os poucos que ainda me procuram cada dia mais os contatos ficam espaçados; o trabalho já não é prazeroso, perdi minhas referências, mudei e encontrei pessoas diferentes, uma diversidade que passa pelo cultural e me choca, me surpreende, me assusta e me entristece.
Sinto-me desanimada e cansada. Exigente demais comigo e com as pessoas, não tolerando tanto, não aceitando pacificamente, não sendo a compreensiva de sempre. Me desconheço ao final do dia. Exausta de não sei o que, infeliz não sei porque e descrente de que ?
O analista que começo a frequentar acredita que há muitos motivos para eu me sentir assim. Voltei à psiquiatria para, através da ciência, talvez encontrar algumas explicações. Perda do marido-companheiro-paizão, retirada brusca de meu chão, minhas raízes, falta de adaptação no trabalho, mudança do filho para outra cidade, afastamento dos amigos. Ele acha muito ! Eu também, mas sei que preciso viver cada dia de uma vez e entender que nada mudará. Este é meu “novo” mundo.
Tento me habituar a este novo cenário. A casa que parece uma réplica de Belém está bonita, mas não tenho o mesmo entusiasmo de antes; os colegas de trabalho são pessoas interessantes, mas dificilmente serão amigos; o Raul já não dorme e acorda na mesma casa que nós e já não produzo como antes profissionalmente.
Tenho ainda me defrontado com pessoas que há muito estão na minha vida e que só agora pareço de fato conhece-las. Eu era cega ou estou vendo o que não existe ?
Estou sensível demais e intolerante para palavras, atos, gestos.
Relevava mais...
Percebo-me impaciente, intolerante e buscando incessantemente uma paz que parece cada dia mais distante.
Nem mesmo as aulas que estou ministrando, o convite para continuar na diretoria da Associação Brasileira de Jornalismo Científico, os passeios que estou tendo oportunidade de fazer, os lugares novos que tenho o privilégio de conhecer tem me encantado ou as conquistas dos filhos que me enchem de orgulho, mas parecem também difíceis de serem digeridas, já que significam uma nova partida, um novo corte de cordão umbilical.
Uma noite qualquer, onde o tempo sobrava e o gato preto que nos acompanha desde Belém veio se deitar ao meu lado na cama, pensei alto (ou talvez tenha conversado com ele): o Manoel já não deita mais aqui, o Raul está longe, a mamãe já dormiu e a Anaterra está lá, no outro quarto, envolvida com a amiguinha. É Nhau .. só sobrou você !
Fiquei com raiva de sentir piedade de mim, de não entender que esta é uma fase, que é preciso eu insistir e superá-la. Viver esse presente que não é tão ruim assim, priorizar o que há de bom, esquecer dos que me incomodam, deletar os que me fazem mal e brindar aos que ainda existem, ao que ainda restou.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
Meu bebezão chega à Universidade
Hoje estou experimentando a sensação de que passei na primeira fase para o difícil exame de ser mãe. É uma alegria plena que quero dividir com todos. Sentimentos até então inusitados da mãe que olha a cria e percebe que suas asas já estão maduras e que poderá voar sem muito risco, sem cair de muito alto, com grande probabilidade de se machucar pouco.
Como um filme as cenas começam a ser editadas na memória. A mais longínqua, que há tanto tempo não era acessada no meu arquivo pessoal, é o momento em que recebi a informação inesperada de uma gravidez inesperada. Eu e o Manoel ficamos felizes, mas ao mesmo tempo apavorados ou quando contei ao Ivan (àquela época meu filho interino com seis anos) que seria mãe.
Agora aquele embrião é um homem careca que embora tenha só 17 anos é determinado, disciplinado. Às vezes exageradamente seguro de si e que acaba de ser classificado na Unesp e USP e ficar na lista de espera da UFSCAR.
Há seis meses o Manoel nos deixou, mas estou lhe sentindo tão próximo como nunca acontecera antes. Está orgulhoso do filho, vendo-o trilhar por caminhos que nós dois sempre desejamos, mas que a vida dura em Belém não nos permitiu. Somos de uma geração que a graduação era tudo e ao mesmo tempo muito para o padrão de nossas famílias. Mas tivemos o privilégio de trabalhar em uma instituição que valoriza e prioriza o conhecimento, a escolaridade. Onde ter mestrado ou doutorado não é a exceção, mas regra e no fundo sempre fomos meio frustrados por não termos chegado a mestres ou doutores.
Agora estamos (eu aqui e ele em outro plano) inchados de orgulho por acreditar que o Raul encara esse caminho como nós. Não estou me realizando através dele. Até porque em meus sonhos mais sonhados nunca imaginei um filho prestando vestibular para Educação Física e por opção, por acreditar que será nesta área que se realizará, por puro deleite e prazer.
A determinação dele também se manifesta nessa escolha. Até dois, três anos atrás parecia caminhar para Biologia. O que, confesso, me dava mais alegria. Talvez porque o visse no futuro como um grande pesquisador, cientista. Mas foi só conhecer em detalhes o mundo do fisioculturismo ou do Bodybuilding (para ser mais moderna !) e mudar de rumo.
Talvez tudo o que vivemos no semestre passado comece a fazer sentido, a ser explicado. As mudanças não são por acaso e se o Raul e a Anaterra sempre foram para nós o nosso objetivo maior, se para nós a felicidade e realização deles sempre estiveram acima das nossas, deixar Belém, mudar a minha história ou mesmo morrer, como aconteceu com o Manoel se justifica, faz sentido.
Foi com esse sentimento e quase certeza que o abracei e chorei quando soubemos dos resultados.
O menino que veio de Belém (Belém ? Fica no Amazonas né ? alguns perguntam por aqui !), que perdeu o pai de forma tão repentina, que interrompeu o curso no Equipe, deixou os amigos do Gentil e sem reclamar tentou se adaptar ao novo colégio. Que presenciou o pai no hospital e a mãe cheia de fios na mama enquanto fazia braquiterapia. Que ficou sem casa por uns meses...
Ufa !! agora vence a primeira grande batalha. É um universitário da USP, da Unesp e quem sabe da UFSCAR.
Meu bebezão cresceu e não apenas nos músculos...
Como um filme as cenas começam a ser editadas na memória. A mais longínqua, que há tanto tempo não era acessada no meu arquivo pessoal, é o momento em que recebi a informação inesperada de uma gravidez inesperada. Eu e o Manoel ficamos felizes, mas ao mesmo tempo apavorados ou quando contei ao Ivan (àquela época meu filho interino com seis anos) que seria mãe.
Agora aquele embrião é um homem careca que embora tenha só 17 anos é determinado, disciplinado. Às vezes exageradamente seguro de si e que acaba de ser classificado na Unesp e USP e ficar na lista de espera da UFSCAR.
Há seis meses o Manoel nos deixou, mas estou lhe sentindo tão próximo como nunca acontecera antes. Está orgulhoso do filho, vendo-o trilhar por caminhos que nós dois sempre desejamos, mas que a vida dura em Belém não nos permitiu. Somos de uma geração que a graduação era tudo e ao mesmo tempo muito para o padrão de nossas famílias. Mas tivemos o privilégio de trabalhar em uma instituição que valoriza e prioriza o conhecimento, a escolaridade. Onde ter mestrado ou doutorado não é a exceção, mas regra e no fundo sempre fomos meio frustrados por não termos chegado a mestres ou doutores.
Agora estamos (eu aqui e ele em outro plano) inchados de orgulho por acreditar que o Raul encara esse caminho como nós. Não estou me realizando através dele. Até porque em meus sonhos mais sonhados nunca imaginei um filho prestando vestibular para Educação Física e por opção, por acreditar que será nesta área que se realizará, por puro deleite e prazer.
A determinação dele também se manifesta nessa escolha. Até dois, três anos atrás parecia caminhar para Biologia. O que, confesso, me dava mais alegria. Talvez porque o visse no futuro como um grande pesquisador, cientista. Mas foi só conhecer em detalhes o mundo do fisioculturismo ou do Bodybuilding (para ser mais moderna !) e mudar de rumo.
Talvez tudo o que vivemos no semestre passado comece a fazer sentido, a ser explicado. As mudanças não são por acaso e se o Raul e a Anaterra sempre foram para nós o nosso objetivo maior, se para nós a felicidade e realização deles sempre estiveram acima das nossas, deixar Belém, mudar a minha história ou mesmo morrer, como aconteceu com o Manoel se justifica, faz sentido.
Foi com esse sentimento e quase certeza que o abracei e chorei quando soubemos dos resultados.
O menino que veio de Belém (Belém ? Fica no Amazonas né ? alguns perguntam por aqui !), que perdeu o pai de forma tão repentina, que interrompeu o curso no Equipe, deixou os amigos do Gentil e sem reclamar tentou se adaptar ao novo colégio. Que presenciou o pai no hospital e a mãe cheia de fios na mama enquanto fazia braquiterapia. Que ficou sem casa por uns meses...
Ufa !! agora vence a primeira grande batalha. É um universitário da USP, da Unesp e quem sabe da UFSCAR.
Meu bebezão cresceu e não apenas nos músculos...
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
O Fórum... a casa... os exames ...os vestibulares ...
O Fórum... a casa... os exames ...os vestibulares ...
Hoje eu queria estar em Belém. Além do desejo de matar a saudade da minha terra, queria poder abraçar o meu irmão Rulton que pela primeira vez não está ao meu lado em seu aniversário e ainda participar do Fórum Social Mundial que transformou a cidade, que está mexendo com meio mundo e levando muitos a refletir sobre o seu papel como amazônida.
Nascer naquela região só se tem consciência da enorme responsabilidade quase sempre quando, por algum motivo, somos obrigados a nos afastar de tudo o que já nos é tão familiar que nem conseguimos mais ter um olhar diferenciado.
Sinto-me assim agora que estou distante, longe da cultura que está entranhada em mim, dos costumes que nos fazem perceptíveis por onde andamos. Do sotaque carregado de sssss e o tu conjugado corretamente, aos hábitos alimentares, o jeito de ser extrovertido, tão natural como se conhecêssemos todos os estranhos há muito tempo.
O Raul, mesmo um homem tão grande, ainda mantém o : - Oi tia ! Quanto é tio ? surpresa ou revolta para muitos. No mínimo muita estranheza. A Anaterra sempre sorridente e educada, encanta com o seu típico físico quase singular nesta região mais abaixo da linha do Equador.
Mas ser amazônida não é só isso. É acompanhar diariamente o noticiário pela Tv ou internet e continuar se sentindo impotente. É constatar que para a maioria não fazemos parte do Brasil. Somos exóticos, diferentes, muito estranhos. Quando digo que sou de Belém o espanto me parece maior do que alguém que acaba de chegar do Japão ou da Índia para ser global. Um outro mundo, um outro planeta que está sendo devastado. As manchetes de ontem denunciam mais uma fraude na comercialização de madeira no Pará. Documentos esquentados para justificar um fogo maior, aquele que não tem fim e que estão dizimando uma floresta inteira sem lei, sem punição. Uma doença crônica e sem cura como tantas que matam a (e na) região. Fazem companhia à malária, câncer, leishmaniose, tuberculose sem que ninguém consiga freá-las. O mundo hoje está conhecendo o que nós, que nascemos e vivemos na região, sabemos há tanto tempo mesmo que apenas estejamos assistir tudo se agravar, os problemas se agigantarem e a região ser pauta só de tragédias, corrupção, devastação ou de índios ameaçando brancos.
Ser também pode ser um romântico, crédulo que acredita no amanhã, que consegue olhar a chuva com carinho como se a bênção viesse do céu. Sinal de uma temperatura mais amena, menos suor no rosto. Tão diferente da recepção dos que vivem no Sul e Sudeste, principalmente. Explicitamente eles manifestam quase pânico diante das nuvens mais escuras e maldizem as gotas, os trovões, o vento. Quanta diferença ...
Queria estar em Belém, mas estou em São Carlos. Agora é aqui a minha casa. E há poucos dias uma que é minha de fato e de direito. Já não estou mais de aluguel. A que deixarei para o Raul e Anaterra e que aos poucos vai tendo a minha cara, com as fotos pretas e brancas na parede com tijolos expostos; tapetes e mais tapetinhos; Chico Buarque em todos os cantos, lembrancinhas de Fortaleza, Belém, Pirinópolis, Brasília, Outo Preto, Cuiabá, Manaus, ... Muitas lembranças. Meu cantinho que está me transmitindo uma tranquilidade que estava buscando há muito tempo.
Os desgastantes exames de controle do câncer também já passaram. Mais tranqüilidade. A semana passada foi de inferno. O medo descontrolado que me impede de dormir, me faz comer mais, me angustia e me enche de fantasmas estiveram comigo na maca onde fiz a citilografia óssea, na cama onde fiz a ultrassom vaginal e abdominal, na sala do raio x do tórax ou nos consultórios do oncologista e do mastologista em Campinas. Pânico de imaginar uma nova cirurgia ou a necessidade de uma quimio. Descobrir que produzi mais um tumor. E se assim fosse como os meninos ficariam ? E a mamãe ? Não tenho mais o Manoel pra dividir. Sinto-me quase sempre muito só. Mas felizmente tudo (ou quase) tudo estava dentro da normalidade. A novidade ficou por conta da pressão arterial altíssima. O estresse, a falta de exercício físico, ansiedade, a dificuldade de adaptação no novo ambiente de trabalho, a péssima alimentação uniram-se todos e resolveram se manifestar na velocidade sanguínea. Ouvi tudo o que já estou habituada há anos: tens que relaxar, deixar as coisas acontecerem, não se preocupar demais... Ahhh tão fácil de dizer, mas tão difícil de colocar em prática. Agora a preocupação é com o coração, com a dieta que terá que ser mais rigorosa do que nunca, com um personal trainer que terá que ser mais do que isso pra não me deixar desistir e com o resultado dos vestibulares que o Raul fez e que em breve começará a ser divulgado.
Relaxar, mas como ?
Hoje eu queria estar em Belém. Além do desejo de matar a saudade da minha terra, queria poder abraçar o meu irmão Rulton que pela primeira vez não está ao meu lado em seu aniversário e ainda participar do Fórum Social Mundial que transformou a cidade, que está mexendo com meio mundo e levando muitos a refletir sobre o seu papel como amazônida.
Nascer naquela região só se tem consciência da enorme responsabilidade quase sempre quando, por algum motivo, somos obrigados a nos afastar de tudo o que já nos é tão familiar que nem conseguimos mais ter um olhar diferenciado.
Sinto-me assim agora que estou distante, longe da cultura que está entranhada em mim, dos costumes que nos fazem perceptíveis por onde andamos. Do sotaque carregado de sssss e o tu conjugado corretamente, aos hábitos alimentares, o jeito de ser extrovertido, tão natural como se conhecêssemos todos os estranhos há muito tempo.
O Raul, mesmo um homem tão grande, ainda mantém o : - Oi tia ! Quanto é tio ? surpresa ou revolta para muitos. No mínimo muita estranheza. A Anaterra sempre sorridente e educada, encanta com o seu típico físico quase singular nesta região mais abaixo da linha do Equador.
Mas ser amazônida não é só isso. É acompanhar diariamente o noticiário pela Tv ou internet e continuar se sentindo impotente. É constatar que para a maioria não fazemos parte do Brasil. Somos exóticos, diferentes, muito estranhos. Quando digo que sou de Belém o espanto me parece maior do que alguém que acaba de chegar do Japão ou da Índia para ser global. Um outro mundo, um outro planeta que está sendo devastado. As manchetes de ontem denunciam mais uma fraude na comercialização de madeira no Pará. Documentos esquentados para justificar um fogo maior, aquele que não tem fim e que estão dizimando uma floresta inteira sem lei, sem punição. Uma doença crônica e sem cura como tantas que matam a (e na) região. Fazem companhia à malária, câncer, leishmaniose, tuberculose sem que ninguém consiga freá-las. O mundo hoje está conhecendo o que nós, que nascemos e vivemos na região, sabemos há tanto tempo mesmo que apenas estejamos assistir tudo se agravar, os problemas se agigantarem e a região ser pauta só de tragédias, corrupção, devastação ou de índios ameaçando brancos.
Ser também pode ser um romântico, crédulo que acredita no amanhã, que consegue olhar a chuva com carinho como se a bênção viesse do céu. Sinal de uma temperatura mais amena, menos suor no rosto. Tão diferente da recepção dos que vivem no Sul e Sudeste, principalmente. Explicitamente eles manifestam quase pânico diante das nuvens mais escuras e maldizem as gotas, os trovões, o vento. Quanta diferença ...
Queria estar em Belém, mas estou em São Carlos. Agora é aqui a minha casa. E há poucos dias uma que é minha de fato e de direito. Já não estou mais de aluguel. A que deixarei para o Raul e Anaterra e que aos poucos vai tendo a minha cara, com as fotos pretas e brancas na parede com tijolos expostos; tapetes e mais tapetinhos; Chico Buarque em todos os cantos, lembrancinhas de Fortaleza, Belém, Pirinópolis, Brasília, Outo Preto, Cuiabá, Manaus, ... Muitas lembranças. Meu cantinho que está me transmitindo uma tranquilidade que estava buscando há muito tempo.
Os desgastantes exames de controle do câncer também já passaram. Mais tranqüilidade. A semana passada foi de inferno. O medo descontrolado que me impede de dormir, me faz comer mais, me angustia e me enche de fantasmas estiveram comigo na maca onde fiz a citilografia óssea, na cama onde fiz a ultrassom vaginal e abdominal, na sala do raio x do tórax ou nos consultórios do oncologista e do mastologista em Campinas. Pânico de imaginar uma nova cirurgia ou a necessidade de uma quimio. Descobrir que produzi mais um tumor. E se assim fosse como os meninos ficariam ? E a mamãe ? Não tenho mais o Manoel pra dividir. Sinto-me quase sempre muito só. Mas felizmente tudo (ou quase) tudo estava dentro da normalidade. A novidade ficou por conta da pressão arterial altíssima. O estresse, a falta de exercício físico, ansiedade, a dificuldade de adaptação no novo ambiente de trabalho, a péssima alimentação uniram-se todos e resolveram se manifestar na velocidade sanguínea. Ouvi tudo o que já estou habituada há anos: tens que relaxar, deixar as coisas acontecerem, não se preocupar demais... Ahhh tão fácil de dizer, mas tão difícil de colocar em prática. Agora a preocupação é com o coração, com a dieta que terá que ser mais rigorosa do que nunca, com um personal trainer que terá que ser mais do que isso pra não me deixar desistir e com o resultado dos vestibulares que o Raul fez e que em breve começará a ser divulgado.
Relaxar, mas como ?
quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
Belém: aniversariante distante
Dia 12 passado lembrei do aniversário de Belém. Acho que nunca passara um longe. Impossível esquecer, mesmo estando tão longe, afinal a sobrinha mais velha, Thaís, também faz aniversário.
Escrevi de saudade. Sem pretensão nenhuma apenas para aliviar a perda. Essa mistura de necessidade de estar longe com a vontade de voltar.
Um abraço de longe
Queria poder te abraçar neste dia
Sair andando sem rumo
De São Braz a Nazaré
Suando a bicas e esperando uma manga cair
Visitar o Colégio Gentil, esperar os filhos na calçada
Como antes do meu mundo ruir
Entrar na pequena capela
E como sempre, me emocionar
Humildemente, aos pés da Virgem de Nazaré,
Agradecer, pedir, rezar, chorar
Queria estar aí e no sábado bem cedinho
Ter como único compromisso
Comprar fruta-pão,jambo, camarão
Farinha torrada, jambu e peixe fresquinho
Planejar o almoço de domingo sempre uma festa
Tambaqui na brasa, caranguejo e feijão
Cerpinhas na geladeira e tira-gosto de mexilhão
Enquanto o Chico cantava na sala
Queria beijar teu chão molhado. Tuas mangueiras ...
Teu cheiro inconfundível, meu cheiro de tanto tempo
Tomar sorvete na Cairu, pupunha com café
Tapioca em Mosqueiro ou bacuri do “seu” André
Mas não estarei em teu aniversário
Deixei minha história pra trás
Abandonei você porque me abandonaste antes
Nada fará eu voltar. Nada mais.
Quis tratar um câncer de mama. Não consegui.
Descobri, entre tantos pacientes,
O quanto és frágil e tive que partir
Te abandonar significou viver
A violência que mancha de sangue tuas pedras de liós
Também pesou demais
O risco nas esquinas, em casa, no carro
Adeus Belém bucólica. Belém em paz
Queria estar aí pra te desejar sorte
E marcar a hora da volta
Quem sabe um dia eu volto
Nem que seja, em pó, depois da morte
Escrevi de saudade. Sem pretensão nenhuma apenas para aliviar a perda. Essa mistura de necessidade de estar longe com a vontade de voltar.
Um abraço de longe
Queria poder te abraçar neste dia
Sair andando sem rumo
De São Braz a Nazaré
Suando a bicas e esperando uma manga cair
Visitar o Colégio Gentil, esperar os filhos na calçada
Como antes do meu mundo ruir
Entrar na pequena capela
E como sempre, me emocionar
Humildemente, aos pés da Virgem de Nazaré,
Agradecer, pedir, rezar, chorar
Queria estar aí e no sábado bem cedinho
Ter como único compromisso
Comprar fruta-pão,jambo, camarão
Farinha torrada, jambu e peixe fresquinho
Planejar o almoço de domingo sempre uma festa
Tambaqui na brasa, caranguejo e feijão
Cerpinhas na geladeira e tira-gosto de mexilhão
Enquanto o Chico cantava na sala
Queria beijar teu chão molhado. Tuas mangueiras ...
Teu cheiro inconfundível, meu cheiro de tanto tempo
Tomar sorvete na Cairu, pupunha com café
Tapioca em Mosqueiro ou bacuri do “seu” André
Mas não estarei em teu aniversário
Deixei minha história pra trás
Abandonei você porque me abandonaste antes
Nada fará eu voltar. Nada mais.
Quis tratar um câncer de mama. Não consegui.
Descobri, entre tantos pacientes,
O quanto és frágil e tive que partir
Te abandonar significou viver
A violência que mancha de sangue tuas pedras de liós
Também pesou demais
O risco nas esquinas, em casa, no carro
Adeus Belém bucólica. Belém em paz
Queria estar aí pra te desejar sorte
E marcar a hora da volta
Quem sabe um dia eu volto
Nem que seja, em pó, depois da morte
domingo, 4 de janeiro de 2009
Ano Novo ?? Novo Ano ???
Fiz tudo o que manda a tradição: encarando os preços exorbitantes da alta temporada fui à praia com os filhos; tomei o banho de descarrego no dia 31 e o de abre caminho no Ano Novo; pulei sete ondas; ofertei duas rosas a Iemanjá; comi lentilha, vi a beleza dos fogos iluminando o céu de Santos, mas de pouco adiantou. A alegria tem que vir de dentro e a minha está adormecida. De nada adiantou a Ivete Sangalo cantar na tenda ou o hino da Globo anunciando “Feliz Ano Novo. Adeus Ano Velho” ser entoado. Não consegui sequer ensaiar um braço levantado ou um passinho discreto de carnaval.
Tinha quase tudo, mas me faltava quase tudo.
Estava longe de tudo o que mais amava. Distante de todos os que fizeram a minha história. À meia-noite nós três nos abraçamos e choramos. Só nós três. Mamãe foi para Leme, ficar com o Ruy e família. Um trio forte, mas solitário.
2008 foi de fato um ano pesado, cheio de surpresas e muitas pedras no caminho. Sim... não tinha uma pedra, mas várias) pedras no meu caminho. Pedras que quando tento entender como foi possível pelo menos erguê-las, afastá-las pedindo passagem percebo o quanto o ser humano é forte. Mesmo diante da maior adversidade ele reage, luta, briga pela vida. As catástrofes estão aí pra ratificar. É a lei da sobrevivência.
Relembrei com saudade a passagem de 2007 para 2008 quando imaginávamos que tínhamos um enorme problema A ser enfrentado E ele era tão pequenino diante do que 2008 nos reservava. Choramos, eu, Manoel e a Sula na praia de Ajuruteua, em Bragança, temendo o que estava por vir diante da descoberta do meu câncer de mama. Nos abraçamos e silenciosamente tememos pela minha vida, pelo que me esperava na cirurgia que se aproximava. Mas não era eu que estava vivendo o último réveillon. O aparentemente saudável Manoel que tomava cerveja enquanto eu me resguardava com uma taça de vinho orgânico, comia caranguejo e mexilhão e eu peixe fresco cozido, sem fritura, tinha poucos meses de vida. Era ele quem se despedia de nós.
Os primeiros minutos de 2009 me levaram de volta a Belém onde abracei cada um dos que deixei pra trás. Irmãos, cunhada, sobrinhos, sobrinho-neto e os amigos, muito amigos. Rezei por cada um deles. Pedi que nunca me falte a amizade que hoje sei, mais do que nunca, ser fundamental na alegria, quando queremos ver a casa cheia nos aniversários ou outras comemorações, mas são em momentos como os que vivemos em 2008 é que temos a dimensão do que é um amigo. Ele não precisa estar aqui do meu lado, basta ele existir. É suficiente ter seu telefone e poder ligar a qualquer hora, sorrindo ou chorando, mal conseguindo falar, mas sabendo que estão do outro lado da linha ou no computador, com tanto por fazer, mas ouvindo, acalentando, confortando ou rindo das bobagens que dizemos, lembramos....A existência de pessoas tão queridas, algumas que eu já tinha certeza do carinho, da solidariedade, da forte amizade e outras que se revelaram nessa trajetória de incertezas e lágrimas, tem adoçado os dias e ajudado a torná-los menos pesados.
É verdade que há o antônimo de tudo isso. Os que acreditei durante anos e até décadas em uma amizade, um amor, um sentimento forte que de fato não existia. Ele era frágil demais para resistir a uma tempestade mais forte. Eram sentimentos movidos a alegria, sem alicerce resistente e sucumbiram. Também relacionei mentalmente os rostos de pessoas que até pouco tempo habitavam intensamente a minha vida, eram importantes (ou achava isso!). Chorei por mim, pela perda do que talvez nunca tenha existido e por eles porque talvez ignorem o que seja solidariedade, companheirismo, gratidão, proximidade, fraternidade, reciprocidade. Não perdi nada eu sei, apenas conheci de fato quem são os amigos verdadeiros, as pessoas que de fato me amam entre copos de cerveja ou entre lágrimas. As que eu posso contar em todos os sentidos. Vi seus sorrisos porque não conheci suas lágrimas. Talvez sejam fracos demais, egoístas demais para dividir. Nunca conhecerão o que só o amor ao outro é capaz de dar. Felizmente eles são poucos. Tenho um monte que posso desabafar, trocar e-mails, telefonar quantas vezes desejar como a Ieda, Erika, Dóris, Ana Laura, Rosanne, RenataS, Soraya, Robinson, .. ahh e tantos outros.... ou os que podem me ajudar na burocracia que atravanca a minha vida como a venda da casa em Belém, a compra de outra em São Carlos, a liberar documentos, a quitar contas, a ser minha procuradora e me ajudar a resolver tanta coisa na Embrapa, no Banco do Brasil, na Amazônia Celular, na Prefeitura, na farmácia, (como a incansável Consuelo), cuidar do meu parco patrimônio (como o Rulton e a Socorro). Acima de tudo me dando a certeza de que não estou só. Tem ainda os meus carinhosos e presentes eternos alunos.
Mas agora é outro ano... Tenho que pensar assim, mesmo tendo tanto medo de 2009...
É como se outras situações difíceis, surpresas desagradáveis estivessem à espreita me esperando em fevereiro, abril, agosto, outubro sei lá.... Em janeiro farei a primeira grande revisão de controle de câncer. Exames sofisticados que darão o rumo do tratamento para os próximos seis meses. Sei, racionalmente, que os meus prognósticos são bons, que a possibilidade de recidiva ou metástase é pequena, mas nada disso inibe o medo.
Tento me convencer de que nada acontece por acaso, que se tiver que morrer ou sofrer em 2009 nada impedirá. Nada impediu que o Manoel morresse. Estava determinado. Deixou Belém, foi para um dos melhores hospitais em tratamento de câncer do País (quiçá da América Latina), mas se ele nasceu no dia 15 de novembro de 1957, também já havia sido decidido que morreria dia 2 de agosto de 2008. Eu vi isso, presenciei o esforço de toda a equipe e a falência lenta e irreversível dos órgãos como se fosse um painel cheio de luzes que a cada dia uma apagasse, mas a luminosidade permanecesse. Até que um dia apagaram-se todas e ele ficou ali inerte. Somos ainda, visualmente, as mesmas pessoas. Como se estivéssemos dormindo, mas sem nenhuma luz acesa. Tudo parou... desaparecemos...
Tenho muito medo das mudanças que sei se operaram em mim. Estou mais cética, mais fria, mais decidida, mais ousada, mais corajosa e menos generosa. Reavaliando quase tudo, buscando ainda mais explicações para o que talvez seja inexplicável.
Penso muito nos meus filhos, na enorme responsabilidade que agora é só minha. Mas ao mesmo tempo sei que tenho que pensar em mim, em buscar prazeres adormecidos, a (re)construir minha vida em diversos sentidos. Estou uma recém-nascida em quase tudo. Os amigos próximos ainda tateiam em meu íntimo, minha casa é nova, meu bairro desconhecido, meus colegas de trabalho uma incógnita. Mudei tudo: a cabeleireira, a cama e até meu estado civil. Não me vejo mais a mesma paciente de antes, a generosa de poucos anos atrás. Endureci nos sentimentos e na forma de ver a vida, a entender que ela é de fato passageira e que nada adiará essa partida definitiva.
Assim mesmo tenho sonhos, acalanto intimamente a esperança de voltar a ser feliz. Uma felicidade que venha de dentro, que seja real, verdadeira, autêntica. Não para que os outros me vejam feliz, mas para que eu me sinta feliz e eu já fui feliz muitas vezes. Já experimentei o sabor do não ter nada pra fazer e que o único compromisso era nem levantar da cama; do rir do que nem é engraçado, mas apenas porque a vida está bela; de andar sem rumo por estradas desconhecidas se perdendo a cada rotatória e ainda comemorando pela demora em voltar pra casa. Feliz por estar bem, por estar com quem se quer, apenas vivendo.
Preciso acreditar no que diz a música Sentimental do Chico Buarque: Geminiano este ano vai ser o seu ano.... Ahh.. eu hei de ser, terei de ser, serei feliz!!!”
Tinha quase tudo, mas me faltava quase tudo.
Estava longe de tudo o que mais amava. Distante de todos os que fizeram a minha história. À meia-noite nós três nos abraçamos e choramos. Só nós três. Mamãe foi para Leme, ficar com o Ruy e família. Um trio forte, mas solitário.
2008 foi de fato um ano pesado, cheio de surpresas e muitas pedras no caminho. Sim... não tinha uma pedra, mas várias) pedras no meu caminho. Pedras que quando tento entender como foi possível pelo menos erguê-las, afastá-las pedindo passagem percebo o quanto o ser humano é forte. Mesmo diante da maior adversidade ele reage, luta, briga pela vida. As catástrofes estão aí pra ratificar. É a lei da sobrevivência.
Relembrei com saudade a passagem de 2007 para 2008 quando imaginávamos que tínhamos um enorme problema A ser enfrentado E ele era tão pequenino diante do que 2008 nos reservava. Choramos, eu, Manoel e a Sula na praia de Ajuruteua, em Bragança, temendo o que estava por vir diante da descoberta do meu câncer de mama. Nos abraçamos e silenciosamente tememos pela minha vida, pelo que me esperava na cirurgia que se aproximava. Mas não era eu que estava vivendo o último réveillon. O aparentemente saudável Manoel que tomava cerveja enquanto eu me resguardava com uma taça de vinho orgânico, comia caranguejo e mexilhão e eu peixe fresco cozido, sem fritura, tinha poucos meses de vida. Era ele quem se despedia de nós.
Os primeiros minutos de 2009 me levaram de volta a Belém onde abracei cada um dos que deixei pra trás. Irmãos, cunhada, sobrinhos, sobrinho-neto e os amigos, muito amigos. Rezei por cada um deles. Pedi que nunca me falte a amizade que hoje sei, mais do que nunca, ser fundamental na alegria, quando queremos ver a casa cheia nos aniversários ou outras comemorações, mas são em momentos como os que vivemos em 2008 é que temos a dimensão do que é um amigo. Ele não precisa estar aqui do meu lado, basta ele existir. É suficiente ter seu telefone e poder ligar a qualquer hora, sorrindo ou chorando, mal conseguindo falar, mas sabendo que estão do outro lado da linha ou no computador, com tanto por fazer, mas ouvindo, acalentando, confortando ou rindo das bobagens que dizemos, lembramos....A existência de pessoas tão queridas, algumas que eu já tinha certeza do carinho, da solidariedade, da forte amizade e outras que se revelaram nessa trajetória de incertezas e lágrimas, tem adoçado os dias e ajudado a torná-los menos pesados.
É verdade que há o antônimo de tudo isso. Os que acreditei durante anos e até décadas em uma amizade, um amor, um sentimento forte que de fato não existia. Ele era frágil demais para resistir a uma tempestade mais forte. Eram sentimentos movidos a alegria, sem alicerce resistente e sucumbiram. Também relacionei mentalmente os rostos de pessoas que até pouco tempo habitavam intensamente a minha vida, eram importantes (ou achava isso!). Chorei por mim, pela perda do que talvez nunca tenha existido e por eles porque talvez ignorem o que seja solidariedade, companheirismo, gratidão, proximidade, fraternidade, reciprocidade. Não perdi nada eu sei, apenas conheci de fato quem são os amigos verdadeiros, as pessoas que de fato me amam entre copos de cerveja ou entre lágrimas. As que eu posso contar em todos os sentidos. Vi seus sorrisos porque não conheci suas lágrimas. Talvez sejam fracos demais, egoístas demais para dividir. Nunca conhecerão o que só o amor ao outro é capaz de dar. Felizmente eles são poucos. Tenho um monte que posso desabafar, trocar e-mails, telefonar quantas vezes desejar como a Ieda, Erika, Dóris, Ana Laura, Rosanne, RenataS, Soraya, Robinson, .. ahh e tantos outros.... ou os que podem me ajudar na burocracia que atravanca a minha vida como a venda da casa em Belém, a compra de outra em São Carlos, a liberar documentos, a quitar contas, a ser minha procuradora e me ajudar a resolver tanta coisa na Embrapa, no Banco do Brasil, na Amazônia Celular, na Prefeitura, na farmácia, (como a incansável Consuelo), cuidar do meu parco patrimônio (como o Rulton e a Socorro). Acima de tudo me dando a certeza de que não estou só. Tem ainda os meus carinhosos e presentes eternos alunos.
Mas agora é outro ano... Tenho que pensar assim, mesmo tendo tanto medo de 2009...
É como se outras situações difíceis, surpresas desagradáveis estivessem à espreita me esperando em fevereiro, abril, agosto, outubro sei lá.... Em janeiro farei a primeira grande revisão de controle de câncer. Exames sofisticados que darão o rumo do tratamento para os próximos seis meses. Sei, racionalmente, que os meus prognósticos são bons, que a possibilidade de recidiva ou metástase é pequena, mas nada disso inibe o medo.
Tento me convencer de que nada acontece por acaso, que se tiver que morrer ou sofrer em 2009 nada impedirá. Nada impediu que o Manoel morresse. Estava determinado. Deixou Belém, foi para um dos melhores hospitais em tratamento de câncer do País (quiçá da América Latina), mas se ele nasceu no dia 15 de novembro de 1957, também já havia sido decidido que morreria dia 2 de agosto de 2008. Eu vi isso, presenciei o esforço de toda a equipe e a falência lenta e irreversível dos órgãos como se fosse um painel cheio de luzes que a cada dia uma apagasse, mas a luminosidade permanecesse. Até que um dia apagaram-se todas e ele ficou ali inerte. Somos ainda, visualmente, as mesmas pessoas. Como se estivéssemos dormindo, mas sem nenhuma luz acesa. Tudo parou... desaparecemos...
Tenho muito medo das mudanças que sei se operaram em mim. Estou mais cética, mais fria, mais decidida, mais ousada, mais corajosa e menos generosa. Reavaliando quase tudo, buscando ainda mais explicações para o que talvez seja inexplicável.
Penso muito nos meus filhos, na enorme responsabilidade que agora é só minha. Mas ao mesmo tempo sei que tenho que pensar em mim, em buscar prazeres adormecidos, a (re)construir minha vida em diversos sentidos. Estou uma recém-nascida em quase tudo. Os amigos próximos ainda tateiam em meu íntimo, minha casa é nova, meu bairro desconhecido, meus colegas de trabalho uma incógnita. Mudei tudo: a cabeleireira, a cama e até meu estado civil. Não me vejo mais a mesma paciente de antes, a generosa de poucos anos atrás. Endureci nos sentimentos e na forma de ver a vida, a entender que ela é de fato passageira e que nada adiará essa partida definitiva.
Assim mesmo tenho sonhos, acalanto intimamente a esperança de voltar a ser feliz. Uma felicidade que venha de dentro, que seja real, verdadeira, autêntica. Não para que os outros me vejam feliz, mas para que eu me sinta feliz e eu já fui feliz muitas vezes. Já experimentei o sabor do não ter nada pra fazer e que o único compromisso era nem levantar da cama; do rir do que nem é engraçado, mas apenas porque a vida está bela; de andar sem rumo por estradas desconhecidas se perdendo a cada rotatória e ainda comemorando pela demora em voltar pra casa. Feliz por estar bem, por estar com quem se quer, apenas vivendo.
Preciso acreditar no que diz a música Sentimental do Chico Buarque: Geminiano este ano vai ser o seu ano.... Ahh.. eu hei de ser, terei de ser, serei feliz!!!”
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