Quem sou eu

Belém/Ribeirão Preto, Brazil
Amazônida jornalista, belemense papa-xibé. Mãe, filha, amiga... Que escreve sobre tudo e todos há décadas. Com lid ou sem lid e que insiste em aprender mais e mais... infinitamente... Até a morte

Aos que me visitam

Sintam-se em casa. Sentem no sofá, no chão ou nessa cadeira aí. Ouçam a música que quiser, comam o que tiver e bebam o que puderem.
Entrem...
Isso aqui está se transformando em um pedaço de mim que divido com cada um de vocês.
Antes de sair me dê um abraço, um afago e me permita um beijo.

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quarta-feira, 31 de outubro de 2007

A grande homenagem !

Ainda estou emocionada, em estado de graça.
Desde segunda-feira acontece, em Brasília, mais um encontro (creio que o quarto ou quinto) de profissionais de Comunicação de toda a Embrapa. Particiei de todos ! Este, infelizmente, não pude comparecer. E ontem à noite, um telefonema me levou para perto daquele grupo barulhento, brigão, mas cheio de boas intenções, amizades sinceras e muito profissionalismo. Primeiro o Robinson. Voz calma, serena do amigo que tem torcido, ajudado e se preocupado com a minha saúde com muita sinceridade e carinho. Depois o Dalmo, Guilherme, Ruy, Siglya, João... todos de Unidades da Empresa distantes do Pará. Paraíba, Minas, Rio Grande do Sul, Roraima, Rio de Janeiro. Não importa ! A voz deles me encheu o coração, me deu uma enorme felicidade e a certeza de que de fato contribuí de alguma forma com a Comunicação da Embrapa. Palavras carinhosas, admiração, votos de muita saúde, de retorno imediato. Tudo o que precisava ouvir. Um telefonema de quase uma hora. Um passando o aparelho para o outro e me emocionando a cada novo timbre.
Finalmente a Célia Libardi e a Renata Baía, ambas da Embrapa de Belém para encerrar o papo. A primeira já marcando um almoço para o domingo e a outra, minha atual chefinha, com a voz meiga de sempre comentando o quanto fiz falta.
Gosto desse gostinho de dever cumprido.
Fui, durante 18 anos, a única profissional dessa Unidade de Belém. Errei e acertei muitas vezes, mas acima de tudo tentei ser justa, ética, profissional, comprometida com a empresa, coerente com os meus princípios. Fiz muitos amigos, mas não cedi a pressões.
Queria estar lá...
Mas estou aqui, ansiosa pela consulta de amanhã que finalmente deve fechar um ciclo e ratificar o dia da cirurgia.
Estou lá e aqui ...

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Organizando-me

Agora que a cirurgia parece ser inadiável é hora de começar a me organizar para parar. Há muito ainda for fazer e preciso me planejar. Pretendo deixar as turmas da FAZ só dependendo das avaliações finais. Felizmente tenho contado com a colaboração da direção, coordenação e de outros professores que têm me cedido horários para adiantar o conteúdo. Quinta-feira deverá ser a última aula desse semestre. Há avaliações ainda a elaborar, passar e ainda corrigir.
Só espero não me emocionar demais nesta despedida.
Preciso ainda acelerar o curso de pós na Unama. Ainda não entreguei o trabalho final do último módulo e também definir um cronograma para a monografia. Se tudo correr bem, até maio terei o título de especialista. Nada demais, mas para mim muito importante.
Tem ainda a casa, os detalhes das contas a pagar e os filhos. Sei que vou alugá-los intensamente nos dias que antecederem à cirurgia. De novo vou querer colo. Afagos para não pensar demais. Senti-los juntinhos de mim e ao mesmo tempo em que receber força, passar a eles que este é um momento especial, de superação, de aprendizagem, de amadurecimento. Estão reagindo bem. Não escondemos nada deles. Até ao médico o Raul me acompanha. A Anaterra certamente vai querer de novo ir para o hospital comigo. Verdade, transparência, carinho e segurança é que tento passar a eles. Mesmo quando choro, mesmo quando fico pensativa ou fraquejo.
Hoje tenho plena consciência do quanto o câncer é ingrato. Uma doença que surpreende a todos e que ainda carrega um enorme impacto só no nome. É claro que as mudanças foram radicais nas últimas décadas. Os cientistas têm sido incansáveis. Mas cada câncer é um câncer. Cada diagnóstico traz consigo um carimbo individualizado. Pelo que tenho lido, conversado, pesquisado, o meu diagnosticado nesse estágio tem tudo para dar certo. Mas ele será eterno. Nunca mais esse fantasma deixará de me rondar. A cada seis meses nova apreensão. Não farei uma cirurgia para estipar um apêndice inflamado ou uma vesícula comprometida. Estarei começando uma nova etapa.
Não sei se cairá meu cabelo nem quantas quimioterapias, radioterapias farei. Quais as medicações que terei que tomar, os cuidados e limitações. Sei apenas que já estou tentando mudar minha vida : nada de álcool, quase nada de carne vermelha, muito peixe (sou uma privilegiada por dispor de uma variedade enorme no Ver-o-Peso), frutas, verduras, sucos, chás. Alguém há de dizer : se sabia que tudo isso era sinônimo de saúde por que não agiu antes assim ? Simplesmente porque tinha o direito de experimentar o outro lado também. Aquele de muitas noitadas, com cervejas sem limites e papos deliciosamente molhados. Uma picanha no fogo ou uma maniçoba no prato.
E muitas, muitas histórias ...
Vivi isso, experimentei, gostei e talvez tenha chegado a hora de me frear.
Sem lamentos, saudosismos ou tristezas. Quero viver esse outro momento com o mesmo entusiasmo, intensidade e alegria. Com ou sem cabelo, provavelmente com vários quilos a menos e brindando com um suco de bacuri e no prato uma bela salada de grão-de-bico. Não importa ! O fundamental é estar feliz, rodeada dos filhos - mais do que nunca presentes, mais carinhosos, mais preocupados - da mãe, marido, irmãos, sobrinhos, amigos e curtindo a vida !
Preciso correr para elaborar as provas ..

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

A semana decisiva

Acredito que nesta semana tudo tende a se resolver. Acabo de chegar do mastologista-oncologista que marcou inicialmente a cirurgia para o dia 7 de novembro. Dependo agora só do laudo do hepatologista/clínico geral, que é especial para todos pela sensibilidade, profissionalismo, competência e empatia com os pacientes.
Saí confiante. Até o fígado, tão combalido pelas cervejas, picanhas e maminhas parece estar bem. Nada de preocupante com ele. Deve ter sido um aviso mesmo ou um tempo que precisava para me acalmar, conviver com essa informação, com este novo cenário que viverei daqui pra frente.
Sem chopes, maniçobas ou vatapás. No máximo um tacacá vez ou outra. Mas conseguirei. Deixei de fumar há 15 anos por livre e espontânea vontade, sem tratamentos e muitas nóias. Apenas muita força de vontade. Terei que agir assim agora novamente. Quero viver mais alguns anos.
Estou querendo que a cirurgia aconteça logo, que eu fique sabendo definitivamente o que terei que fazer nos próximos meses. Essa expectativa e vida suspensa me angustia muito. Não fui feita para esperar.
Hoje deveria estar em Brasília junto com os profissionais de Comunicação da Embrapa. Acordei pensando neles, na programação, no que deixarei de aprender. Não abraçarei pessoas queridas que vejo tão pouco, mas que convivo muito. Bateu uma tristeza profunda, uma vontade de estar lá, de discutir, de tratar de nossas conquistas e desafios e ao final, exaustos, sair pra tomar um chope em uma quadra qualquer da capital federal.
Sei, contudo, que este momento é de eu me cuidar. Preciso ainda voltar com a cirurgiã plástica, ter consulta com o anestesista, ir ao Hospital tratar da internação e passar na analista para que a minha cabeça entre bem na sala de cirurgia. Junto com a retirada de material que ainda deve ter células cangerígenas e a pesquisa dos lifonodos sentinelas (que se Deus quiser serão todos negativados !), farei a reconstrução da mama. A cirurgia mais delicada e demorada. Mas necessária. No mínimo sairei com seios mais sedutores e livres do câncer.

domingo, 28 de outubro de 2007

Minha religiosidade

Eu sempre fui católica. Minha família assim decidiu. Recebi como segundo nome Fátima, em homenagem à Nossa Senhora de Fátima, já que nasci no mês de maio. Fui batizada, crismada, fiz primeira comunhão e já adolescente participei de encontros religiosos, fui da Cruzada e Movimento Jovem da Paróquia dos Capuchinhos. Casei na Igreja (na pequena capela da ilha de Mosqueiro), mas muitos procedimentos arcaicos e incompatíveis com o mundo atual, me afastaram da Igreja. Não de Deus, Jesus Cristo, dos santos que sou devota ou das orações. Sobretudo as de agradecimento.
Sim, minha religiosidade é real e presente, mas hoje, em função dessa prova, está latente.
Sinto necessidade de conversar com outros seres, além do humanos. Os que estão acima de mim. Que possam interceder pela minha cura. Converso mais do que rezo aquelas orações tradicionais. Falo de meus medos, rogo que me proteja para não sofrer e para os que me amam também não sofram demais.
Há muito não ia a uma Missa pelo simples prazer de ficar naquele ambiente carregado de energia. Fui hoje pela manhã na Basílica Santuário de Nazaré. Uma cerimônia que durou cerca de 1:30h. Cheia de cânticos, louvores, lágrimas e muita fé. Novamente conversei com a pequena imagem. Nem mesmo o templo lotado foi impeditivo.
Pedi por todos que sofrem, pelos que ainda não aceitaram suas enfermidades, os que estão hospitalizados e principalmente pelos que têm menos sorte do que eu. Sim, independente da doença, tenho muita sorte. Sorte de ter um plano de saúde, de ter descoberto o câncer em um estágio tão inicial, de estar pesquisando um órgão como o fígado, de ter amigos, marido, filhos, mãe, irmãos, sobrinhos, alunos, colegas... todos juntos na torcida.
Sorte por ter informação e poder assim entender o que acontece comigo. Compreender a extensão do meu drama. Nem maior nem menor do que o dos outros, apenas diferente porque é meu.
Agradeci mais do que pedi. Peço apenas muita força para não me desesperar, para não fraquejar e muita disposição para ir em frente.
Pedi, com toda a fé que possuo, que Nossa Senhora de Nazaré, como mãe que foi de Jesus, proteja também meus filhos. Eles, sim, são o que mais eu quero preservar, evitar que sofram.
Saí serena da Basílica.
Depois, o almoço em família que contou com a presença até da tia Jorgete, o falatório, as novidades, Thomaz e Leonardo brincando, caindo, derrubando suco. Hora da bagunça.
Aí não dá para pensar em nada mais...
Que bom !!

sábado, 27 de outubro de 2007

Nada é por acaso

Tenho certeza de que estou tendo uma nova oportunidade de vida. Uma pausa necessária e providencial. Que chegou encoberta de medo, com informações tumultuadas e muita apreensão. É a hora de rever conceitos, mudar rotinas, alterar valores. Uma nova perspectiva de encarar os próximos anos.
Nada é por acaso... Agora preparo-me para ir ver minha filha, de 11 anos, dançar em Castanhal. Uma viagem de uma pouco mais de uma hora. Aparentemente nada tenho de diferente. Quinta e sextas-feiras dei aula durante quase quatro horas seguidas. Momentos de total levitação e de reflexões enquanto os alunos se envolvem nas atividades e fazem um silêncio raro. Fisicamente continuo quase a mesma e isso surpreende as pessoas que já se preparam para um encontro com alguém visivelmente doente. Nada mudou. Por fora !!
Fico me enchendo de perguntas para as quais não tenho resposta. Afirmo, contudo, com firmeza e certeza de que o susto terá um saldo positivo. Se por um lado estou sem programação para os próximos meses (como será o meu Natal ?), por outro sei que tenho que me cuidar seriamente para poder viver um pouco mais e com qualidade.
Nada é por acaso ... o câncer detectado na mama está me dando a oportunidade de pesquisar outros órgãos, de me virar do avesso e constatar que de fato beber e comer irresponsavelmente como eu vinha fazendo, era um suicídio homeopático. Principalmente aos 50 anos !
É claro que tenho vontade de me debruçar sobre alguns caranguejos com um pirão de feijão temperado pela Dona Lúcia ou de tomar duas, três, quatro, cinco cerpinhas ouvindo o Chico. Mas tenho que escolher : viver menos ou me limitar às sopas, carnes grelhadas, folhas e mais folhas, um sorvete vez ou outra e sucos variados. Felizmente vivo em Belém e aqui, além dos tradicionais laranja, maracujá e acerola temos ainda o bacuri, cupuaçu, taperebá, muruci que nos permite variar.
Hoje eu me testei. Na casa do meu irmão Rulton, vi o filho dele Rultinho e a enteada, Marcela, em companhia do meu marido Manoel, saboreando caranguejo com feijão. É claro que senti vontade de fazer parte daquela farra. Mas me contive. Um grande copo de suco de maracujá acalmou minha fome e minha ansiedade.
Bem, pelo menos já perdi alguns quilinhos.
Nada é por acaso ...Nem de todo ruim...

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Buscando prazeres adormecidos

Enquanto espero, resgato prazeres antes adormecidos. A vida corrida me afastou dos livros mais prazerosos, dos papos informais com os amigos (mesmo pela Net), passeios mais demorados e do convívio mais próximo com a família. A minha rotina até 24 de dezembro era intensa demais : assessoria de comunicação na Embrapa, aulas (como professora) na FAZ, aulas na Unama (como aluna de pós) e ainda um monte de outras atribuições ligadas à profissão em associações, grupos de estudo etc.. Às vezes um dia de mais de 14 horas de atividade intensa.
Como nunca gostei de exercícios físicos - mas durante um bom tempo me dediquei entusiasticamente a eles - tinha uma boa desculpa para fugir deles : a falta de tempo.
Além do trabalho outros prazeres no final de semana: a cozinha (fazendo e comendo) e as cervejas (servindo e bebendo).
Agora, como diz novamente o Elias Pinto Júnior (ou pra os mais íntimos Eliaszinho), está na hora de prestar contas com os nossos órgãos. Um tema para outro texto mais adiante ...
Redescubro que posso substituir a corrida diária pela leitura, pela administração da casa ou pela melhor elaboração das aulas (isso não deixei de fazer. Continuo firme como professora !).
Sair com os filhos já não tem inserido no programa um bom bar ou restaurante. Podemos ir apenas passear, tomar um sorvete, ver o pôr-do-sol na Estação.
Amanhã será assim. À noite vamos todos assistir a Anaterra dançar em Castanhal. Um programa que talvez não tivesse tempo antes. Neste momento tenho esse tempo. Estou me dando de presente esses prazeres adormecidos.
Reencontrei o meu tempo.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

O tempo necessário

Enquanto os resultados dos exames não chegam e as novas consultas não acontecem, sobra tempo para (re)pensar, (re)ver, re(arrumar), (re)estruturar, (re)nascer... E eu nunca tive muito tempo pra isso. Ócio é coisa rara na minha vida. Mas hoje vejo como é imprescindível esse tempo. O impacto da informação foi intensamente ruminado e já digerido, a perspectiva do tratamento é real e as dúvidas, sei agora, serão eternas. Mas como não tê-las sempre e diante de tudo ? Nascer é duvidar do dia seguinte, mesmo quando não se tem consciência disso. Uma incerteza constante repleta de bons e maus momentos. Felizmente meu saldo é altamente positivo. Sempre bons à frente e de goleada.
Agora tenho tempo para mim, para meus medos e angústias, para escrever não só profissionalmente.
Para (re)aprender !
Estou aprendendo e reaprendendo muito. Até a rezar, conversar com Deus, com Nossa Senhora de Nazaré com intimidade sem a formalidade das orações convencionais. Rezar para ser ouvida.
Estou reaprendendo a não correr, a caminhar em passos firmes, mas lentos e a ser mais paciente. Minha ansiedade, em parte controlada com o Zoloft, tem me permitido até não surtar diante da cirurgia que não acontece, os diagnósticos que não fecham, os exames que não acabam nunca. Uns em jejum, outros com uma hora após o almoço, outros que saem daqui daqui a uma hora, outros daqui a uma semana. Aflição que oprime.
Reaprendi a ver a minha casa como um lugar que não serve apenas para eu dormir e fazer algumas refeições. A esperar os filhos, mesmo que seja para ganhar um beijo rápido entre uma saída e outra. A ler livros por deleite e não para resenhá-los ou para dar aula mais adiante.
Sim, estou reaprendendo a conviver comigo.
Trabalhando mais lentamente, na medida do possível, por necessidade e por prazer, sem pressa demasiada. Dando-me o tempo que necessito para prosseguir encarando o que ainda está por vir e, acima de tudo, reaprendendo a enfrentar cada etapa com ou sem susto, com ou sem medo. Mas sempre confiante !