De repente aquele garotinho manhoso, chorão, medroso chega à maioridade. Poderia ser só mais um aniversário, mas para mim, neste momento de nossas vidas, é emblemático e cheio de nuanças.
Ratifico, mais uma vez, como somos prepotentes, arrogantes e altivos ao acreditarmos que podemos dirigir nossas próprias vidas, rumar nossos destinos. Quando o Raul nasceu ele era o “meu” bebê, depois se transformou no “meu” menino que tentei direcionar para a pesquisa, mostrando ludicamente desde cedo a ciência e tecnologia.
Hoje tenho um rapaz que sabe o que quer e que não é absolutamente nada do que eu queria. Determinado, cabeçudo, teimoso e que transformou suas aulas doloridas na academia no que de mais importante existe para ser vivido.
Aos 18 anos passa a ser civilmente responsável pelos seus atos. Já não responderei por qualquer atitude ilegal que cometa, mas não consigo ainda vê-lo como um homem capaz de cuidar integralmente de si. Mesmo que more distante e sozinho.
Seu emocional parece não ter acompanhado o desenvolvimento dos músculos que só tendem a ir mais e mais além. Tenta ser um ser independente, mas basta eu ir passar alguns dias em sua casa pra sentir o quanto ainda é carente de atenção, de organização, de carinho maternal, da presença de uma mulher.
Relembramos com saudade alguns aniversários. Os 15 anos quando o Manoel transformou nossa casa em uma boate alegre e moderna. Os 16 marcados por um almoço que teve como um dos convidados especiais o seu professor de karatê, o Paulo, e a apreensão disfarçada pelo resultado, no dia seguinte , da biópsia do nódulo retirado da minha mama e os 17, já sem o Manoel, no Habib’s de São Carlos.
Agora foi em Ribeirão. Eu, mamãe, Anaterra e três de seus colegas de USP mais próximos: o sempre presente e paciente Lucas; o risonho Rafael e o mais maduro André. Um brinde, sem álcool, e muito churrasco celebrou a chegada à maioridade do “meu” bebê. Sei que ali estava seu mundo onde predominam as brincadeiras, o tom sarcástico e inteligente de jovens privilegiados que riem do nada e celebram a vida.
No final de semana anterior, brindamos com parte da família em Leme. Na casa do Ruy, sob o entusiasmo da Dóris, um delicioso bolo, muito barulho, peixada com pimenta e farinha da terra e lasanha antecipou a data. Rimos, lembramos e de novo celebramos a continuidade da vida.
Nem eu nem ninguém saberá quantos aniversários ainda passaremos juntos, mas o importante é que o amor a tudo resista.
Neste ou em outro plano qualquer...
Quem sou eu
- Ruth Rendeiro
- Belém/Ribeirão Preto, Brazil
- Amazônida jornalista, belemense papa-xibé. Mãe, filha, amiga... Que escreve sobre tudo e todos há décadas. Com lid ou sem lid e que insiste em aprender mais e mais... infinitamente... Até a morte
Aos que me visitam
Sintam-se em casa. Sentem no sofá, no chão ou nessa cadeira aí. Ouçam a música que quiser, comam o que tiver e bebam o que puderem.
Entrem...
Isso aqui está se transformando em um pedaço de mim que divido com cada um de vocês.
Entrem...
Isso aqui está se transformando em um pedaço de mim que divido com cada um de vocês.
Antes de sair me dê um abraço, um afago e me permita um beijo.
Arquivo do blog
- janeiro (7)
- outubro (1)
- julho (2)
- maio (1)
- abril (1)
- fevereiro (5)
- dezembro (1)
- outubro (2)
- setembro (1)
- maio (1)
- abril (1)
- março (3)
- fevereiro (1)
- janeiro (1)
- novembro (8)
- setembro (2)
- julho (1)
- junho (2)
- maio (2)
- abril (1)
- março (2)
- fevereiro (1)
- janeiro (3)
- dezembro (4)
- novembro (2)
- outubro (4)
- setembro (6)
- agosto (5)
- julho (6)
- junho (11)
- maio (10)
- abril (13)
- março (6)
- fevereiro (9)
- janeiro (14)
- dezembro (22)
- novembro (26)
- outubro (32)
- setembro (4)
domingo, 27 de setembro de 2009
sábado, 5 de setembro de 2009
Meu amigo e espelho RAIMUNDUNZÉ
Pintão, Raimundo José ou como ele dizia que só eu e a mãe o chamávamos: RAIMUNDUZÉ.
Talvez ninguém tenha sido tão importante na minha formação como profissional, como pessoa na relação com os seus colegas de trabalho, como ele.
Tivemos muitas oportunidades de reviver hilários momentos que começaram no jornal O Estado do Pará, ainda no final da década de 70. Papos molhados ou movidos a peixe assado, na casa da Roso Danin, em Canudos,. Mas hoje, depois desse adeus definitivo, é inevitável não sentir tudo rebrotando e como uma tempestade remexer lembranças, emoções e atiçar a saudade que dói demais.
Dezembro de 1983, ele, mais amigo da Sula (a amiga comum com quem eu dividia apartamento), ele fala da vaga disponível na Embrapa. Não para jornalista, mas para revisor gramatical. Tinha mais a minha cara, segundo eles,e sai em busca do desafio. Um teste rápido e fui a selecionada. Aí passei de fato a conhecer aquele homem grandão, desengonçado, óculos fundo de garrafa, gago, de poucas palavras, mas infinitamente bom, justo, ético, profissional, amigo, competente, sagaz, inteligente, sério que agora nos deeixa órfãos.
Foram anos na mesma sala, dividindo sonhos e frustrações de quem inicia um trabalho em uma instituição de pesquisa que não compreendia nossa atividade, que não percebia o nosso papel no emaranhado de projetos.
Foi também meu mestre no pouco que sei de sindicalismo. Aprendi com ele a conviver com as diferenças, a respeitar os antagonismos e beijar e abraçar mesmo os que a gente possa discordar política ou ideologicamente.
Uma amizade que se fortaleceu com os anos e que nos tornou irmãos. Sim, eu o considerava um irmão, assim como tinha certeza que era esse o sentimento que ele nutria por mim.
O RAIMUNDUZÉ me ensinou o que é ética sem discursos, sem citações bibliográficas, sem metodologias ou revisões literárias. Estava no sangue e as aulas práticas tenho sempre como referência e procurado usá-las em qualquer momento da minha vida.
Foi ele o meu maior estímulo dentro da Embrapa, mesmo não acreditando integralmente nos documentos institucionais. Na prática me mostrou um horizonte onde a amizade pode sobreviver mesmo quanto há uma aparente competição profissional. Ele era seguro e generoso e me estendeu a mão, me ensinou, me doou pérolas que me acompanharão até a morte.
É.. e hoje escrevo sobre a morte dele. Uma morte anunciada que sabia que chegaria a qualquer momento, mas que eu não queria que fosse confirmada.
Egoísmo talvez ...
Sabia do irreversível quando o encontrei em São Paulo ano passado. Debilitado, mais magro, sem apetite e profundamente zangado. Passeamos pelo shopping (ele na cadeira de roda), fizemos compras, nos enganando com o cenário de alegria a nossa volta. Aos nos despedir o fizemos com muita emoção. Acreditávamos, mesmo sem nada dizer, ser este o nosso último encontro.
Mas não foi ...
Início de maio estive em Belém e entre as poucas pessoas que tive tempo de me encontrar, estava ele. Ai como doeu vê-lo naquele estado. Esquálido, perna esquerda quase sem movimento e um humor mais negro do que o que era uma de suas características :
- Já viste isso, Ruth ? Tenho quatro pernas agora, mas só uma funciona de verdade !! A bengala !!! kkkk
A última imagem foi ele pagando a mensalidade dão curso de natação do Caio (outro motivo para eu admirá-lo mais ainda) e o enorme esforço que fez só para deixar o táxi e andar uns poucos metros. Meu amigo era só dor e num esforço imensurável tentava se manter em pé, participar da vida familiar que reconstruiu com a dedicada e incansável Sílvia Regina.
De volta ao táxi chorei... Deixava pra trás um querido amigo, um ser humano especial e um profissional que o câncer aos poucos nos roubava.
Há cerca de 15 dias falei com ele pelo telefone. Voz\ baixa, arrastada, entrecortada pela dor.
-Como você está amigão ?
- Horrível, Ruth !! Horrível! Nem ando mais.
Agora a dor passou, o amigo se foi e só nos resta preservar a sua lembrança, agradecer ao privilégio de ter estado tão perto dele por anos. Não só nas comemorações abarrotas de uísque ou cervejas, mas como paradigma de discernimento, competência, respeito pelo outro, seriedade, ética e inteligência.
Até qualquer dia, RAIMUNDUZÉ !
O reencontro com os nossos amigos comuns que já se foram combina mais com você do que a dor que te fez sofrer por tanto tempo.
Um beijo querido !!
Talvez ninguém tenha sido tão importante na minha formação como profissional, como pessoa na relação com os seus colegas de trabalho, como ele.
Tivemos muitas oportunidades de reviver hilários momentos que começaram no jornal O Estado do Pará, ainda no final da década de 70. Papos molhados ou movidos a peixe assado, na casa da Roso Danin, em Canudos,. Mas hoje, depois desse adeus definitivo, é inevitável não sentir tudo rebrotando e como uma tempestade remexer lembranças, emoções e atiçar a saudade que dói demais.
Dezembro de 1983, ele, mais amigo da Sula (a amiga comum com quem eu dividia apartamento), ele fala da vaga disponível na Embrapa. Não para jornalista, mas para revisor gramatical. Tinha mais a minha cara, segundo eles,e sai em busca do desafio. Um teste rápido e fui a selecionada. Aí passei de fato a conhecer aquele homem grandão, desengonçado, óculos fundo de garrafa, gago, de poucas palavras, mas infinitamente bom, justo, ético, profissional, amigo, competente, sagaz, inteligente, sério que agora nos deeixa órfãos.
Foram anos na mesma sala, dividindo sonhos e frustrações de quem inicia um trabalho em uma instituição de pesquisa que não compreendia nossa atividade, que não percebia o nosso papel no emaranhado de projetos.
Foi também meu mestre no pouco que sei de sindicalismo. Aprendi com ele a conviver com as diferenças, a respeitar os antagonismos e beijar e abraçar mesmo os que a gente possa discordar política ou ideologicamente.
Uma amizade que se fortaleceu com os anos e que nos tornou irmãos. Sim, eu o considerava um irmão, assim como tinha certeza que era esse o sentimento que ele nutria por mim.
O RAIMUNDUZÉ me ensinou o que é ética sem discursos, sem citações bibliográficas, sem metodologias ou revisões literárias. Estava no sangue e as aulas práticas tenho sempre como referência e procurado usá-las em qualquer momento da minha vida.
Foi ele o meu maior estímulo dentro da Embrapa, mesmo não acreditando integralmente nos documentos institucionais. Na prática me mostrou um horizonte onde a amizade pode sobreviver mesmo quanto há uma aparente competição profissional. Ele era seguro e generoso e me estendeu a mão, me ensinou, me doou pérolas que me acompanharão até a morte.
É.. e hoje escrevo sobre a morte dele. Uma morte anunciada que sabia que chegaria a qualquer momento, mas que eu não queria que fosse confirmada.
Egoísmo talvez ...
Sabia do irreversível quando o encontrei em São Paulo ano passado. Debilitado, mais magro, sem apetite e profundamente zangado. Passeamos pelo shopping (ele na cadeira de roda), fizemos compras, nos enganando com o cenário de alegria a nossa volta. Aos nos despedir o fizemos com muita emoção. Acreditávamos, mesmo sem nada dizer, ser este o nosso último encontro.
Mas não foi ...
Início de maio estive em Belém e entre as poucas pessoas que tive tempo de me encontrar, estava ele. Ai como doeu vê-lo naquele estado. Esquálido, perna esquerda quase sem movimento e um humor mais negro do que o que era uma de suas características :
- Já viste isso, Ruth ? Tenho quatro pernas agora, mas só uma funciona de verdade !! A bengala !!! kkkk
A última imagem foi ele pagando a mensalidade dão curso de natação do Caio (outro motivo para eu admirá-lo mais ainda) e o enorme esforço que fez só para deixar o táxi e andar uns poucos metros. Meu amigo era só dor e num esforço imensurável tentava se manter em pé, participar da vida familiar que reconstruiu com a dedicada e incansável Sílvia Regina.
De volta ao táxi chorei... Deixava pra trás um querido amigo, um ser humano especial e um profissional que o câncer aos poucos nos roubava.
Há cerca de 15 dias falei com ele pelo telefone. Voz\ baixa, arrastada, entrecortada pela dor.
-Como você está amigão ?
- Horrível, Ruth !! Horrível! Nem ando mais.
Agora a dor passou, o amigo se foi e só nos resta preservar a sua lembrança, agradecer ao privilégio de ter estado tão perto dele por anos. Não só nas comemorações abarrotas de uísque ou cervejas, mas como paradigma de discernimento, competência, respeito pelo outro, seriedade, ética e inteligência.
Até qualquer dia, RAIMUNDUZÉ !
O reencontro com os nossos amigos comuns que já se foram combina mais com você do que a dor que te fez sofrer por tanto tempo.
Um beijo querido !!
quarta-feira, 1 de julho de 2009
MINHA BIOGRAFIA
Ontem eu descobri, no divã do psiquiatra, que não são apenas as celebridades que tem biografia. Nós, pobres mortais, também temos a nossa. A diferença básica é que a Mídia não anda atrás das informações mais íntimas de nossa apática vida e nem existe ninguém querendo escrevê-la e torná-la um bestseller.
Tudo a ver com esse momento em que a Imprensa parece só ter um tema: a morte de Michael Jackson. O colegas teóricos de comunicação tem a Agenda Seeting pra explicar tudo isso muito bem ! Sumiram, como por encanto, as pautas sobre o escândalo dos atos secretos do Senado, o golpe em Honduras, a morte dos que estavam no vôo para Paris, o caos na saúde, tudo passou a ser secundário. Bom para quem está alinhavando a biografia do astro do pop, principalmente porque ela tem nuances e tantas entrelinhas que a publicação já é garantia de recorde nas vendas.
Mas eu também tenho a minha e o mais chocante foi saber que a maioria dela eu mesmo construí a partir de escolhas, valores, decisões, ousadia ou apatia.
Quando crianças ou muito jovens evidentemente ela está mais entregue ao acaso. Mesmo assim, o que recebemos dos pais, de como eles nos fazem ver o mundo, já interferem e vejo isso hoje com muita clareza. Por isso considero sempre tão importante a ajuda dos especialistas na nossa mente. Eles conseguem elaborar cientificamente o que apenas sentimos, fazemos quase sempre intuitivamente. Arrumam o quebra-cabeça das emoções, reações, atos com conhecimentos adquiridos na academia e simplificam e parecem mesmo desvendar o que parecia antes tão incompreensível. Sei, contudo, que é preciso estar acessível para receber e acatar o que nem sempre nos é favorável.
Quando, aos 28 anos resolvi sair de casa e dividir apartamento com a Sula (uma jornalista iniciante como eu) fiz com consciência de que não teria volta, de que este era o momento de eu ir viver sozinha, mesmo contrariando minha mãe, decepcionando minha avó, surpreendendo meus irmãos. Tinha conquistado esse privilégio tão ambicionado pelos jovens da minha época. Podia me sustentar e ainda ajudar em casa. E assim eu fui. Depois fiquei anos dividindo com a companheira de apartamento a responsabilidade de ser mão interina. Quando decidi ir morar totalmente só o fiz de novo com segurança. Era o que eu queria e não me arrependi.
Vivi muito e intensamente cada momento da minha solteirice. Namorei muito, viajei demais da Bahia ao Acre, bebi bastante (peguei porres homéricos. Nem é bom lembrar !), dancei freneticamente e aos 30 comecei a ser perseguida pela idéia de que tinha que ser mãe. Mas e o pai ? Não tinha muita importância esse “pequeno” detalhe. Insisti, embora sem o consentimento dos companheiros, mas aí, sem minha interferência direta, o “escolhido” foi o Manoel. O melhor pai que poderia ter encontrado para o Raul e Anaterra. Vivemos 18 anos juntos. Problemas ? Hummm muitos... muitos... Mas nada que me leve ao arrependimento. Cresci como pessoa, amadureci como profissional, fiquei melhor como ser humano.
Agora estou de novo só, mesmo que a presença dele ainda seja muito forte, mesmo que vez ou outra me pegue falando com ele, tentando ouvir o que acha da atitude deste ou daquele filho, mas de novo vejo minha biografia com várias linhas a serem escritas ainda. Páginas e mais páginas em branco, que com mais experiência, mais acertos do que erros pretendo escrever e não ter que apagar muitas vezes.
Uma compreensão que adveio do divã que me fez bem perceber. Sei agora porque sou tão exigente comigo, porque primo por comportamentos que embora liberais e às vezes até surpreendentes para que os enxergam os cinquentões como idosos que já não tem planos ou sonhos : preciso ser coerente com a minha biografia. Continuar gostando de mim e tentando ir adiante, seguir mesmo que de seis em seis meses precise de novos exames e passe por momentos de intensa ansiedade só de imaginar um novo tumor. Mesmo que as lágrimas sejam mais constantes do que antes ou que situações que aparentemente seriam facilmente administradas em outras circunstâncias sejam motivos para explosões.
Nem percebia que a minha biografia era tão importante pra mim e como, mesmo sem notar, luto para manter a coerência com tudo o que acredito e espero ainda viver que inclui muito do já vivido e o muito ainda a experimentar como esse novo desafio que ainda me parece impossível, mas que vou perseguir: dirigir meu próprio carro, mesmo que seja apenas nas calmas ruas de São Carlos.
Um novo amor ? quem sabe ! Cedo ainda pra ocupar o que ainda está ocupado. Nem sei se ele chegará, mas se vier terá que ser compatível com a minha biografia. Isso eu descobri e adorei a descoberta !! Que me respeite, me ame, que seja inteligente, humano, profissionalmente realizado, generoso e não me inspire apenas paixão. Uma relação adulta de cumplicidade, de querer bem e de torcida mútua.
As aventuras inconseqüentes eu vivi intensamente aos 20,30 anos. Sem medo de errar, hoje tenho pouco tempo pra consertar e talvez por isso esteja tão mais comedida, tão mais equilibrada e buscando acertar .
Minha biografia não deverá nunca ser publicada, mas constatar que ela existe foi bom demais ! Tentarei prosseguir preenchendo as páginas que ainda faltam com seriedade, respeito e acima de tudo por amor a mim !
Tudo a ver com esse momento em que a Imprensa parece só ter um tema: a morte de Michael Jackson. O colegas teóricos de comunicação tem a Agenda Seeting pra explicar tudo isso muito bem ! Sumiram, como por encanto, as pautas sobre o escândalo dos atos secretos do Senado, o golpe em Honduras, a morte dos que estavam no vôo para Paris, o caos na saúde, tudo passou a ser secundário. Bom para quem está alinhavando a biografia do astro do pop, principalmente porque ela tem nuances e tantas entrelinhas que a publicação já é garantia de recorde nas vendas.
Mas eu também tenho a minha e o mais chocante foi saber que a maioria dela eu mesmo construí a partir de escolhas, valores, decisões, ousadia ou apatia.
Quando crianças ou muito jovens evidentemente ela está mais entregue ao acaso. Mesmo assim, o que recebemos dos pais, de como eles nos fazem ver o mundo, já interferem e vejo isso hoje com muita clareza. Por isso considero sempre tão importante a ajuda dos especialistas na nossa mente. Eles conseguem elaborar cientificamente o que apenas sentimos, fazemos quase sempre intuitivamente. Arrumam o quebra-cabeça das emoções, reações, atos com conhecimentos adquiridos na academia e simplificam e parecem mesmo desvendar o que parecia antes tão incompreensível. Sei, contudo, que é preciso estar acessível para receber e acatar o que nem sempre nos é favorável.
Quando, aos 28 anos resolvi sair de casa e dividir apartamento com a Sula (uma jornalista iniciante como eu) fiz com consciência de que não teria volta, de que este era o momento de eu ir viver sozinha, mesmo contrariando minha mãe, decepcionando minha avó, surpreendendo meus irmãos. Tinha conquistado esse privilégio tão ambicionado pelos jovens da minha época. Podia me sustentar e ainda ajudar em casa. E assim eu fui. Depois fiquei anos dividindo com a companheira de apartamento a responsabilidade de ser mão interina. Quando decidi ir morar totalmente só o fiz de novo com segurança. Era o que eu queria e não me arrependi.
Vivi muito e intensamente cada momento da minha solteirice. Namorei muito, viajei demais da Bahia ao Acre, bebi bastante (peguei porres homéricos. Nem é bom lembrar !), dancei freneticamente e aos 30 comecei a ser perseguida pela idéia de que tinha que ser mãe. Mas e o pai ? Não tinha muita importância esse “pequeno” detalhe. Insisti, embora sem o consentimento dos companheiros, mas aí, sem minha interferência direta, o “escolhido” foi o Manoel. O melhor pai que poderia ter encontrado para o Raul e Anaterra. Vivemos 18 anos juntos. Problemas ? Hummm muitos... muitos... Mas nada que me leve ao arrependimento. Cresci como pessoa, amadureci como profissional, fiquei melhor como ser humano.
Agora estou de novo só, mesmo que a presença dele ainda seja muito forte, mesmo que vez ou outra me pegue falando com ele, tentando ouvir o que acha da atitude deste ou daquele filho, mas de novo vejo minha biografia com várias linhas a serem escritas ainda. Páginas e mais páginas em branco, que com mais experiência, mais acertos do que erros pretendo escrever e não ter que apagar muitas vezes.
Uma compreensão que adveio do divã que me fez bem perceber. Sei agora porque sou tão exigente comigo, porque primo por comportamentos que embora liberais e às vezes até surpreendentes para que os enxergam os cinquentões como idosos que já não tem planos ou sonhos : preciso ser coerente com a minha biografia. Continuar gostando de mim e tentando ir adiante, seguir mesmo que de seis em seis meses precise de novos exames e passe por momentos de intensa ansiedade só de imaginar um novo tumor. Mesmo que as lágrimas sejam mais constantes do que antes ou que situações que aparentemente seriam facilmente administradas em outras circunstâncias sejam motivos para explosões.
Nem percebia que a minha biografia era tão importante pra mim e como, mesmo sem notar, luto para manter a coerência com tudo o que acredito e espero ainda viver que inclui muito do já vivido e o muito ainda a experimentar como esse novo desafio que ainda me parece impossível, mas que vou perseguir: dirigir meu próprio carro, mesmo que seja apenas nas calmas ruas de São Carlos.
Um novo amor ? quem sabe ! Cedo ainda pra ocupar o que ainda está ocupado. Nem sei se ele chegará, mas se vier terá que ser compatível com a minha biografia. Isso eu descobri e adorei a descoberta !! Que me respeite, me ame, que seja inteligente, humano, profissionalmente realizado, generoso e não me inspire apenas paixão. Uma relação adulta de cumplicidade, de querer bem e de torcida mútua.
As aventuras inconseqüentes eu vivi intensamente aos 20,30 anos. Sem medo de errar, hoje tenho pouco tempo pra consertar e talvez por isso esteja tão mais comedida, tão mais equilibrada e buscando acertar .
Minha biografia não deverá nunca ser publicada, mas constatar que ela existe foi bom demais ! Tentarei prosseguir preenchendo as páginas que ainda faltam com seriedade, respeito e acima de tudo por amor a mim !
sexta-feira, 26 de junho de 2009
O CHICO EM MINHA VIDA
Todos os que me conhecem um pouquinho sabem da minha paixão, admiração e sei lá mais o que pelo FRANCISCO BUARQUE DE HOLANDA. Quando ele nasceu ? eu sei !! quantas filhas teve ? eu sei? Onde buscou exílio ? eu sei ? onde morou... que cursos fez.. e principalmente sei muito de suas músicas, seus livros, suas peças de teatro.
Só não sei exatamente quando essa relação unilateral começou, mas tenho uma cena bem nítida em minha memória. Anos 70, talvez 1971, eu com 13, 14 anos e encontro entre tantos discos na casa da minha tia Jorgete um do Chico. Não sabia quem ele era, apenas fiquei maravilhada com os seus belos olhos verdes e todas as vezes que ia na casa dela dava um jeitinho de ouvir Construção, Cotidiano ou sei mais o quê. Mas ainda mais encantada com o homem, com aquele rapaz de rosto doce e ar de bom moço.
Aos 18 anos, já freqüentando a redação de A Província do Pará o sentimento deu um salto. Além do homem lindo descobri o poeta, aquele que melhor conseguia traduzir o que nós, jovens dessa geração, vivíamos: medo, rebeldia, insatisfação, impotência e uma vontade louca de provocar mudanças.
Nunca mais parei de acompanhá-lo e ele nunca mais me deixou e à medida que fui amadurecendo ele foi também mudando. Saí da Construção e passei por Cálice que sabia censurada, mas não conhecia; Tatuagem, que até hoje me arrepia; Olhos nos Olhos, Feijoada Completa, Geni e o Zeppelin até hoje rejeitada pelos falsos moralistas; O Meu Amor que queria ter escrito pra alguém.
Momentos e muitas pessoas me são trazidas de volta à memória através do Chico. Como a Sula, amiga com quem dividi apartamento e acompanhei de perto a gravidez e primeiros anos do seu filho e que não suporta ouvir Vai Passar. Estava grávida do Ivan, período de enjôo que eu tornei mais difícil de tanto ouvir a fita cassete que me fora presenteada por outro amigão, o Marcos Magalhães, trazida especialmente pra mim do Rio de Janeiro. Naquela época não se falava em pirataria...
Meu casamento informal com o Manoel depois de 11 anos de casamento de verdade, na capela da praia do Chapéu Virado em Mosqueiro teve como fundo musical apenas músicas do Chico e na entrada, ao contrário da marcha nupcial, eu e meu tio Jaime percorremos aquele interminável corredor ao som de Eu te Amo : “ahh se já perdemos a noção da hora, se juntos já jogamos fora, me conta agora como hei de partir...”.
Tem ainda Iolanda cantada em parceria com o Pablo Milanez. Parte em Português e parte em Espanhol. Lembranças... doces lembranças ...Ou as que a Anaterra já dançou tantas vezes quando ainda era tão pequena como “Os Saltimbancos”.
Gosto de tudo o que ele faz, mesmo tentando ser imparcial. Li os livros (Estorvo, Budapeste, agora o Leite Derramado...) e me delicio quando me proponho a ouvir aquelas músicas que não são as mais conhecidas, mas que me embalam em doces sentimentos, me levam a refletir sobre a vida, sobre as emoções que ele ou alguém de seu imaginário vivenciou.
Sozinha, no mais absoluto silêncio me perco no jogo de palavras e confusos encontros e desencontros da vida em canções tão fortes, tão profundas e tão maravilhosamente belas como Não Sonho Mais (dele e de Francis Hime), Você vai me seguir, com Ruy Guerra; Funeral de um Lavrador com João Cabral; Mar e Lua; A Mulher de Cada Porto e Beatriz, ambos com Edu Lobo. Ahh.. são tantas... tantas...
Os que foram à festinha dos meus 50 anos sabem muito bem o quanto essa pessoa que não me conhece (e talvez nunca venha a me conhecer) é tão importante para mim. Tudo lembrava o Chico: o bolo com a belíssima caricatura, presente do Sérgio Bastos; a música na voz do Alexandre Souza e a platéia de grandes amigos, todos admirados dele, entoando solenemente suas canções.
Meus filhos foram embalados por suas músicas. Substitui as canções de ninar pela obra do Chico mesmo que elas tivessem refrões como “joga bosta na Geni” ou “saudade é o revés do parto. Saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu”. Hoje conhecem e até gostam dele como poucos adolescentes.
Quando estivemos no Rio de Janeiro em abril passado, além da programação típica de turista, eu, Anaterra e a minha sobrinha Ana Júlia fomos ver a peça “Meu Caro Amigo” com a atriz Kelzi Ecard. Vi a programação pela Net do que estava em cartaz e a mais próxima do Chico era essa. Um domingo de decisão entre Botafogo e Flamengo, mas assim mesmo o Teatro Leblon estava repleto.
Vi, chorei, me encantei com o monólogo musical que conta a história de uma professora de História do Brasil, cinquentona, que tem a sua vida ciceroneada pelo Chico. Kelzi dá um show. Parece ser ela a Norma e não um personagem. Depois que ela deixou o teatro me aproximei meio tiete e contei que era uma Norma também. Simpática conversou, comentou sobre a peça, autores e quando eu disse que morava em São Carlos falou que havia previsão de apresentação na cidade. Trocamos e-mail e no último domingo de novo fui ver, através da impecável interpretação da Kelzi, o Chico personificado em um ser único, que transforma, que acrescenta, que faz pensar e nos deixa estarrecidos ou revoltados. Nos faz acreditar mais e mais no amor ou a odiar qualquer paixão e acima de tudo desnuda nossa alma feminina com tanta naturalidade que mesmo expostas no mais íntimo de nosso ser, o perdoamos. É assim que me sinto quando sem pudor, diz :
O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
De me fazer rodeios
De me beijar os seios
Me beijar o ventre (sexo)
E me deixar em brasa
Desfrutar do meu corpo
Como se o meu corpo fosse a sua casa, ai
Só não sei exatamente quando essa relação unilateral começou, mas tenho uma cena bem nítida em minha memória. Anos 70, talvez 1971, eu com 13, 14 anos e encontro entre tantos discos na casa da minha tia Jorgete um do Chico. Não sabia quem ele era, apenas fiquei maravilhada com os seus belos olhos verdes e todas as vezes que ia na casa dela dava um jeitinho de ouvir Construção, Cotidiano ou sei mais o quê. Mas ainda mais encantada com o homem, com aquele rapaz de rosto doce e ar de bom moço.
Aos 18 anos, já freqüentando a redação de A Província do Pará o sentimento deu um salto. Além do homem lindo descobri o poeta, aquele que melhor conseguia traduzir o que nós, jovens dessa geração, vivíamos: medo, rebeldia, insatisfação, impotência e uma vontade louca de provocar mudanças.
Nunca mais parei de acompanhá-lo e ele nunca mais me deixou e à medida que fui amadurecendo ele foi também mudando. Saí da Construção e passei por Cálice que sabia censurada, mas não conhecia; Tatuagem, que até hoje me arrepia; Olhos nos Olhos, Feijoada Completa, Geni e o Zeppelin até hoje rejeitada pelos falsos moralistas; O Meu Amor que queria ter escrito pra alguém.
Momentos e muitas pessoas me são trazidas de volta à memória através do Chico. Como a Sula, amiga com quem dividi apartamento e acompanhei de perto a gravidez e primeiros anos do seu filho e que não suporta ouvir Vai Passar. Estava grávida do Ivan, período de enjôo que eu tornei mais difícil de tanto ouvir a fita cassete que me fora presenteada por outro amigão, o Marcos Magalhães, trazida especialmente pra mim do Rio de Janeiro. Naquela época não se falava em pirataria...
Meu casamento informal com o Manoel depois de 11 anos de casamento de verdade, na capela da praia do Chapéu Virado em Mosqueiro teve como fundo musical apenas músicas do Chico e na entrada, ao contrário da marcha nupcial, eu e meu tio Jaime percorremos aquele interminável corredor ao som de Eu te Amo : “ahh se já perdemos a noção da hora, se juntos já jogamos fora, me conta agora como hei de partir...”.
Tem ainda Iolanda cantada em parceria com o Pablo Milanez. Parte em Português e parte em Espanhol. Lembranças... doces lembranças ...Ou as que a Anaterra já dançou tantas vezes quando ainda era tão pequena como “Os Saltimbancos”.
Gosto de tudo o que ele faz, mesmo tentando ser imparcial. Li os livros (Estorvo, Budapeste, agora o Leite Derramado...) e me delicio quando me proponho a ouvir aquelas músicas que não são as mais conhecidas, mas que me embalam em doces sentimentos, me levam a refletir sobre a vida, sobre as emoções que ele ou alguém de seu imaginário vivenciou.
Sozinha, no mais absoluto silêncio me perco no jogo de palavras e confusos encontros e desencontros da vida em canções tão fortes, tão profundas e tão maravilhosamente belas como Não Sonho Mais (dele e de Francis Hime), Você vai me seguir, com Ruy Guerra; Funeral de um Lavrador com João Cabral; Mar e Lua; A Mulher de Cada Porto e Beatriz, ambos com Edu Lobo. Ahh.. são tantas... tantas...
Os que foram à festinha dos meus 50 anos sabem muito bem o quanto essa pessoa que não me conhece (e talvez nunca venha a me conhecer) é tão importante para mim. Tudo lembrava o Chico: o bolo com a belíssima caricatura, presente do Sérgio Bastos; a música na voz do Alexandre Souza e a platéia de grandes amigos, todos admirados dele, entoando solenemente suas canções.
Meus filhos foram embalados por suas músicas. Substitui as canções de ninar pela obra do Chico mesmo que elas tivessem refrões como “joga bosta na Geni” ou “saudade é o revés do parto. Saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu”. Hoje conhecem e até gostam dele como poucos adolescentes.
Quando estivemos no Rio de Janeiro em abril passado, além da programação típica de turista, eu, Anaterra e a minha sobrinha Ana Júlia fomos ver a peça “Meu Caro Amigo” com a atriz Kelzi Ecard. Vi a programação pela Net do que estava em cartaz e a mais próxima do Chico era essa. Um domingo de decisão entre Botafogo e Flamengo, mas assim mesmo o Teatro Leblon estava repleto.
Vi, chorei, me encantei com o monólogo musical que conta a história de uma professora de História do Brasil, cinquentona, que tem a sua vida ciceroneada pelo Chico. Kelzi dá um show. Parece ser ela a Norma e não um personagem. Depois que ela deixou o teatro me aproximei meio tiete e contei que era uma Norma também. Simpática conversou, comentou sobre a peça, autores e quando eu disse que morava em São Carlos falou que havia previsão de apresentação na cidade. Trocamos e-mail e no último domingo de novo fui ver, através da impecável interpretação da Kelzi, o Chico personificado em um ser único, que transforma, que acrescenta, que faz pensar e nos deixa estarrecidos ou revoltados. Nos faz acreditar mais e mais no amor ou a odiar qualquer paixão e acima de tudo desnuda nossa alma feminina com tanta naturalidade que mesmo expostas no mais íntimo de nosso ser, o perdoamos. É assim que me sinto quando sem pudor, diz :
O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
De me fazer rodeios
De me beijar os seios
Me beijar o ventre (sexo)
E me deixar em brasa
Desfrutar do meu corpo
Como se o meu corpo fosse a sua casa, ai
sexta-feira, 12 de junho de 2009
Dia dos Namorados inusitado
Datas são sempre datas. Mesmo que sejam quase sempre comerciais, acabam permitindo que a gente grave com mais fidelidade o que vivenciamos nesse mesmo dia no ano anterior, no outro, no outro...e o Dia dos Namorados não é diferente. Uma data muito simbólica pra mim.
Gosto desse clima de surpresa, de presentear, de ficar na expectativa pelo presente que vai chegar. Mesmo casada durante anos, eu e o Manoel mantivemos por longos anos esse clima e nunca nem um ou outro ficou sem uma lembrancinha. Lembro da última, no ano passado, no Hospital AC Camargo. O Pedro, irmão dele, foi o encarregado de comprar o meu presente. Como o hospital fica no bairro da Liberdade, ganhei dois bonequinhos da sorte japoneses. Pequeninos, frágeis e bonitos. Estão na sala agora. Eu antecipei o meu. Dei a ele uma nécessaire com tesourinha, barbeador e outros apetrechos masculinos. Não pensara, ao comprar, que ele usaria no hospital, mas que seria muito útil nas viagens que estavam programadas dentro de sua nova função na Embrapa. Pela primeira vez iria exercer a profissão de engenheiro civil em sua plenitude. Não deu tempo...
Este tem sido o mês das grandes lembranças. Talvez dia 2 de agosto elas se reduzam. Há um ano eu e a Anaterra deixamos Belém em busca não sei exatamente do que. O que nos movia era apenas a necessidade de ficar ao lado do Manoel e de partir em busca de um tratamento mais digno e eficiente pra mim. Relembro cada situação. Da mais feliz (como a certeza de que a Déa, irmã dele, era doadora compatível) com as mais tristes, mais difíceis, mais dolorosas. O que mais me perturba é que sinto tudo isso como se estivesse tão longe, como se eu não fosse também a protagonista dessa história.
Hoje não há namorado, nem amante, nem marido. Só lembranças. Não apenas do Manoel, mas de todos os que foram importante em minha vida e que deixaram marcas profundas em um dia dos namorados qualquer há tantos anos.
Talvez um dia queira de novo me enamorar. Não é casar !! Não... isso não. A experiência foi boa, mas não quero repeti-la. O que me encanta é o apaixonar-se de fato. O frio na barriga no telefonema surpresa, o prazer de estar ao lado, passear, fazer planos com alguém que de fato te queira, o perder o olhar no vazio e ficar com aquela cara de bobo como se fosse o único ser do planeta a sentir esse aperto no peito e o suor nas mãos.
Não darei nem ganharei presentes (algo inusitado há mais de duas décadas). Mas talvez compre um belo casaco pra mim e me presenteie. Afinal, o frio aqui em São Carlos não para nunca e eu mereço !
Gosto desse clima de surpresa, de presentear, de ficar na expectativa pelo presente que vai chegar. Mesmo casada durante anos, eu e o Manoel mantivemos por longos anos esse clima e nunca nem um ou outro ficou sem uma lembrancinha. Lembro da última, no ano passado, no Hospital AC Camargo. O Pedro, irmão dele, foi o encarregado de comprar o meu presente. Como o hospital fica no bairro da Liberdade, ganhei dois bonequinhos da sorte japoneses. Pequeninos, frágeis e bonitos. Estão na sala agora. Eu antecipei o meu. Dei a ele uma nécessaire com tesourinha, barbeador e outros apetrechos masculinos. Não pensara, ao comprar, que ele usaria no hospital, mas que seria muito útil nas viagens que estavam programadas dentro de sua nova função na Embrapa. Pela primeira vez iria exercer a profissão de engenheiro civil em sua plenitude. Não deu tempo...
Este tem sido o mês das grandes lembranças. Talvez dia 2 de agosto elas se reduzam. Há um ano eu e a Anaterra deixamos Belém em busca não sei exatamente do que. O que nos movia era apenas a necessidade de ficar ao lado do Manoel e de partir em busca de um tratamento mais digno e eficiente pra mim. Relembro cada situação. Da mais feliz (como a certeza de que a Déa, irmã dele, era doadora compatível) com as mais tristes, mais difíceis, mais dolorosas. O que mais me perturba é que sinto tudo isso como se estivesse tão longe, como se eu não fosse também a protagonista dessa história.
Hoje não há namorado, nem amante, nem marido. Só lembranças. Não apenas do Manoel, mas de todos os que foram importante em minha vida e que deixaram marcas profundas em um dia dos namorados qualquer há tantos anos.
Talvez um dia queira de novo me enamorar. Não é casar !! Não... isso não. A experiência foi boa, mas não quero repeti-la. O que me encanta é o apaixonar-se de fato. O frio na barriga no telefonema surpresa, o prazer de estar ao lado, passear, fazer planos com alguém que de fato te queira, o perder o olhar no vazio e ficar com aquela cara de bobo como se fosse o único ser do planeta a sentir esse aperto no peito e o suor nas mãos.
Não darei nem ganharei presentes (algo inusitado há mais de duas décadas). Mas talvez compre um belo casaco pra mim e me presenteie. Afinal, o frio aqui em São Carlos não para nunca e eu mereço !
sexta-feira, 22 de maio de 2009
Os aniversários e a aniversariante
5.2 ! Uma idade que quando eu era jovem (l[a pelos 20, 25) achava que seria uma velha, que arrastaria os p[es e andaria de robe do Ceará durante o dia inteiro. Sentada em uma cadeira de balanço bordando ou fazendo crochê ou no máximo uma palavras cruzadas ou lendo um bom livro!
Preciso de um espelho pra contar as rugas, olhar com um olhar crítico as mãos já cheias de dobrinhas e machas senis ou, depois de trabalhar e ir ao supermercado, me sentir muito cansada para ter a certeza de que o tempo correu, de que de fato estou envelhecendo.
Envelhecendo, mas como ? estou cheias de planos, olhando para o futuro e isso é envelhecer ? Quero desafios para produzir adrenalina, como dirigir em São Carlos. A colega Mônica, da Embrapa, até comprou um livro tentando me ajudar (Vença o medo de dirigir). Estou confiante !! Quero produzir muitos textos ainda, dar palestras, realizar, fazer, vibra. Ficar velha é isso ?
Ontem revivi com muita intensidade diversas passagens da minha vida. Os aniversários são sempre meio deprê, principalmente esse. Há dois anos estava atarefadíssima organizando a deliciosa festa dos meus 50 anos com o Chico Buarque. Tudo perfeito: amigos chope à vontade e muita música do Chico com o Alexandre Souza. Não havia nenhuma indicação de câncer de mama ou leucemia. Só planos ...
No ano passado já não havia tanta alegria. Eu me refazia de duas cirurgias e o Manoel já estava no A C Camargo. Mas havia esperança, acreditávamos na cura.
E agora estou aqui. Não estou triste, mas apenas saudosa. Uma cidade diferente, ainda com tantos lugares desconhecidos e surpreendentes; colegas que tornaram meu dia ontem especial, se esmerando em carinhos e atenções. A Jaqueline trouxe uma cesta de lindas flores; a Mônica o livro, o Valentim e a esposa Socorro uma planta linda que não conhecia: a flor de maio que deverá ser plantada em um vaso grande e crescer... crescer... como me adiantaram.
A Anaterra também quis me homenagear de forma especial. Comprou (certamente com o meu dinheiro !) um belo buquê de rosas brancas e mandou entregá-lo na Embrapa com uma cartão carinhoso e cheio de amor.
Tem ainda os telefonemas (os irmãos, a Ieda, Consuelo, Célio Melo...), as mensagens (não correrei o risco de enumerá-las) e à noite, ao deitar tão cedo, a certeza de que estou viva e que mesmo com tantos atropelos, a vida é linda e tem que ser comemorada a cada minuto, a cada dia antes que se vá.
Não ter o Raul do meu lado também doeu. Ou talvez é o que tenha doído mais. Foi a primeira vez, desde que ele nasceu que não acordamos e dormimos juntos dia 21 de maio, embora eu soubesse que isso mais cedo ou mais aconteceria. Como disse meu analista: ele já está terceirizado. Falo com ele diariamente, é doce, meigo e todo final de semana está em casa. Poderia ser pior se fosse mais distante. Ao mesmo tempo em que sinto falta dele, do único homem hoje em minha vida, fico orgulhosa e tranqüila ao constatar que ele já sobreviverá, sem grandes problemas, na minha ausência. Queria que o tempo corresse e isso tudo se repetisse com a Anaterra.
Sim.. porque nesse emaranhado de emoções às vezes paradoxais, volta o medo da recidiva, da metástase. Tenho sentido, desde que cheguei de Belém, fortes dores na mama onde havia o nódulo. Arde, dá pontada e incomoda. Preciso ir ver o que é. Voltar a Campinas e antecipar os exames marcados para julho. Tenho que ser forte, não pensar demais, mas não pensar é impossível.
Mas isso é só na próxima semana. Agora estou me preparando mesmo para tomar um cerveja à noite com algumas pessoas especiais que encontrei aqui. Irão degustar (alguns pela primeira vez), cariru, pernil no tucupi, arroz de marisco com caranguejo de Belém e de sobremesa creme de bacuri. Quero ouvir música, rir, conversar com a Fabiana, Jaqueline, Mônica, Beth, Sandra, Valentim, Socorro, Clayton, Thaís e os colegas da Anaterra e quem sabe até do Raul que podem vir de Ribeirão esta noite. A probabilidade da colega de longa data, da Embrapa de Manaus, Sumara também vir de Campinas onde faz mestrado, especialmente para esse encontro, está me deixando mais ansiosa ainda...
Há de ser um momento bom, mesmo com tanta saudade do que já tive e não tenho mais e do que tenho, mas está tão distante.
Preciso de um espelho pra contar as rugas, olhar com um olhar crítico as mãos já cheias de dobrinhas e machas senis ou, depois de trabalhar e ir ao supermercado, me sentir muito cansada para ter a certeza de que o tempo correu, de que de fato estou envelhecendo.
Envelhecendo, mas como ? estou cheias de planos, olhando para o futuro e isso é envelhecer ? Quero desafios para produzir adrenalina, como dirigir em São Carlos. A colega Mônica, da Embrapa, até comprou um livro tentando me ajudar (Vença o medo de dirigir). Estou confiante !! Quero produzir muitos textos ainda, dar palestras, realizar, fazer, vibra. Ficar velha é isso ?
Ontem revivi com muita intensidade diversas passagens da minha vida. Os aniversários são sempre meio deprê, principalmente esse. Há dois anos estava atarefadíssima organizando a deliciosa festa dos meus 50 anos com o Chico Buarque. Tudo perfeito: amigos chope à vontade e muita música do Chico com o Alexandre Souza. Não havia nenhuma indicação de câncer de mama ou leucemia. Só planos ...
No ano passado já não havia tanta alegria. Eu me refazia de duas cirurgias e o Manoel já estava no A C Camargo. Mas havia esperança, acreditávamos na cura.
E agora estou aqui. Não estou triste, mas apenas saudosa. Uma cidade diferente, ainda com tantos lugares desconhecidos e surpreendentes; colegas que tornaram meu dia ontem especial, se esmerando em carinhos e atenções. A Jaqueline trouxe uma cesta de lindas flores; a Mônica o livro, o Valentim e a esposa Socorro uma planta linda que não conhecia: a flor de maio que deverá ser plantada em um vaso grande e crescer... crescer... como me adiantaram.
A Anaterra também quis me homenagear de forma especial. Comprou (certamente com o meu dinheiro !) um belo buquê de rosas brancas e mandou entregá-lo na Embrapa com uma cartão carinhoso e cheio de amor.
Tem ainda os telefonemas (os irmãos, a Ieda, Consuelo, Célio Melo...), as mensagens (não correrei o risco de enumerá-las) e à noite, ao deitar tão cedo, a certeza de que estou viva e que mesmo com tantos atropelos, a vida é linda e tem que ser comemorada a cada minuto, a cada dia antes que se vá.
Não ter o Raul do meu lado também doeu. Ou talvez é o que tenha doído mais. Foi a primeira vez, desde que ele nasceu que não acordamos e dormimos juntos dia 21 de maio, embora eu soubesse que isso mais cedo ou mais aconteceria. Como disse meu analista: ele já está terceirizado. Falo com ele diariamente, é doce, meigo e todo final de semana está em casa. Poderia ser pior se fosse mais distante. Ao mesmo tempo em que sinto falta dele, do único homem hoje em minha vida, fico orgulhosa e tranqüila ao constatar que ele já sobreviverá, sem grandes problemas, na minha ausência. Queria que o tempo corresse e isso tudo se repetisse com a Anaterra.
Sim.. porque nesse emaranhado de emoções às vezes paradoxais, volta o medo da recidiva, da metástase. Tenho sentido, desde que cheguei de Belém, fortes dores na mama onde havia o nódulo. Arde, dá pontada e incomoda. Preciso ir ver o que é. Voltar a Campinas e antecipar os exames marcados para julho. Tenho que ser forte, não pensar demais, mas não pensar é impossível.
Mas isso é só na próxima semana. Agora estou me preparando mesmo para tomar um cerveja à noite com algumas pessoas especiais que encontrei aqui. Irão degustar (alguns pela primeira vez), cariru, pernil no tucupi, arroz de marisco com caranguejo de Belém e de sobremesa creme de bacuri. Quero ouvir música, rir, conversar com a Fabiana, Jaqueline, Mônica, Beth, Sandra, Valentim, Socorro, Clayton, Thaís e os colegas da Anaterra e quem sabe até do Raul que podem vir de Ribeirão esta noite. A probabilidade da colega de longa data, da Embrapa de Manaus, Sumara também vir de Campinas onde faz mestrado, especialmente para esse encontro, está me deixando mais ansiosa ainda...
Há de ser um momento bom, mesmo com tanta saudade do que já tive e não tenho mais e do que tenho, mas está tão distante.
sexta-feira, 15 de maio de 2009
Rio... Belém..Brasília ... São Carlos ...
Tanto tempo sem vir aqui escrever, sem registrar esse novo mundo que se mostra novo a cada dia novo. Muitos amigos, principalmente os que mantenho contato apenas pela Net, sempre cobram as novidades, as notícias, mas não está sendo fácil parar. O que para mim é um bom sinal.
Os últimos 20 dias foram muito intensos. Exatamente do jeito que eu gosto, do jeito que eu sou, mesmo que me sinta muito cansada ao anoitecer. Deve ser a idade, a saúde, a disposição que aos poucos vai se esvaindo.
No feriado de 21 de abril fomos ao Rio de Janeiro. Há muito tempo queria “apresentar” aquela cidade linda aos meus filhos. Sinto uma energia diferente quando chego lá. É como se lá fosse meu chão também. O jeito de ser do carioca me apaixona. Pessoas que desfilam pelos calçadões sem preconceitos, sem tentar esconder o corpo obeso, repleto de celulite, envelhecidos ou com a barriga de chope tão pronunciada. Todos parecem se sentir belos, felizes, bem resolvidos.
É claro que estou me referindo aos cariocas da zona Sul, classe média, que vivem entre a Barra e o Flamengo, já que paralelamente à beleza incomparável do Pão de Açúcar, da Urca ou do Arpoador, tem as favelas, os crimes, os assaltos, as balas perdidas.
Raul, Anaterra e a sobrinha-afilhada Ana Júlia com todo o entusiasmo da juventude me proporcionaram a oportunidade de ver o Rio de uma maneira que há muito não conseguia: a beleza aliada à modernidade; a natureza esbanjando charme e os homens sarados ou não e as mulheres nem tão lindas lhe homenageando com o belo bronzeado, com as poucas roupas.
A mamãe foi um capítulo à parte. Levá-la ao Rio de Janeiro era um desejo pessoal antigo. Quase uma obrigação. Queria que ela voltasse àquele ambiente que um dia foi obrigada a abandonar quase como retirante há mais de 40 anos e com três filhos pequenos. Um dos desastres mais marcantes do fim de seu casamento. O retorno foi de fato triunfal. Mesmo com suas poucas palavras, era perceptível a alegria de ali estar em uma outra situação. Dignamente em um hotelzinho no Flamengo, passeando como turista no bondinho do Pão de Açúcar ou no calçadão de Copacabana. Sua noção de localização a deixou superior a todos nós e teve a oportunidade de falar para os netos sobre algo que ela sabe bem mais do que eles.
Passeamos, rimos, descobrimos uma casa que vendia um tacacá maravilhoso e um açaí puro e fresco e matamos ainda a saudade de nossa terra. Fui ainda me emocionar, junto com a Anaterra e Ana Júlia, no teatro Leblon vendo “Caro Amigos”, uma homenagem ao Chico Buarque de Holanda. Uma peça que poderia ter sido escrita por mim, se tivesse esse dom: uma cinquentona que teve grande parte da sua vida dividida com o Chico mesmo que ele nunca tenha tomado conhecimento. Uma apaixonada pela sua obra, mas também pelos seus olhos. Uma desvairada pelo gênio da MPB.
Voltei renovada para São Carlos e com aquela certeza deliciosa de que agora estou bem mais perto do Rio de Janeiro, de Curitiba, de Belo Horizonte e de tantas outras belas cidades. Algumas (ou mesmo muitas) horas me separam desses lugares em ônibus confortáveis, seguros, em estradas sem buracos e com poucas possibilidades de assalto. Inevitavelmente comparo com Belém, o Pará e a Amazônia em geral. Ao mesmo tempo em que sinto saudade do meu povo de pele morena e sotaque carregado nos sss, fico indignada com tanta diferença, com tanto descaso com aquela região. É preciso abandoná-la pra entendê-la.
BELÉM
Uma semana em São Carlos e de novo arrumar malas. Agora para bem longe, me olhar no espelho das recordações, reencontrar o meu mais íntimo ser, sorrir, chorar, me emocionar.
São Carlos – Belém representa um grande e cansativo deslocamento. Primeiro é preciso chegar a Campinas (duas horas de ônibus), depois mais 1h 20 min de avião de Campinas a Brasília. Em seguida mais 2h 20min de Brasília a Belém e finalmente o aeroporto de Val-de-Cans e amiga Ieda Jucá em companhia do queridíssimo Neiro me aguardando. Optei por ficar lá com ela. Gosto de conversar com a Ieda. É objetiva, amiga, clara, doce quando tem que ser, rígida quando necessário e o filho André, com seu ar de lord herdado do pai me parecia o ambiente ideal para ficar frente à frente com tanta coisa que sabia apenas adormecida.
Vários motivos me levaram a essa viagem: finalização da monografia do curso de pós em Comunicação na Unama que nunca chegava ao fim; obtenção do documento que comprove o período que trabalhei na assessoria de imprensa do Prefeito de Belém e dessa forma agilizar a minha aposentadoria; participar da cerimônia em comemoração aos 70 anos da presença da pesquisa agropecuária na Amazônia e acima de tudo me abastecer de amigos, de carinho, de abraços apertados, de bons papos.
Consegui fazer tudo, inclusive comer piquiá com farinha torradinha na casa da Ieda; almoçar caranguejo toc-toc com a minha irmã Ruthlene, minha tia Jorgete, a sobrinha Thaís, o sobrinho Filipe, o sobrinho-neto Thomas e o sobrinho-torto Rafael. Caranguejo com molho de tucupi, pimenta de cheiro e farinha... Tudo de bom...
Rever esses parentes que deixamos lá atrás sempre nos faz relembrar momentos, repensar nas mudanças radicais que a vida nos impôs, avaliar sentimentos e acreditar que nada acontece por acaso. Em algum lugar estava escrito que teria que ser assim. A Ruthlene é a mais fragilizada. Sentiu mais a ausência de todos nós, mas tem os filhos, o neto e a vida anda, prossegue, se reestrutura mesmo contra a nossa vontade.
Ir à Embrapa Amazônia Oriental e lá permanecer por dois dias consecutivos foi uma prova de fogo. Ao mesmo tempo que revi pessoas queridas e que foram tão importantes na minha vida, afinal fiquei ali por mais de 24 anos, remontei cenários, momentos que variaram da juventude inconseqüente ao namoro, casamento, nascimento e infância dos filhos. Percebi/senti o Manoel em diversos momentos, mas sobretudo no auditório intimamente chamado de “Ferradura” onde ele circulava muito, sempre atento às necessidades dos chefes. Inevitável as lágrimas, incontrolável a saudade. Ainda é muito complicado pra mim aceitar que tudo permanece aparentemente igual, mas ele não está mais entre nós, não ocupará mais a sua sala, não atenderá com aquela voz raivosa de quem não suporta ser interrompido.
Estive rapidamente em Canudos. “Nossa” casa está lá, suja, com ar de abandono, mas com o mesmo pinheiro na frente. Que sensações absurdas ...
Um encontro organizado pela querida e sempre fiel Consuelo, reuniu um grande número de amigos na Estação da Doca. Não vou nominá-los com receio de esquecer algum, o que seria imperdoável, afinal me permitiram rir, relembrar, esquecer algumas situações que prefiro não lembrar.
Os abraços apertados continuaram se multiplicando nos encontros com a Márcia, Sérgio e Brena no Pátio Shopping Belém – que para todos na cidade continua sendo o Iguatemi ; na casa do Célio Melo e Lúcia, sempre tão amáveis e amigos; no encontro inusitado no meio da rua com a Bia e a filha Thaís que depois me mandou um belíssimo e exclusivo presente: uma blusa de seda com um desenho delicado do Ver-O-Peso. Linda !! Linda !! Linda !!
Uma parada de algumas horas no aeroporto de Brasília e sou de novo presenteada: agora com papos gostosos, alegres e muito íntimos com a Renata Menezes. No carrinho a mala e os 40 kg de excesso: açaí (muitos litros!), jambu, camarão, tucupi, polpa de cupuaçu, de bacuri, sorvete de uxi (pedido da Anaterra), 100 bombons de castanha e cupuaçu, pupunha, farinha (muitos litros!) e mais um monte de outras coisas tipicamente belemenses...
A volta foi demorada e cansativa e confesso, com uma certa dose de estar traindo a mim mesma, que já estava sentindo falta da calma de São Carlos, das ruas limpas, da ausência de nossa “gente humilde” que pede, caminha cabisbaixa com a cara sofrida ou rouba. Em Belém a “sensação de insegurança” é enorme. Todos abraçam suas bolsas, evitam andar com as janelas dos carros abertos, nas entradas dos edifícios segurança dobrada e temem a aproximação de alguém quando caminham pelas ruas. Bem diferente do que presenciamos em São Carlos...
Sinto muita saudade, mas muita revolta também que ficou mais aguda quando, da sacada do apartamento da amiga Ieda, via todas as manhãs as enormes filas de doentes ou seus parentes, na chuva ou no sol, buscando uma consulta no Hospital Ophir Loyola...
Bem... mas isso merece uma inserção específica, um relato maior que já enviei ao Lúcio Flávio Pinto.
Os últimos 20 dias foram muito intensos. Exatamente do jeito que eu gosto, do jeito que eu sou, mesmo que me sinta muito cansada ao anoitecer. Deve ser a idade, a saúde, a disposição que aos poucos vai se esvaindo.
No feriado de 21 de abril fomos ao Rio de Janeiro. Há muito tempo queria “apresentar” aquela cidade linda aos meus filhos. Sinto uma energia diferente quando chego lá. É como se lá fosse meu chão também. O jeito de ser do carioca me apaixona. Pessoas que desfilam pelos calçadões sem preconceitos, sem tentar esconder o corpo obeso, repleto de celulite, envelhecidos ou com a barriga de chope tão pronunciada. Todos parecem se sentir belos, felizes, bem resolvidos.
É claro que estou me referindo aos cariocas da zona Sul, classe média, que vivem entre a Barra e o Flamengo, já que paralelamente à beleza incomparável do Pão de Açúcar, da Urca ou do Arpoador, tem as favelas, os crimes, os assaltos, as balas perdidas.
Raul, Anaterra e a sobrinha-afilhada Ana Júlia com todo o entusiasmo da juventude me proporcionaram a oportunidade de ver o Rio de uma maneira que há muito não conseguia: a beleza aliada à modernidade; a natureza esbanjando charme e os homens sarados ou não e as mulheres nem tão lindas lhe homenageando com o belo bronzeado, com as poucas roupas.
A mamãe foi um capítulo à parte. Levá-la ao Rio de Janeiro era um desejo pessoal antigo. Quase uma obrigação. Queria que ela voltasse àquele ambiente que um dia foi obrigada a abandonar quase como retirante há mais de 40 anos e com três filhos pequenos. Um dos desastres mais marcantes do fim de seu casamento. O retorno foi de fato triunfal. Mesmo com suas poucas palavras, era perceptível a alegria de ali estar em uma outra situação. Dignamente em um hotelzinho no Flamengo, passeando como turista no bondinho do Pão de Açúcar ou no calçadão de Copacabana. Sua noção de localização a deixou superior a todos nós e teve a oportunidade de falar para os netos sobre algo que ela sabe bem mais do que eles.
Passeamos, rimos, descobrimos uma casa que vendia um tacacá maravilhoso e um açaí puro e fresco e matamos ainda a saudade de nossa terra. Fui ainda me emocionar, junto com a Anaterra e Ana Júlia, no teatro Leblon vendo “Caro Amigos”, uma homenagem ao Chico Buarque de Holanda. Uma peça que poderia ter sido escrita por mim, se tivesse esse dom: uma cinquentona que teve grande parte da sua vida dividida com o Chico mesmo que ele nunca tenha tomado conhecimento. Uma apaixonada pela sua obra, mas também pelos seus olhos. Uma desvairada pelo gênio da MPB.
Voltei renovada para São Carlos e com aquela certeza deliciosa de que agora estou bem mais perto do Rio de Janeiro, de Curitiba, de Belo Horizonte e de tantas outras belas cidades. Algumas (ou mesmo muitas) horas me separam desses lugares em ônibus confortáveis, seguros, em estradas sem buracos e com poucas possibilidades de assalto. Inevitavelmente comparo com Belém, o Pará e a Amazônia em geral. Ao mesmo tempo em que sinto saudade do meu povo de pele morena e sotaque carregado nos sss, fico indignada com tanta diferença, com tanto descaso com aquela região. É preciso abandoná-la pra entendê-la.
BELÉM
Uma semana em São Carlos e de novo arrumar malas. Agora para bem longe, me olhar no espelho das recordações, reencontrar o meu mais íntimo ser, sorrir, chorar, me emocionar.
São Carlos – Belém representa um grande e cansativo deslocamento. Primeiro é preciso chegar a Campinas (duas horas de ônibus), depois mais 1h 20 min de avião de Campinas a Brasília. Em seguida mais 2h 20min de Brasília a Belém e finalmente o aeroporto de Val-de-Cans e amiga Ieda Jucá em companhia do queridíssimo Neiro me aguardando. Optei por ficar lá com ela. Gosto de conversar com a Ieda. É objetiva, amiga, clara, doce quando tem que ser, rígida quando necessário e o filho André, com seu ar de lord herdado do pai me parecia o ambiente ideal para ficar frente à frente com tanta coisa que sabia apenas adormecida.
Vários motivos me levaram a essa viagem: finalização da monografia do curso de pós em Comunicação na Unama que nunca chegava ao fim; obtenção do documento que comprove o período que trabalhei na assessoria de imprensa do Prefeito de Belém e dessa forma agilizar a minha aposentadoria; participar da cerimônia em comemoração aos 70 anos da presença da pesquisa agropecuária na Amazônia e acima de tudo me abastecer de amigos, de carinho, de abraços apertados, de bons papos.
Consegui fazer tudo, inclusive comer piquiá com farinha torradinha na casa da Ieda; almoçar caranguejo toc-toc com a minha irmã Ruthlene, minha tia Jorgete, a sobrinha Thaís, o sobrinho Filipe, o sobrinho-neto Thomas e o sobrinho-torto Rafael. Caranguejo com molho de tucupi, pimenta de cheiro e farinha... Tudo de bom...
Rever esses parentes que deixamos lá atrás sempre nos faz relembrar momentos, repensar nas mudanças radicais que a vida nos impôs, avaliar sentimentos e acreditar que nada acontece por acaso. Em algum lugar estava escrito que teria que ser assim. A Ruthlene é a mais fragilizada. Sentiu mais a ausência de todos nós, mas tem os filhos, o neto e a vida anda, prossegue, se reestrutura mesmo contra a nossa vontade.
Ir à Embrapa Amazônia Oriental e lá permanecer por dois dias consecutivos foi uma prova de fogo. Ao mesmo tempo que revi pessoas queridas e que foram tão importantes na minha vida, afinal fiquei ali por mais de 24 anos, remontei cenários, momentos que variaram da juventude inconseqüente ao namoro, casamento, nascimento e infância dos filhos. Percebi/senti o Manoel em diversos momentos, mas sobretudo no auditório intimamente chamado de “Ferradura” onde ele circulava muito, sempre atento às necessidades dos chefes. Inevitável as lágrimas, incontrolável a saudade. Ainda é muito complicado pra mim aceitar que tudo permanece aparentemente igual, mas ele não está mais entre nós, não ocupará mais a sua sala, não atenderá com aquela voz raivosa de quem não suporta ser interrompido.
Estive rapidamente em Canudos. “Nossa” casa está lá, suja, com ar de abandono, mas com o mesmo pinheiro na frente. Que sensações absurdas ...
Um encontro organizado pela querida e sempre fiel Consuelo, reuniu um grande número de amigos na Estação da Doca. Não vou nominá-los com receio de esquecer algum, o que seria imperdoável, afinal me permitiram rir, relembrar, esquecer algumas situações que prefiro não lembrar.
Os abraços apertados continuaram se multiplicando nos encontros com a Márcia, Sérgio e Brena no Pátio Shopping Belém – que para todos na cidade continua sendo o Iguatemi ; na casa do Célio Melo e Lúcia, sempre tão amáveis e amigos; no encontro inusitado no meio da rua com a Bia e a filha Thaís que depois me mandou um belíssimo e exclusivo presente: uma blusa de seda com um desenho delicado do Ver-O-Peso. Linda !! Linda !! Linda !!
Uma parada de algumas horas no aeroporto de Brasília e sou de novo presenteada: agora com papos gostosos, alegres e muito íntimos com a Renata Menezes. No carrinho a mala e os 40 kg de excesso: açaí (muitos litros!), jambu, camarão, tucupi, polpa de cupuaçu, de bacuri, sorvete de uxi (pedido da Anaterra), 100 bombons de castanha e cupuaçu, pupunha, farinha (muitos litros!) e mais um monte de outras coisas tipicamente belemenses...
A volta foi demorada e cansativa e confesso, com uma certa dose de estar traindo a mim mesma, que já estava sentindo falta da calma de São Carlos, das ruas limpas, da ausência de nossa “gente humilde” que pede, caminha cabisbaixa com a cara sofrida ou rouba. Em Belém a “sensação de insegurança” é enorme. Todos abraçam suas bolsas, evitam andar com as janelas dos carros abertos, nas entradas dos edifícios segurança dobrada e temem a aproximação de alguém quando caminham pelas ruas. Bem diferente do que presenciamos em São Carlos...
Sinto muita saudade, mas muita revolta também que ficou mais aguda quando, da sacada do apartamento da amiga Ieda, via todas as manhãs as enormes filas de doentes ou seus parentes, na chuva ou no sol, buscando uma consulta no Hospital Ophir Loyola...
Bem... mas isso merece uma inserção específica, um relato maior que já enviei ao Lúcio Flávio Pinto.
Assinar:
Postagens (Atom)