Quem sou eu

Belém/Ribeirão Preto, Brazil
Amazônida jornalista, belemense papa-xibé. Mãe, filha, amiga... Que escreve sobre tudo e todos há décadas. Com lid ou sem lid e que insiste em aprender mais e mais... infinitamente... Até a morte

Aos que me visitam

Sintam-se em casa. Sentem no sofá, no chão ou nessa cadeira aí. Ouçam a música que quiser, comam o que tiver e bebam o que puderem.
Entrem...
Isso aqui está se transformando em um pedaço de mim que divido com cada um de vocês.
Antes de sair me dê um abraço, um afago e me permita um beijo.

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quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Mãe Belém

Mais um ano que não participarei de teu aniversário, minha caliente Belém. Justo eu que durante anos fiz questão de comparecer às mais diferentes comemorações que marcam os dias 12 de janeiro. Pode acreditar: cheguei mesmo a comer um pedaço do bolo - de sei lá quantos metros- no prato de plástico numa grande algazarra bem pertinho do mercado de ferro do Ver-o-Peso.
Como uma filha desgarrada, que parte, mas nunca esquece da mãe, te busco um outro colo materno e aos poucos vou me sentindo confortável e acolhida. Ribeirão Preto tem o mesmo calor que já conhecia de ti. Se não usufruo mais das tuas mangas a caindo aos meus pés, com um pequeno esforço colho uma goiaba ou uma jabuticaba também das ruas. Se não tenho o tambaqui que muitas vezes foi a atração principal do almoço entre tantos amigos, sempre que posso asso um pacu e de novo me recordo de ti. Piqui não é piaquiá, mas eu gosto assim mesmo e se a farinha não é a baguda torrada abundante em tuas feiras, serve a d’água do Nordeste que passei a ser consumidora contumaz no mercado municipal onde ainda compro carne seca, queijos, camarão e até caranguejo.
Não é tristeza o que sinto. Apenas lamento não estar aí no teu aniversário e como uma filha saudosa te cobrir de beijos, ignorando teus incontáveis problemas, teu abandono pelos que deveriam cuidar de ti ou o sofrimento de outros filhos que padecem da carestia que vai da saúde à educação; do transporte à segurança. Como filha, te vejo fragilizada ao te transformares em manchete nacional de sequestros, prostituição infantil ou falcatruas que empobrecem mais e mais teu povo. Mereces ser destaque por outros (e bons !)motivos.
Sinta-se abraçada , porém, por essa filha que gosta de ver a chuva bordando a baía de Guajará com contas multicoloridas; de sentir o suor escorrendo pela testa enquanto saboreia um quentíssimo tacacá aos 35ºC ou que apenas conta os dias para outubro chegar e ir se banhar de fé.
Distante, mas presente e que como qualquer filha perdoa teus deslizes, teus representantes, teus exploradores, eu tenho a certeza de que em meu último suspiro hei de dizer: - Ahh como eu te amo muito, Mãe Belém! 

Pensando na terceira idade

Em breve completarei 55 anos. Mais cinco e entro na "terceira idade". Os limites do meu corpo são inevitáveis, mas a minha juventude não está no meu joelho, mas no meu estado de espírito, na minha necessidade de ampliar meus horizontes e de aprender mais e mais. O meu limite são as estantes de livros, a internet. Meu enorme prazer é conhecer e desvendar culturas. Minha mocidade vai muito além dos anos que já vivi.
Este ano concluo mais uma pós e outros cursos já estão sendo planejados; viagens agendadas e amigos ao monte pra abraçar, beijar e assim comprovar que a minha existência foi muito além deste plano.
Um domingo de muitas atividades e de muitas gargalhadas a todos.
O meu será regado a suco de uva, peixinho frito e um feijão preto fresquinho.

Minha cartinha a Papai Noel

É um pedido tão simples e ao mesmo tempo tão complexo. Por isso estou te mandando com bem antecedência pra não dizeres depois que foi em cima da hora. 
Sabe o que eu quero, Papai Noel? Um homem! 
Não... não... não quero marido. Eu que na adolescência e naqueles primeiros anos de adulta acreditava que nunca casaria, 18 anos já foram bom demais! Estou mais do que satisfeita.
Não quero namorado que telefona em busca de informações típicas do primeiro amor: onde estás? Com quem estás? A que horas chegarás?
Não quero um amante furtivo que só pode receber carinhos no motel ou naquele lugarzinho escuro na estrada para que a esposa não fique sabendo de mais essa pulada de cerca.
Não estou em busca de um pagador de contas. Felizmente trabalhei a vida inteira e hoje consigo bancar/rachar tudo o que necessito. Das despesas domésticas às minhas viagens.
Não sonho com o cara do carro esporte do ano ou que aos finais de semana saia em sua potente motocicleta cortando as rodovias, roncando alto o motor.
Não estou caçando aquele senhor sarado, barriga tanquinho, com tatuagens da moda, cabelos habilidosamente desarrumados, dentes perfeitos, cheirando a loção de barbear importado.
Eu quero tão pouco, Papai Noel...
Pode ser careca ou grisalho, barrigudo, gordo, ter um sorriso que nunca ocuparia os comerciais de pasta dental, sem conta bancária obesa, que use perfume do Boticário ou Natura, mas que tenha sensibilidade, se emocione com uma música, ache normal tomar banho de chuva, não se incomode que eu fale sem parar sobre o último livro que li ou sobre o último texto que escrevi; que ache encantador receber um cartão virtual no meio da manhã apenas porque deu vontade ou um torpedo dizendo simples assim: és especial demais na minha vida!
O homem que busco talvez esteja em falta, né Papai Noel? 
Queria tanto poder abraçar apertado sem sentir que as mãos foram usadas mais pra medir a minha circunferência abdominal do que de fato pra me trazer pra bem juntinho. Acordar dengosa e fingir um mal estar só pra ser cuidada na cama. Passar o domingo entre o fogão, a geladeira, o DVD e a cama. Viajar... viajar para a cidadezinha de 50 mil habitantes ou à metrópole de 4 milhões. Tanto faz praia, montanha ou arranha-céus ...
Meu sonho de consumo tem que ser maduro pra ser responsável, mas jovem o suficiente pra usar o facebook ou o twitter e não achar que isso é “coisa de jovem”. Pode não ter mais a disposição sexual dos garotos de 30, mas tem que saber amar uma mulher sem se importar demais em exibir a sua performance. O antes e o depois, após os 50, é sempre mais importante que o durante.
Será que conseguirás. Papai Noel? ou eu vou passar 2012 de novo esperando pelo cara que iria me acompanhar ao show do Chico Buarque sem achar ridículo e ainda cantar junto comigo, entender a minha emoção e depois sair pra jantar, namorar, ver o sol nascer embalados ainda pela belíssima Sinhá, a música mais recente do Chico e João Bosco.
Ahhh te esforça aí Papai Noel! 

Para os que querem dividir o meu Pará

(Agradecimento ao Raimundo Mário Sobral, que no seu dicionário Papachibé me ajudou a recordar muitas expressões e ao Mauro Magalhães que leu e incrementou mais o texto).

Sou da terra onde a Lobrás se chamava 4 e 4 e se ia lá pra comprar fechoeclair e trocar aquele que escangalhou na velha calça que fica no redengue. No rumo da Presidente Vargas uma parada para... a merenda no Jangadeiro:garapa e pastel eram os meus preferidos, mesmo que eu me sentisse depois empanturrada, com vontade de bardear dentro do ônibus Aero Clube. Às vezes o piriri era inevitável. Mal dava tempo de chegar em casa.
Ahh a minha casa... Morei anos e anos na Baixa da Conselheiro e um dos meus divertimentos preferidos era pegar água na cacimba da Gentil. Sempre fui meio alesada e deixava boa parte da água pelo caminho. O balde chegava quase sem nada, motivo pra ouvir da minha avó: não te brigo nem te falo, só te olho.
Na minha terra não se empina pipa, mas papagaio, curica e cangula, sempre olhando pra ver se eles não estão no leso e nunca deixando a linha emboletar. Depois do laço, a comemoração, maior ainda se cortou e aparou. Se perdeu a frase inevitável: laufoiele. Era um segurando o brinquedo artesanal feito de qualquer papel, enquanto o outro gritava de longe: larga ! E o empinador sai correndo. Não gostava dessa função, sempre me abostava e os meninos eram implacáveis: cheira lambão, a velha caiu no chão e depois ainda me arremedavam...
Peteca ou fura-fura eram mais compatíveis com a minha leseira. Um triângulo desenhado no chão e dentro dele as pequenas bolinhas de vidro. Tirou de lá, ganhou a que saiu ou quem conseguia o tel. No fura-fura era essencial amolar bem a ponta do arame e sair jogando, emendando um ponto a outro sem nunca deixar que o adversário nos cercasse.
Lá na minha terra peixe não fede, tem pitiú e quem não toma banho direito tem piché. Gostamos de ser chamados de papa-chibé, aquele que adora uma farinha e que faz miséria com ela. Manga com farinha, doce de cupuaçu com farinha, sopa com farinha, macarrão com farinha. Um caribé bem quente, ralinho serve pra dar sustança ao doente e um chibé é excelente com peixe fritinho. Farinha só é ruim quando dizem: ihhh ta mais aparpada que farinha de feira !
O pirão do açaí é quase um ritual... Pode-se usar farinha d’água baguda ou mesmo a fina amarela, mas nada melhor que uma farinha de tapioca bem torradinha. Depois de tomar uma cuia bem cheia (meio litro em diante), daquele um, tipo papa é inevitável deixar a mesa todo breado e empanturrado. A barriga por acolá de tão cheia. Hora de ir para rede reparadora. Uma hora de momó é suficiente pra curar aquele despombalecimento.
A gastronomia na minha terra é tudo de bom. Se não tem pão comemos tapioquinha com manteiga ou pupunha no café, quem sabe até um bolo de milho recém-saído do forno com uma manteiga por cima da fatia, derretendo. O pão pequeno é careca e o curau, canjica e a canjica, mingau de milho. Tem gente que não gosta e ficava encarnando que esses pratos não são típicos. Preferem uma unha com bem pimenta ou um beijo de moça bem torradinho.
Na minha infância o doce que mais consumíamos, em frente ao Grupo era o quebra-queixo. De amendoim ou de gergelim. O risco era ele cair na panela que sempre havia na boca da molecada. A dor era insuportável! Muitas vezes voltei pra casa correndo, debaixo de chuva pra colocar álcool no dente, adormecer até a panela parar de doer. – Vai na chuva mesmo? – Claro não sou beiju !
Nossa Senhora de Nazaré, pela intimidade que temos com Ela, pode ser chamada carinhosamente de Naza e a erisipela de izipla. Cabelos grossos e cortados curtos viram espeta caju e quem pede muito é pirangueiro, filho de pipira. É proibido malinar, andar fedorento, ser um pirento inconveniente, desses que arrancam o cascão.
Embora politicamente incorreto, adoro lembrar o “carro da phebo” passando e os lixeiros invocados tendo que ouvir esses gracejos.
Quantas vezes ouvi da minha avó, da minha mãe: - So te digo vai ! ou de uma amiga pedindo para que a gente se demorasse mais um pouco: - Espere o vinho de cupu. E o calendário paraense que além do ontem tem o dontonte e o tresontonte ?
Nos orgulhamos de falar tu e conjugá-lo corretamente, mas quem nunca ouviu essa frase? – Passasse por mim me olhasse, fizesse que nem me visse, nem falasse.
Esse é o meu Pará que querem dividir. Retalhar não só o território, mas as falas, as tradições, a cultura, a sua História. Minha terra correndo o risco de não ser esse colo materno único, ímpar, que acolhe, que abriga da chuva, que nos enche de orgulho de ser não apenas Belém, mas Alter do Chão, Bragança, Soure, Altamira, Conceição do Araguaia, Ourém, Alenquer, Curucá ...
Talvez os que acreditam que a divisão é o melhor tenham batido na mãe, comido manga com febre e não entendido a metade do que está escrito aqui !

A morte já me visitou

Eu já estive sentada ao lado da morte. Primeiro um tumor que me fez conhecer seu rosto, a vê-la me levando pra longe sem que eu pudesse lutar. Logo em seguida se materializou em meu marido. Foi transformando seu rosto, seu corpo, seu olhar, seu sorriso. Ela é feia, amedronta, leva ao desespero, mas também é uma excelente professora. O meu mundo já não é tão pequeno, os valores mudaram e consigo ver acima do bem e do mal, priorizar o que de fato vale a pena e amar os que me fazem bem, me engrandecem, me acrescentam. A morte continua ali, à espreita, não tenho tempo a perder. Peço apenas a Deus que eu consiga terminar a minha missão por aqui. Não poderei consertar o mundo, mas posso enxergá-lo de uma outra forma.

Tim-tim Manoel !

Durante muitos anos, dia 15 de novembro tinha um roteiro imutável: nossa casa em Mosqueiro. Caranguejo, feijão fresquinho, vinagrete e farinha eram o prato principal. Muitos comemoraram conosco os aniversários do Manoel. Inevitável não lembrar, não chorar, não sentir saudade. Tento me conformar por ter tido o privilégio de ter, ao mesmo tempo e por tanto tempo: um companheirão, dois filhos, mãe,tia, irmãos, cunhadas, sobrinhos, muitos amigos, mas a dor dessa partida definitiva é inevitável. Uma latinha pra ti, meu velho!

AOS QUE ME ACOMPANHAM SÓ AQUI

A net tem sido mais do que uma companheira. Ela é o meu elo com o mundo. O mundo que deixei lá atrás em Belém, o que não consigo mais participar na Embrapa e de amigos distantes e de novos amigos que ela me traz. Sejam de muito longe ou daqui de perto.
Muitos deles só me acompanham aqui no blog e têm reclamado a minha ausência ou dedicação quase exclusiva ao Facebook. 
A vocês, em especial ao Célio Melo, um pouco do que tenho feito, por onde tenho andado, como tenho vivido. 
Não sei viver sem me compartilhar por inteira.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Meu pé de Taperebá

Este texto foi publicado no jornal A Cidade, de Ribeirão Preto. O interessante é que a Divisão de Áreas Verdes, da Prefeitura, entrou em contato comigo em busca de mais detalhes.
É o meu olhar amazônico...é tudo tão delciosamente diferente !


Meu pé de taperebá
Ruth Rendeiro *
            Quem desce a rua Antonio Uchoa Filho em direção à Portugal, no Jardim São Luiz,certamente já notou que naquela pequena praça há três enormes árvores que destoam das demais. Tem troncos grossos, galhos frondosos e uma elegância de superstar.
            A mais próxima da rua cresceu muito - e desordenadamente-  também para baixo. Suas enormes raízes, talvez por falta de espaço subterrâneo, estavam quase expostas. Garras de um felino tentando se defender. O calçamento fora danificado pela sua força e a cada dia ficava mais difícil caminhar por ali.
            A primeira vez que me deparei com elas achei que era pura ilusão de ótica ou saudades delirantes do meu Pará. Nem comentei com ninguém. Poderiam achar que havia enlouquecido de vez. Esperei a safra. No chão os frutinhos pequenos e amarelos indicavam que eu estava no caminho certo. Coloquei um na boca e se alguém estivesse me observando iria notar a careta que fiz. Era azedo mesmo ! Era taperebá!
            Não tinha mais dúvida: encontrara em Ribeirão Preto três taperebazeiros. Árvores que achei que tinha deixado pra trás quando saí de Belém há três anos. Cajá, como também é conhecido no Nordeste, é uma árvore que se destaca pelo tamanho e pela beleza de seu tronco. É madeira legítima.
            Na infância, adolescência e maturidade, sempre fui uma contumaz consumidora de sucos e sorvetes de taperebá. Um sabor ácido, marcante e inconfundível e de repente ele estava ali, aos meus pés. Nem pensei duas vezes. Corri em casa, apanhei uma sacolinha plástica e fui juntando um a um os frutinhos. Até os mais danificados seriam usados no suco que já produzia saliva em abundância em minha boca.
            Mas afinal quem teria plantado essas árvores típicas de regiões onde chove muito? Elas são exigentes demais em água. Como conseguiram se adaptar tão bem? Perguntei a alguns ribeirão-pretanos se conheciam o taperebá ou a fruta com outro nome. Nada. Era a única apreciadora e iria aproveitar.
            A safra foi embora e fiquei muitos meses sem passar pelo lugar. Até que fui surpreendida com uma cena chocante: o taperebazeiro, que levantara a calçada com suas raízes, fora reduzido a algumas toras de madeira. Como gigantescas bolachas, estavam arrumadas uma sob a outra e aguardavam o carro coletor. Pelo bem da praça ele fora abatido.
            Entendi os motivos, a necessidade de preservar os que passam por ali e podem cair, mas não pude evitar umas teimosas lágrimas ou vê-lo ali morto. Não mais produzirá frutos e talvez não tenha como ser substituído. Uma outra árvore será plantada em seu lugar, mas sem a sua beleza e imponência.
            Felizmente ainda há outras duas outras árvores de taperebá na pracinha da Antonio Uchoa com a César Vergueiro. Agora é só esperar pela safra e novamente saborear um suco fresquinho e natural de cajá, taperebá... 

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Os artistas que não subiram ao palco

Obviamente que o foco da FLIP está na tenda dos autores, um grande espaço onde se pode acompanhar ao vivo e a cores, os grandes astros convidados para deleitar ou decepcionar o público exigente dessa Festa. Outros, contudo, também fazem a Flip. Muitos sonham em um dia subirem ao palco: posam de intelectuais, vestem-se meio à francesa (chapéu estilo boina, cachecol quadriculado e calças de cortes elegantes), discutem nas mesas (não as oficiais, as dos diversos bares espalhados pela cidade) o que cada celebridade falou, suas incoerências, absurdos ou se esbaldam e babam com uma simples frase do ídolo. Ação típica do fã imparcial e apaixonado.


Adoro, porém, os bastidores. O clima extraoficialidade sempre me fascinou. Na Flip os termômetros também sobem além das tendas. Os anônimos, que ao final dos quatro dias já não são tão anônimos assim, procuram chamar a atenção do jeito que podem. Não têm seus nomes impressos em nenhuma programação (nem mesmo nas paralelas), mas são tão artistas quanto os que se aborrecem com o assédio ou se extasiam com os jornalistas, editores e leitores.

Conheci de perto alguns. Não conseguia resistir àqueles pedidos chorosos pra aumentar o peso das minhas sacolas com os seus livros, embora, via de regra, sejam bem fininhos. A 10 ou no máximo 20 reais era possível adquirir um livro de poesia (para mim de qualidade ultraduvidosa) ou outros de cordel (estes sempre engraçados e que muito me agradam). Um casal da Paraíba caricaturado como autênticos nordestinos do sertão devem ter sido os recordistas. Ela, lenço na cabeça, óculos escuros, batom vermelho intenso propositalmente borrado, indo muito além dos lábios, muitos colares multicoloridos e escrito à mão em um pedaço de papelão como um cordão: Autora. Ele, cabelos, barba e bigodes borrados com um produto não identificado que os deixaram grisalhos. Gravata colorida com um amarrado que tentava ser um nó e as obras nordestinas espalhadas em um grande tabuleiro pendurado no pescoço. Falavam alto, usam expressões típicas do Nordeste – Ô fia linda ! Eta muié ! – paravam pra tirar fotos com os transeuntes (eu fui um deles) e no domingo já nos cumprimentavam com intimidade. Devem ter faturado bem alto.

Fiquei “íntima” também de um poeta mineiro que sempre que eu passava ao seu lado lamentava que “o pessoal gasta um dinheirão na livraria, mas não quer ficar com os nossos livros que custam 10 reais. Depois dizem que são democratas, intelectuais”. Havia jovens, senhores, predominantemente homens, aproveitando a rara oportunidade de colocar à venda seus produtos.

Outros artistas, não das letras, fizeram a Flip 2011 mais festiva ainda. Uma boneca manipulada por uma jovem fechou uma das principais ruas de Paraty. Dançando “Um dois três quatro. Dobre a perna e dou um salto... “ cativou a todos. Lembrou-me a primeira apresentação da Anaterra no balé do Colégio Gentil no Teatro da Paz. Lindo e particularmente emocionante pra mim. Algumas estátuas, dessas que a gente encontra no centro das grandes cidades também embelezaram as ruas antigas. Uma em especial agradava as crianças. Uma bela sereia, muda, apenas jogava beijinhos após receber uma moeda. Tinha ainda um estranho e solitário Capitão Gancho e muita música. Um casal cantando MPB, uma jovem com um acordeão diferente sentada na porta da igreja e muitos índios. Guaranis talvez ou seriam bolivianos?

No dia que chegamos o primeiro ser estranho com quem cruzamos foi homem borboleta. Não... ele não voa, pelo menos literalmente. Vende broches de cabelo em desenhos de borboletas. Variadas forma, variadas cores, mas principalmente muito brilho. Douradas, prateadas, pequenas, maiores e como marketing enfeita sua barba, bigode e os longos cabelos com os acessórios. Fica algo inominável..Pergunta sempre a origem dos clientes (pra variar comprei uma pra ajudar!) e quando respondi Belém quis saber se de Belém mesmo ou de Ananindeua, Marituba ou Icoaraci. Conhece a terra. Falou do Museu Emílio Goeldi, daquele lindo mercado na beira do rio e durante os demais dias ganhei sempre um bom dia ou boa noite do homem que já esteve no Jô Soares e que tem blog para quem quiser conhecê-lo um pouco mais.

Outra atração das ruas de Paraty eram os enormes carros de mão carregados de guloseimas. Feitos artesanalmente reuniam vários tabuleiros,milimetricamente planejados e bem encaixados, com cocadas, quebra-queixo, tortas de limão, bolo de macaxeira (ou aipim como anunciavam), de tapioca (algo que para nós paraenses lembra uma tapioca de coco bem molhada), brigadeiros enormes com um morango gigante dentro... Uma festa gastronômica exageradamente calórica !

Vi ainda uma procissão típica de cidades do interior em homenagem a Santa Rita. Que não deve ser a mesma cultuada na Igreja de Queluz, no bairro de Canudos, homenageada dia 22 de maio. Pra encerrar com muita emoção, beleza e som forte dos grandes tambores e taróis,uma apresentação de maracatu encheu as ruas estreitas de pedras da bela Paraty. Um som que me remeteu ao Arraial do Pavulagem às vésperas do Círio nas igualmente antigas ruas da Cidade Velha.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Minha Primeira FLIP

Nada muito programado.Um convite da Rebecca, colega do curso de Jornalismo Literário e a empolgação ficou latente. Pensei na Anaterra, na oportunidade rara de apresentá-la a esse mundo, já que anda ameaçando fazer jornalismo. Confesso que sabia pouco da Festa... Cheguei a confundir esse F com Feira. Uma bienal mais bucólica talvez. Fui...


A maioria das pessoas acha tão difícil se deslocar de ônibus, sair de uma cidade pra outra, eu apenas vou, chego e aproveito. Aconteceu de novo em Paraty. Viajamos de madrugada para economizar uma diária e percebi (ou melhor, senti) apenas que a estrada tinha muitas curvas e lombadas. Pela manhã a bela surpresa: a pousada, hotel/albergue ou Hostel como é moderno chamá-las agora, a Sereia do Mar, ficava em frente à praia. Bastava sair do pequeno quarto e lá estavam aquelas enormes montanhas como se molhassem seus bicos gigantes na água azul. Nem mesmo o tempo nublado e o frio tiraram a beleza.

Hora de ir ao Centro Histórico. Ainda só eu e Anaterra. A Rebecca só chegaria no dia seguinte. Pegamos um ônibus e saímos meio sem direção. Não foi difícil encontrar as janelas e portas altas em tons fortes de azul ou amarelo. Estava agora de fato em Paraty! Mais uns metros equilibrando-me nas pedras que são ruas e calçadas, lá estavam as tendas que seriam disputadíssimas durante os próximos quatro dias.

Como marinheira de primeira viagem fiz algumas burradas. Não comprei com antecedência os ingressos, queria poder decidir lá, sentir o clima e optar, ser antes apresentada à grande festa. Isso, porém, não combinava com a Tenda dos Autores. A platéia que ficava frente à frente com as celebridades comprara bem antes pela Internet. Tudo estava esgotado. Mas o telão oficial, o telão da Petrobras, da CPFL ou os bancos espalhados pelas redondezas estavam à disposição. Só não acompanhou o frenesi de celebridades das palavras quem não quis.

Calcula-se que cerca de 25 mil pessoas tenham pisado naquele solo secular. Os bastidores são sempre movimentadíssimos, o disse-me- disse ou as análises sobre fulano e beltrano melhores ainda. Obviamente não sabia, mas cada Flip tem uma musa. A deste ano foi a argentina Pola Oloixarac. Jovem (em torno dos 30), embora tenha só um livro – Teorias Selvagens – mexeu com todos e lotou a tenda dos autores, telões e principalmente foi responsável pela maior de todas as filas para os autógrafos. Ao se expressar, porém, deixou muito a desejar. O comentário de sua performance totalmente incompatível com o que foi repassado aos que foram a Paraty, causou outro tipo de frisson.

O neurocientista Miguel Nicolelis e o o filósofo e colunista da Folha Luiz Felipe Pondé, foram os primeiros que eu parei pra acompanhar concentrada. A conversa foi cordial demais para o meu gosto. Achei que iam debater bem mais pela visão antagônica que acreditava teriam. O neurocientista fez a festa particular dos jornalistas, titulando a matéria do dia seguinte ao afirmar que milagre é algo que fazem em seus laboratórios Uma palavra que deveria fazer parte do vocabulário da neurociência.

James Ellroy, que me lembrou uma Dercy Gonçalves de saia e erudit, falou palavrões, disse que se fosse um líder religioso seria Deus e encantou a platéia, entre os novos fãs do senhor de 64 anos, minha filha, de 15 que entrou na fila para ter em seus dois livros o autógrafo do autor. Teve muita gente mais : João Ubaldo Ribeiro, Edney Silvestre, Teixeira Coelho.... e uma programação específica para as crianças –Flipinha – e outra para os jovens – FlipZona.

Eu me redescobri e fiquei zonza com tanta coisa acontecendo simultaneamente. Queria conhecer cada um dos que não conhecia; saber mais dos que já conhecia e me enturmar com os que fazem (ou como eu) pretendem fazer algo mais seriamente com as palavras. Os anônimos, que têm seus livros publicados, mas que sabem que nunca subirão àquele palco. Deixei Ribeirão Preto com alguns contatos, com a programação paralela me entusiasmando tanto quando à oficial.

No primeiro dia, em uma das principais ruas de Paraty, identifiquei o Clube dos Autores. Parei, apanhei a programação e marquei o que mais me interessou. Um encontro promovido pela revista Imprensa, que teria entre os participantes o professor Sérgio Vilas-Boas, o primeiro a ministrar aulas para a nossa turma de Jornalismo Literário, era uma de minhas prioridades. Na quinta-feira à tarde, hora marcada, lá vou eu com a filha. Na sala da casa antiga, cadeiras espalhadas, um sofá de madeira bem alto que deixava as pessoas com os pés suspensos, poucas pessoas, lanche e finalmente chega, um pouco atrasado, o palestrante. A discussão começa. O assunto predominante é a poesia, o que ela representa, como as pessoas chegam até ela, até onde as redes sociais têm contribuído com a ampliação dos admiradores... Não consigo me perceber na discussão. Uma hora no local, tento me posicionar, apresento-me, ouço um jovem de no máximo 30 anos dizer que já compôs mais de 20 mil poesias e sinto-me uma incompetente. Pergunto pelo Sérgio que ninguém conhece.

Na pequena porta surge a Rebecca. Esbaforida, ar de cansada. Acabara de chegar de São Paulo e não queria perder nada. Se o Sérgio Vilas-Boas estava ali certamente deveria ser do nosso interesse. Percorre com o olhar buscando pelo professor. Não o encontra. Levanto para ir ao banheiro e ela quase salta atrás de mim: - Acho que estou no lugar errado e ela sem pestanejar: - Eu tenho certeza !

Mesmo assim resolvo não abandonar o ambiente. Eles foram tão atenciosos comigo: tiraram fotos, deram-me uma camisa, colocaram o Clube a minha disposição... ficaria... Fiquei. Perdi o encontro que tinha me programado há pelo menos 15 dias, mas aprendi um pouco mais sobre poesia e conheci pessoas interessantes. Valeu a patetice ! Não fui ao Clube dos Escritores, mas aproveitei muito bem o Clube dos Autores.

Amanhã tem mais FLIP ! Um pouco sobre os Artistas fora do palco.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

MERGULHANDO NAS PALAVRAS

As aulas aos finais de semana em Sp (a cada 15 dias) continuam intensas. O curso tem se mostrado compatível com o que busco. Cansativo, mas com aulas que nos levam a produções que fogem completamente das pautas, lides ou mesmo matérias mais rebuscadas.Estou recebendo estímulos externos que desconhecia completamente.

Sempre escrevi. Na adolescência por pura intuição, imitando poetas, tentando rimar com pouco sucesso. Não sabia a diferença ente prosa, verso, conto, crônica, um romance e muito menos que havia uma área que se dedicava a escrever poeticamente, com a alma, o coração, tudo real.

Aos quase 54 anos estou me permitindo este novo mergulho.

Ainda é cedo para qualquer avaliação mais profunda, Mas estou sendo bastante estimulada. Esses três exercícios que disponibilizo agora foram feitos em sala de aula em dez, 15 minutos e a partir de técnicas, exercitando a escrita total ou escrita rápida, conhecendo as relações que os textos têm com a literatura, psicologia humanista.

Mexendo e remexendo emoções que aparentemente estavam soterradas em algum lugar de nossa mente, muito bem guardadas e que devem vir à tona e serem registradas de imediato. Temos poucos minutos pra colocar no papel e sem computador. Tudo à mão em folhas que nem são brancas, mas de papel jornal.

O primeiro (Mãe interina) é resultado de um mergulho no álbum de família. Levamos para a sala de aula fotos consideradas importantes de fases de nossa história. Lá estavam mamãe, os irmãos, sobrinhos, Raul, Anaterra, Manoel e o Ivan Maciel Ribeiro, filho da Sula e que foi a minha experiência maternal verdadeira, real. A preocupação não é o literário, mas o registro, a emoção, o que pôde ser sugado desse álbum.

O segundo texto (“Paraíba”) foi resultado de um estímulo via um vídeo sobre a história do recomeço das águias. E o terceiro (O “mangueirão” particular) saiu, também em alguns pouquíssimos minutos, depois de um período de concentração que começou com uma música estilo cantiga infantil que mencionava os doces da vovó, as reuniões em família. Exercitamos o nosso jardim da criatividade a produzir textos luminosos.

Muito está sendo parido e quero dividir com os amigos que me acompanham aqui essa fase também.

Aguardo, ansiosamente, os comentários !

Mãe interina

Um filho interino que antes dos biológicos me permitiu exercitar a maternidade mesmo sem nunca amamentá-lo. Sua dor de barriga era também minha; seu machucado no rosto depois que o balanço da creche fora violentamente arremessado pelo coleguinha, também doeu em mim.

Mãe interina que aprendeu a amá-lo quando ainda estava na barriga da mãe; a ouvir sua primeira palavra (car) por volta de um ano. Noites acordadas embalando o filho quase meu. Praças, parques, feira livre, tudo era especial quando ele estava em minha companhia.

Os olhos claros, cabelos cacheados e uma saúde frágil tornavam-se coadjuvantes quando começava a falar, gesticular e didaticamente tentava convencer o ouvinte de que não seria jornalista apenas porque seu pai era, sua mãe também e até a mãe interina. Seria astrônomo.

- Não...astronauta não !, irritava-se aos cinco, seis anos quando confundiam profissões para ele tão distintas.

Os filhos biológicos chegaram e o aprendizado de mãe interina que dava banho, fazia papinha, limpava coco e se ajoelhava rogando a Nossa Senhora de Nazaré para que aquela febre tão alta não passasse de uma amigdalite, afastaram muitos dos fantasmas da mãe biológica de primeira viagem. O amor maternal já florescera antes da gravidez. Já conhecia o que era amar incondicionalmente.

O bebê se fez homem. Nem jornalista, nem astrônomo ou astronauta. Hoje é um engenheiro formado pelo ITA.

Orgulho da mãe uterina.

Orgulho da mãe interina.





O”paraíba”

Os abraços dos amigos no aeroporto eram de até breve. A pequena mala já indicava que a viagem seria curta. Mais do que visitar o pai no hospital, seria a oportunidade de conhecer a maior cidade da América Latina. Em um mês, no máximo, a rotina voltaria a predominar.

Já vira pela TV o trânsito infernal, os congestionamentos intermináveis, mas nunca se detera na rodoviária do Tietê. Que coisa mais louca ! Hora de pegar o metrô e ir até o Hospital A C Camargo. Reencontro difícil, mas necessário. Onde estava o brilho do olhar que há alguns meses o acompanhara na ambulância até o aeroporto ? E os cabelos prateados ? E o sorriso bonachão?

A esperança substituída pela dor ...

Poucos dias depois o fim do sofrimento e a hora da partida definitiva. O ser que um dia o carregara no colo agora inerte, precisava ser carregado por ele. E para o caixão !Era o único homem da família presente. Felizmente forte, saudável...

A casa nova estava nua. Nem quadros nas paredes, nem tapetes no chão ou plantas nas janelas. Uma geladeira, um fogão e colchonetes para amenizar a rigidez do piso frio.

Nova escola também, sem rostos familiares, sem as escadas de mármore, sem os vitrais centenários. O vestibular seria o mesmo...Talvez não. Um recomeço pela avaliação que só o confundia mais e mais. Estava entre os melhores da turma, mas o alijavam por ser um “paraíba”.

Venceria !

Queria !

Por ele, pela mãe, pelo pai que agora estava ali num canto da sala dentro de uma pequena caixa de cobre transformado em pó.

Aprovado na primeira faculdade, na segunda, na terceira, na quarta ...

O desejo era comemorar entre os seus amigos de tantos anos. Mas sabia que agora voaria mais alto, iria mais longe. Já não era um “paraíba”, mas, mais um universitário da USP.


O “mangueirão” particular

O ambiente da cozinha sempre foi marcante para nós. Após o jardim com grandes samambaias penduradas, flores nos vasos e enfeites com dizeres imitando placas que afirmavam enfaticamente: aqui vive uma família feliz ou aqui nois mora e nois veve, lá estava ela. 60 metros quadrados com predomínio de azul, uma grande mesa de sucupira bruta, oito cadeiras, fogão e um detalhe que a todos encantava: uma caixinha de som discreta e poderosa no canto direito reproduzia os CDs que eram colocados no som da sala. Cinco de cada vez. Música para pelo menos três horas ininterruptas.

Ali era o “Nosso Mangueirão”, alusão ao estádio de futebol de Belém. Os amigos e parentes nem se detinham mais na sala. Passavam direto para aquele cenário atraente que os recebia com algumas cervejas bem geladas e muito Chico Buarque, João Bosco ou Waldemar Henrique e que atingia seu ápice lá pelas 14 horas quando o almoço era servido. Ora um peixada de filhote, ora um tamuatá no tucupi ou o preferido de onze entre dez: a caranguejada que era antes de tudo um ritual que começava na semana anterior com as encomenda dos animais que, antes de serem sacrificados vivos em uma enorme panela com água fervendo temperada com cheiro verde, coentro e pimenta-de-cheiro-do-parám, passavam a noite se despedindo da vida em uma grande banheira velha com água corrente para que a lama desgrudasse de seus corpos.

Detalhes esquecidos quando chegavam avermelhados ao centro da grande mesa ...

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Jornalismo o quê mesmo ?

Nunca concordei com os rótulos, essas coisas carimbadas que parecem imutáveis, sem a menor probabilidade de crescer ou decrescer. Apenas permanecer estático.


No jornalismo os rótulos também sempre me incomodaram. Jornalismo Econômico, Jornalismo Esportivo, Jornalismo Político. Muitos não conseguem fugir dessa embalagem que nos agrupa e eu obviamente também fiz parte de alguns deles.

Participei ativamente durante anos da Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental e até hoje a acompanho por tudo o que representa em informações bem fundamentadas, críticas profundas e pessoas totalmente envolvidas com a causa.

Depois de trabalhar 25 anos na Embrapa Amazônia Oriental não tive como fugir de outro rótulo: jornalista científica, embora, nas diversas oportunidades que tive, tenha ressaltado que era uma autodidata que o destino colocou atrás daqueles altos muros brancos em Belém. Fuçando laboratórios, viajando para o campo pra conhecer experimentos. Aos poucos fui entendendo dos processos básicos de quem faz ciência e como não poderia apenas ser um papagaio que abria e fechava aspas, lia atentamente o que os pesquisadores escreviam, os resultados que alcançavam e tentava, de alguma forma, facilitar para o leitor/ouvinte/telespectador que entendia daquilo menos do que eu, pudesse saborear as conquistas, visualizar que o investimento valera a pena, acreditar que o futuro seria melhor.

Uma área apaixonante... Cada vez que conseguia entender uma pesquisa, principalmente aquelas bem complexas que exigem o mínimo conhecimento de química, física ou biologia, justamente tudo que eu não domino e depois de escrever, reescrever sei lá quantas vezes e saia como eu queria, como eu imagina o leitor lendo e compreendendo tanto investimento, tanta dedicação, ficava livre, feliz. Mas jornalista científica ? acho que nunca fui. Mesmo participando por duas gestões da diretoria da Associação Brasileira de Jornalismo Científico.

Acredito que somos apenas jornalistas que por algum motivo- opção ou oportunidade –nos dedicamos mais a um tema do que a outros, mas seremos sempre aquele que com uma boa pauta na mão escreveremos até sobre prospecção de petróleo ou nanotecnologia ou sobre o incêndio no galpão na esquina de casa. Obviamente que conhecer bem o assunto, ter boas fontes só facilita essa “especialização” que às vezes torna-se até formal. Os cursos de pós-graduação estão aí e cada dia mais demandados.

Eu estou começando outro (fiz o primeiro em Comunicação Institucional na Amazônia, na Unama, em Belém). De novo o nome pomposo, o rótulo que surge. Tudo bem que é preciso diferenciar um curso de jornalismo cultural de um em jornalismo investigativo, mas não da forma amarrada como muitos defendem, como muitos até precisam para justificar que “só sabem escrever sobre esse determinado tema”.

JORNALISMO LITERÁRIO

Há cerca de dois meses estou participando, em São Paulo (capital) de uma pós lato sensu em Jornalismo Literário, promoção da Academia Brasileira de Jornalismo Literário. A cada 15 dias viajo cinco horas pra ir e cinco pra voltar completamente exausta. Sexta-feira à noite e o sábado inteiro nos deleitamos em discutir, conhecer, trocar experiências e fortalecer a crença em um jornalismo diferenciado. Um aprimoramento no que me dá mais prazer na vida hoje: escrever.

Alguns amigos brincaram que iria só gastar dinheiro (“já escreves tão bem...”), outros que apenas estava buscando algo pra me ocupar depois da aposentadoria ou que queria mesmo era ir pra capital bater perna.

Fui...

A cada final de semana ratifico que tomei a decisão acertada. O jornalismo literário está nas veias de muitos jornalistas que conheço, é latente, apaixonante, o que nos falta é só rotulá-lo como tal. Bem difícil principalmente para os que vivem na Amazônia e mal conseguem fazer o jornalismo diário, o tradicional, com lide e sublide. Mas quantas vezes já lemos textos onde as histórias valem mais do que os acontecimentos ?

Há outros rótulos talvez menos pomposos: jornalismo narrativo, literatura da realidade, literatura de não-ficção... O que importa mesmo é o que é ressaltado pelos professores: JL é mergulhar, se colocar no lugar do outro (imersão), é o prazer em conversar, descobrir. É humanizar os textos. Valorizar o homem e não o fato, ser criativo, responsável, ter estilo...

Tenho me identificado muito com essa abordagem de fazer jornalismo. Um jornalismo com profundidade que nos permite adjetivar, sentir, se emocionar, mas nunca fugir da verdade. Ficção não entra !

Descubro, por outro lado, uma farta bibliografia sobre o assunto. Alguns livros e filmes bem conhecidos, outros nem tanto, mas um grupo grande que faz (ou tenta fazer) um jornalismo mais humanizado, que exige mais do repórter, que vai além, muito além do que todos estão vendo.

Um exemplo bem recente e que coloquei em debate na sala de aula, aconteceu no velório do ex-presidente José de Alencar. Um militar que fazia parte da guarda de repente desmaia. Procurei insistentemente na internet, assisti os telejornais e não encontrei nada além de algumas poucas linhas ou o vídeo com a cena e com títulos como O Tombo. Como leitora/telespectadora gostaria de saber mais, de ir mais profundamente, saber de fato o que houve para que aquele homem alto, jovem, de repente sucumbisse na frente de todos, quase batendo no caixão.

Os exercícios e a teoria que o curso de JL estão me fazendo aflorar desejos já sentidos, mas pouco exercitados, me levaram a idealizar uma ampla matéria que responderia algumas das perguntas que me perturbaram ao ver a cena. Quem seria aquele militar ? O que de fato ele teve ? Será que não gostava de enterro ou de repente teria perdido o pai há pouco tempo ? Fizera alguma refeição antes de ir para o salão nobre ? O que o emocionara tanto a ponto de desmaiar ? E o que aconteceu com ele no quartel ? Foi tratado ou punido, ridicularizado por seus superiores e colegas ? Ahhh a matéria não feita quase torna-se um texto de ficção ...

O curso tem propiciado remexer lembranças, expor emoções, liberar lágrimas e conseguir, ao mesmo tempo, arrumá-las em palavras. Não deixar escapar a criatividade, mas alicerçada na realidade, mesmo que seja uma lembrança que estava adormecida, quase enterrada, deixar vir à tona com os métodos empregados pelos que ministram o curso.

Prometo (para os amigos que me seguem e têm me cobrado a atualização mais freqüente do blog) descrever com detalhes e aos poucos ir disponibilizando os poucos e ainda amadores textos de JL que escrevi.

O importante é que estou gostando.

Preciso sempre estar apaixonada ou não consigo produzir...









































sábado, 19 de fevereiro de 2011

Atravessando o Canal da Mancha. Por baixo !

A minha claustrofobia é antiga. Não faz muito tempo que todos conheciam meu pânico de avião; meu medo de elevador e as sensações horrorosas que tomavam conta de mim quando me sentia presa. Podia ser um quarto fechado com uma grade na janela ou simplesmente um banheiro que insinuava que não iria abrir. Terapia, remédios e uma boa dose de persistência reduziram drasticamente essas manifestações que ainda eram motivo de chacota, afinal, uma jornalista que não entra em um elevador ? ahh não acredito !

Mas quando saímos de Londres para ir a Paris não percebi de que forma se daria essa locomoção e nem procurei saber. Estava entregue nas mãos dos guias, da agência que contratei. Avião, barco, trem, ônibus, van... qualquer coisa não faria diferença. Mas só chegando às proximidades do que é conhecido como Eurotunel soube exatamente como ia mudar de um país pra outro.

Lembra, muito mal, é verdade, as travessias de nossos rios amazônicos. Grandes balsas, mas ao contrário de céu aberto, onde podemos ir apreciando o vôo dos pássaros, os peixes em volta da gente, a paisagem exuberante, os ribeirinhos passando em suas minúsculas canoas, o que fui sentindo foi o ar faltando e a escuridão dominando o ambiente. O ônibus estava entrando em uma espécie de container que parecia ter sido feito exatamente para as suas exatas medidas. Nem um metro a mais de um lado e nem do outro. Um leve balanço, que não lembra maresia, mas um grande amortecedor me deixou um pouco tonta.

Vários avisos em forma de cartazes e outros pelo som em inglês e francês, deixavam mais evidente que aquilo era perigoso. Tinha até túnel de emergência!! Comecei a ler o panfleto explicativo e quase morro: durante 39km nós estaríamos a 40m abaixo do mar do canal da mancha. Nem liguei mais para o que estava ainda no papel. Primeiro amedrontam depois tentam nos convencer o quanto a obra é importante para a engenharia mundial. É o maior metrô marítimo do mundo ou a obra de engenharia mais ambiciosa e cara da sua época. Lia, mas não parava de pensar que acima da minha cabeça estava o mar. É claro que tentei disfarçar, fingir que tudo me parecia normal, que já fizera aquela travessia pelo menos uma dezena de vezes. Só o coração acelerado, felizmente imperceptível para os que estavam do meu lado, denunciavam o mal estar. Isso pra ser generosa comigo mesmo.

Bastava, porém, alguém um pouco mais observador pra perceber o meu grande alívio quando o container se abriu e saímos daquela lata de sardinha. Eu estava vendo o sol, tudo bem que ele estava encoberto pelas nuvens e neblina. O dia estava cinza, mas nunca me pareceu tão lindo !

Depois de percorrermos alguns quilômetros um presente não anunciado: uma parada de cerca de três horas na belíssima cidade de Bruges, na Bélgica. Um cenário de filme... E pra comemorar a vida pós Eurotunel e experimentar o novo, resolvi encarar uma das centenas de cervejas que os belgas tanto apreciam. Pedi a mais forte, uma garrafa de apenas 330ml acompanhado de croquete madame (um sanduíche com um ovo frito encima. O croquete monsieur não tem ovo. Por que ? Não sei) . 8,5 % de álcool e como já passava do meio-dia, tinha comido pouco, no terceiro gole pensei que ia cair da cadeira. Felizmente o almoço chegou, degustei o restante da estranha cerveja e aproveitei pra dormir até Paris.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Um Superavião cheio de novidades

Não sei se todos já entraram naqueles aviões enormes que percorrem longas distâncias como Guarulhos/Lisboa/Londres. Dez, doze horas sem uma paradinha. Eu nunca tinha entrado ! Tanto tempo a bordo é claro que eles tentam de tudo pra distrair os ansiosos passageiros presos nas poltronas apertadas (são um pouquinho mais folgadas do que a que estamos acostumados) e sem poder ver nada pela janelinha.

Eu já viajei demais, mesmo quando tinha muito medo (fui até tema do Retrato Falado com a Denise Fraga no Fantástico por causa disso), mas sempre vôos domésticos ou teço-tecos amazônicos (de Belém à Altamira é uma tortura !) ou mais recentemente nos da Embraer de São Paulo ou Brasília para Ribeirão Preto, mas esta foi a primeira vez que entrei naquele monstro que começa assustando desde o lado de fora. Imenso ...

Meia dúzia ou mais de tripulantes nos aguardava na entrada direcionando para onde devemos seguir até chegarmos a nossa poltrona Sim, porque é perfeitamente possível se perder ali dentro. Três cadeiras próximas à janela à esquerda; outras três à janela da direita e mais quatro no meio. E tome gente entrando. Não tenho certeza, mas acho que éramos em torno de 300 pessoas.

Começo a olhar tudo. Como um matuto que chega na cidade grande. Percebo que há mais botões acima de nossas cabeças que o normal, que a mesinha à frente não é igual a que estou acostumada e sinto-me como uma criança que quer descobrir cada um desses segredinhos.

Lembro-me com saudade da época que frequentava motel. Quanto mais sofisticado melhor, quanto mais misterioso mais atraente. Não pela maciez da cama, mas pelas descobertas que fazia. Luzes que acendiam no chão, água que caia do céu na piscina parecendo chuva, banheiras, espelhos. Um mundo fantástico que me encantava.

Certa vez estava com o Manoel em um desses e já tinha tomado algumas boas cervejas. Ao acabar de fazer xixi a descarga funcionou sozinha. Adorei a engenhoca e comentei com ele: a gente bem que podia instalar uma dessas em casa. Você e Raul nem precisariam se preocupar. Fariam o xixi e a água desceria logo em seguida. E ele com um ar meio sério meio debochado: bebeste demais mesmo ! desencosta do botão que a água para. Que mico ! Só restou rimos até não ter mais sentido continuar naquele ambiente.

Não cheguei a tanto no avião, mas adorei ter uma telinha só pra mim, bem à minha frente com uma programação melhor que a TV fechada. Um montão de filmes (assisti o Bem Amado inteirinho), musicais, documentários (vi sobre John Lennon e a história do samba. Ótimos!), jogos infantis e adultos, notícias (essas antigas demais). Nem parecia que estávamos a sei lá quantas milhas, a não sei quantos graus abaixo de zero.

A comida servida foi outra grande diferença. Nada de barrinhas de cereais ou Pepsi com gelo Tínhamos até opção: risoto acompanhado de um bom vinho tinto ou uma massa com suco de laranja, cerveja ou uma grande variedade de refrigerantes e ainda com direito a sobremesa. O estranho mesmo eram as comissárias. Duas ou três com idades bem além dos 50. Inevitável não pensar que estavam mais para “aerovelhas”. Mas bem maquiadas e gentis e como camelôs de luxo passavam com seus carrinhos vendendo vários produtos, sobretudo franceses, e sem taxa (como nos freeshop). Perfumes, maquiagem e até um relógio,exclusivo. Ou compra lá encima ou não se compra. A máquina facilitava a aquisição pelo cartão.

Acompanhar a viagem pela telinha foi de fato o que mais me encantou. Logo após a decolagem, que parece não terminar nunca com o estômago chegando à boca e mãos e pés suando, resolvo explorar o que havia naquela pequena TV à minha frente e o que vejo logo ao acessá- la: a distância a ser percorrida. Apenas 7.942km. Meu Deus isso até Lisboa, mas nós íamos para Londres. Sabe aquela sensação de não quero saber, mas vou saber? Passei a viagem inteira acompanhando a telinha. Ora via onde estávamos passando. A maior parte do tempo encima do Oceano Atlântico. Como não lembrar o acidente com a Air France há uns dois anos atrás ? Mas lá estava eu, meio masoquista voltando à telinha. Agora tinha a visão do piloto. Nada interessante, por sinal. E as milhas que nos separavam do chão, a temperatura lá fora, a velocidade..E o tempo não passava, se arrastava. Felizmente o lexotan fez efeito, as luzes se apagaram, o silêncio predominou e eu dormi. Talvez por duas horas, mas que parecera uma eternidade.

Faltando pouco mais de duas horas para chegarmos a Lisboa começa um movimento estranho em direção ao banheiro. Parece que todos estavam com diarréia. Perguntei à filha: estás com dor de barriga ? não ! Nem eu ! Filas pra entrar no minúsculo toalete , gente no corredor. Até que finalmente consigo entender a confusão: estava na hora de nos prepararmos para enfrentar o frio europeu e as pessoas iam ao banheiro pra colocar a calça térmica, a meia grossa, o blusão de lã, o cachecol, o sobretudo ou casaco supergrosso. As luvas e o gorro estavam nos bolsos. Achei um certo exagero, principalmente das mulheres que saiam uns dez kg mais gordas, mas quando a porta do avião se abriu em solo lusitano e eu desci a escada, entendi melhor a preocupação dos mais experientes. Eles tinham razão ! O vento parecia congelar, entrar pelo nariz e chegar ao pulmão, barriga, pernas. E tive uma só certeza: estava com pouca roupa.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

La dame charmante et belle jeune

Os parisienses dizem que a Torre Eiffel tem duas personalidades bem distintas. De dia é uma senhora que não consegue ocultar sua idade. Basta olhar com mais atenção pra perceber suas rugas, ranhuras, pés de galinha e oxidações, mas que mesmo assim a todos encanta e seduz. Ela realmente é de tirar o fôlego Foi assim que fiquei: sem voz, pálida e com as lágrimas escorrendo pelo rosto. Explodi, para a surpresa e preocupação dos companheiros de excursão e não conseguia conter nem mesmo os soluços. Pode parecer exagero, mas eu tinha certeza que seria assim. Se esse dia se materializasse, seria exatamente assim. E foi !



A vi primeiro como uma nobre senhora, séria, imponente e não tão bela como imaginara. Mas nem por isso menos sedutora. La dame vieux, mais super élégant !,


Voltei à noite e lá estava la belle dame como se ostentasse todas as jóias do mundo, reluzente, brilhante, ofuscante. Se a luz do dia não consegue disfarçar seus mais de cem anos, à noite é apenas beleza, jovialidade, encantamento.Remoça quando o sol se vai.


O que tanto me atraia nessa torre de 300 metros de altura que mais a antena chega a 320,75 (estava escrito no folheto que entregaram na entrada!)?. Fomos só até a primeira plataforma, a mais baixinha. Muito frio (0 grau!), muito vento e por segurança ninguém podia ir mais além. Nem acredito que algum corajoso topasse ir mais adiante. Mal conseguíamos ficar na sacada onde é possível ver Paris lindamente iluminada aos nossos pés. Confesso que o medo tirou um pouco do brilho.


De fato a Torre Eiffel tem um significado todo especial para mim, Ainda muito jovem, aos 13, 14 anos eu me apaixonei pela língua francesa, pela França. Estudava no Colégio Estadual Visconde de Souza Franco e enquanto meu professor de inglês era um senhor idoso, ranzinza, em fim de carreira, que me levou a abominar o inglês até hoje, meu primeiro professor de francês era um jovem padre francês que acabara de chegar ao Brasil e que tinha o maior orgulho de sua pátria. Monsieur Paul falava arrastado, o R na garganta, o biquinho no u e me apresentou o merci, revoir, bonjour. Depois dele tive o privilégio de ter a doce e meiga professora Risoleta Bandeira (mãe do Chembra, do Walter, da Lúcia.). como a segunda professora de francês. Fiquei mais apaixonada ainda ao ouvir suas histórias e ambos sempre falando da Torre. Essa mesma que vi ao vivo.


Durante três, quatro anos cursei, ora com bolsista ora com a vovó Alzira bancando, a Aliança Francesa. Uma casa de franceses que queriam nos fazer nos apaixonar pela França e nem precisaram se esforçar muito no meu caso, pelo menos. Lembro até hoje a primeira lição ainda naqueles eslaides gastos com um rolo com a gravação que às vezes não conversavam entre si. – Ahhh voilá um taxi ! Taxi !! taxi !! e o moço saia correndo para apanhá-lo. Cheguei à conversação, entendia bem. Mas lá se foram mais de 40 anos e o idioma francês se perdeu entre tantas coisas que ficaram pelo caminho.


Consegui, mesmo com grande dificuldade, me comunicar com os nativos. Percebe-se seu orgulho quando usamos o francês. Não tentam nos consertar e se esforçar por nos entender.


- À quel moment ferme ce restaurant ? (a que horas fecha este restaurante?)


- Où puis-je trouver un public internet ? (Onde posso encontrar uma interne pública ?)


Mas voltando à Torre Eiffel. Eu a vi dezenas, centenas de vezes naquelas imagens quase apagadas pelo tempo no audiovisual da Aliança. A construção que há mais de cem anos foi considerada revolucionária para a época e até hoje é um dos mais importantes monumentos de Paris, da Europa, freqüentou meus sonhos adolescentes, mas mesmo com a maior criatividade que pudesse ter, nunca conseguiria de fato imaginá-la como ela é.


Sabia que iria me emocionar. Paris entrou no roteiro de nossa viagem por insistência minha. Minha filha queria apenas Londres, resultado que se assemelha à minha paixão pela França, afinal ela cursa há seis a Cultura Inglesa. Mas não imaginara que fosse perder o controle e sem nenhum motivo aparente para os que estavam a nossa volta. Todos descem do ônibus, superempacotados protegendo-se do frio, olham para cima e eu olho para baixo. Na verdade olho para a filha como que pedindo socorro. Estava pagando um mico, um king kong e não conseguia me controlar. Não lagrimava, soluçava. As lágrimas corriam livremente e na minha cabeça um filminho passava rapidamente.


Eu estava aos pés da belle jeune !! Eu já a conhecia tão bem, mas nunca a vira. Impossível não chorar, não recordar a dura infância e adolescência quase sem perspectiva e agora, ao lado da jovem filha, aquele gigante de ferro torna-se quase um bibelô frágil, intocável, mas real.


Eu vi, subi, toquei, fotografei e chorei aos pés da Torre Eiffel !! Emoção para poucos. Compreensão para menos ainda. Mas a vida me ensinou que a intensidade da emoção é algo só seu. Há os que se encantam com o desabrochar de uma flor e outros nem percebem que o botão abriu. Realizei um dos maiores sonhos de minha vida. A Torre Eiffel é ainda mais linda do que nos filmes, nos livros e nas minhas lições de francês de tantos anos atrás.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Picanha com feijão em Londres

Quantas vezes já passei semanas sem comer feijão e meses sem uma picanha? Perdi a conta. Mas foi só sair do Brasil pra saudade bater antes mesmo de completar uma semana. O provável estímulo deve ter sido o que comi nos quatro primeiro dias no País da Rainha: macarrão com um molho estranho e aguado de mostarda; hambúrguer com batata frita e pão e risoto de molho indecifrável.


Jantar ? nem pensar ! O preço impeditivo em libras nos conduzia a uma mistura de minimercado com cafeteria, padaria que oferecia sanduíches e um café duplo por cinco libras, ou seja, “apenas” 15 reais, bem em frente ao hotel.


No quarto dia perguntamos a um italiano que tentou nos empurrar todos os produtos que vendia em um quiosque no meio de uma galeria, talvez percebendo nossa origem sulamericana, para eles quase seres de outros planetas e certamente desprovidos de inteligência mínima, onde comer uma carne. Brasileira? Quis saber ? claro !! claro !! respondemos eufóricas eu e minha filha. É só andar duas quadras, dobrar a direita e verão a bandeira do Brasil pendurada na entrada. A nossa bandeira ? que emoção !! Deu uma vontade de beijá-la e explicar aos pedestres apressados que aquilo ali era um pedacinho do meu País.


De fato lá estava ela. Linda, tremulando ao vento gelado londrino. O restaurante era simples, mas acolhedor. Dez mesas, não mais do que isso. No ar o cheiro de churrasco e no bufê feijão preto, feijão carioquinha, farofa, pimenta baiana, maionese de batata, arroz branco, batata frita e carnes à vontade no rodízio. Não podia acreditar! Alcatra, sobrecoxa de frango, calabresa, carneiro e a suculenta picanha com a gordura tostada ao ponto. Por alguns minutos achei que estava em Ribeirão Preto onde existem churrascarias fantásticas.


O proprietário era um ex-guia que diante de tanta curiosidade de minha parte, contou que o lugar era freqüentado basicamente por turistas brasileiros ou ingleses que um dia conheceram o Brasil e se apaixonaram pelo nosso churrasco. “Os que vivem aqui não aparecem. Preferem se achar londrinos”, fez questão de comentar com certo ar de desprezo. A carne vem da Austrália e às vezes do Brasil. “O boi daqui não produz carne pra churrasco”, garantiu.


Em uma mesa dois jovens brasileiros que começavam uma amizade com um terceiro bem mais jovem que falava para todos ouvirem que estava em Londres pra estudar. Orgulho explícito e latente. Na mesa em frente uma grande família que pela conversa e depois que me aproximei confirmei, morava em Rondônia. Falavam em JiParaná, Vilhena, Ouro Preto D!Oeste cidades que conheci quando trabalhei na Embrapa. Estavam passeando e fizeram o percurso inverso ao nosso. Primeiro foram a Portugal e Paris e estavam terminando por Londres.


Comemos tanto que mal podia respirar. O fôlego só veio mesmo quando chegou a conta. Cada refeição custava18 libras, ou seja, algo em torno de 55 Reais por pessoa e eu que achava que uma das melhores churrascarias de Ribeirão era cara. Lá o casal paga 50 com direito a sobremesa e uma variedade enorme de carne que vão do cupim ao coração de frango; da maminha à costela de porco ou da costela bovina à capivara.


Sabe qual a principal diferença? Estávamos a alguns passos da chiquérrrrima Oxford Street !

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Ninguém fala Português ...

Interessante como o Português, mesmo sendo considerado o quarto idioma mais falado no mundo ou, como chegam alguns a afirmar, o segundo se for considerado aquele falado por nativos, é quase ignorado na Europa.


Tudo bem que lá apenas Portugal e seus dez milhões e meio de habitantes fazem uso do nosso idioma, mas precisam nos humilhar perguntando em Londres ou Paris: se hablamos espanhol? Sim, porque quase todos falam inglês, italiano, francês e obviamente espanhol. Mas o pior mesmo é acharem que português e espanhol são exatamente a mesma coisa. Falou espanhol fala português e vice-versa!


Os guias falavam das “mais grandes ventanas” dos palácios como se todos os brasileiros que os ouvia soubessem exatamente o que estavam dizendo. Não entendiam e ainda pensavam, certamente, que ele acabara de cometer um erro gramatical terrível. E no dia de seu “feliz cumpleaños“ o imperador etc etc.. Como ? indagava com o olhar o brasileiro com traços tão nipônicos que todos juravam que ele nascera em Tóquio ou Kyoto. Feliz o quê?


Hora de visitar mais um museu, conhecer um pouco mais da história que só sabíamos pelos livros escolares e um aviso que novamente leva os brasileiros (grande maioria na excursão, por sinal !) a indagar com o olhar o que o guia deseja que fizéssemos:? tiene sencillo? E ele, sorridente aguardava a resposta, acreditando que trocado em português era exatamente a mesma coisa que em espanhol. Pagamos com sencillo ou não e ficamos sem entender de novo !


Yo hablo un poquito, pero no muy bien. Uma feliz conseqüência de contatos com pessoas que vivem em países de língua espanhola, sobretudo um com quem me relacionei por muitos anos e que vive na Bolívia. Abençoada experiência. Graças a ele e a minha persistência em tentar entendê-lo conseguia saber que calle é rua; ou algo mais sofisticado como dónde puedo cambiar dinero? Ou decidir por um cerdo assado e jamón no lugar de uma mantequilla.


Mas, mesmo convivendo e lendo anos e anos, quase diariamente textos em espanhol, ainda apanhei muito, entendi muita coisa errada e devo ter feito os atendentes rirem às minhas costas. Comprei ou pedi raras vezes em Pirinópolis, Brasília, Manaus ou Cuiabá plátanos e quando me ofereceram em Paris, disse que não queria. Justo eu que adoro bananas !!! Não me arrisquei a optar pelos galletas e os amanteigados ou recheados franceses são ótimos !


Somos cerca de 250 milhões de pessoas falando português, mas ao viajar pela primeira vez à Europa constatei que isso é pouco. Muito pouco ! Talvez na África onde o Português está em Cabo Verde, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Timor Leste, Macau São Tomé e Príncipe, seja mais fácil a comunicação. E aí sim, hablar como nosotros que vivimos en Brasil!

sábado, 18 de dezembro de 2010

CADÊ A PRAIA ?

As casas avarandadas, com largas janelas, cadeiras de vime ou de plástico no pátio e plantas bem cultivadas, já insinuam que o calor é o que predomina. Lá no alto é possível ver a chaminé das churrasqueiras. Vão das mais simples, quase um fogareiro, às mais sofisticadas com manivelas que assam as carnes no tempo preciso, com a brasa no calor exato. Quem entende de churrasco sempre garante: é a brasa e não a chama que faz a diferença.
As grandes áreas verdes públicas cuidadosamente ajardinadas com cara de praça e bancos de praça ou apenas um espaço acolhedor com árvores frutíferas, ipês roxos que encantam no início do segundo atraem bem-te-vis, rolinhas, sabiás, beija-flores e as barulhentas maritacas que passam em bando ao amanhecer ou entardecer. Alguns desses pássaros longe de seu habitat chegam sem cerimônia nas casas e mesmo sem ser serem convidados entram nas casas em busca de comida ou da ração dos animais domésticos. Vale a pena parar pra ver.
A cidade que tem uma temperatura média de 26ºC e que pode tranquilamente chegar aos 37,39º, quando percebida em seus detalhes nos causa dúvidas e perplexidades. Aquela rede na sacada é mesmo utilizada ? será a explícita origem nortista/nordestina de seus moradores ou apenas decoração ? Tanto faz... elas estão perfeitamente compatíveis com os projetos arquitetônicos que lembram as casas à beira mar tanto e se as paredes estiverem ornamentadas com peças artesanais de peixes, sereias, araras e tucanos a dúvida quase chega a desaparecer. A praia deve estar bem pertinho mesmo.
E se você encontrar tranquilamente caminhado pela rua jovens bronzeados de sunga ou shorts a exibir seus bíceps, barriga tanquinho ou uma bela jovem de seios siliconados e panturrilhas enrijecidas, certamente sentirá uma vontade quase incontrolável de perguntar: qual a praia mais próxima? Jovens ou nem tão jovens assim usam e abusam da roupa curta, sem mangas ou as de fitness bem marcantes. Shorts e calças coladas, tênis ou sandálias de dedo e um camiseta compõem o guarda-roupa da maioria dos que encontramos pelas ruas É de novo o clima se refletindo na população. O guarda-roupa tão tropical, quase praiano amenizando o sol escaldante que esturrica a pele e escancara o céu predominantemente azul que num devaneio nos conduz uma areia quente que em seguida nos dará o prazer de tocar a água morna, a molhar nossos pés. Ao olhar o horizonte quase podemos ouvir o barulho das ondas. As nuvens que parecem se encontrar, lá adiante com o mar...
Tem mais... muito mais a ser descoberto sem pressa. Reparem no nome de alguns bares e restaurantes, principalmente os localizados nas largas avenidas que se reinventam e acrescentam às cadeiras e mesas de madeira, ou as de plástico de cores fortes, cessão das marcas de cerveja, pequenos lagos com minitartarugas e peixes vivos que nadam solenemente como se estivessem em seus habitats. Os nomes, além de sugestivos, mais uma vez nos convidam para na volta do mergulho parar pra almoçar ou apenas tomar um chope gelado. Tem o Estrela do Mar, Bar Rio, Curva do Rio, Farol da Barra, Maré do Chopp, Peixe da 13, Na onda do Peixe e uma homenagem talvez aleatória aos amazônidas: o Pé de Açaí e o Porto Açaí.. Alguma dúvida que basta andar mais alguns metros para que o cheiro de maresia nos invada ?
Para os bem mais jovens ou que já não podem ou não apreciam um chope gelado, o calor também pode ser amenizado com os variados sabores de sorvete disponíveis em sorveterias que se espalham pelos shoppings, esquinas ou lanchonetes. Das delícias do Cerrado que oferecem aos curiosos degustadores o de umbu, cagaita, pequi ou araticum ou que dividem a fama com a Amazônia como os de mangaba, muruci (no Norte) e murici (no Cerrado e Nordeste) aos tradicionais de chocolate, flocos, ameixa,nozes ou creme. Quando a temperatura beira os 40ºC é comum as filas irem além dos comércios. Tudo em nome de uma casquinha.
Embelezando as ruas, em meio aos carros populares, estão os que apaixonam os homens e despertam a curiosidade das mulheres. São Ferrari, BMW, Audi, Porche de todas as cores e modelos, mas em geral conversíveis, teto solar. De novo a praia a nos chamar... Será que os encontraremos estacionados na beira mar ao anoitecer ? Fazendo par com as potências de quatro rodas, estão as motocicletas potentes e barulhentas ou ainda as bicicletas tipo mountain bike e seus condutores, quase sempre em grupos, com as indumentárias próprias, uma atração à parte..
O chope gelado na temperatura exata, irrepreensivelmente no ponto, é outra marca desta cidade. São muitas cervejarias e muitas marcas de cerveja para atender ao mais exigente consumidor. Que tal zoar um pouco e testar o garçon? – Cerpinha? –Temos!;  Liber? –Temos!;  Devassa? - Também temos – Caracu ? Temoooosss !!! O calor dá esse aval à cidade. Na tulipa ou na caneca, espumando, ela (ou um chope) vem nos colocar novamente frente à frente ao mar ou ao longe embriagados pela beleza do entardecer que carrega o sol para dentro d’água e o deixa mergulhado até amanhã de manhã.
Mas e a praia ? Onde fica a praia ? Cadê a praia ? Em nome dela, ou de sua ausência tão presente, só mesmo tomando mais um chope. Pode ser o Claro, Niger, Pingado, Fantástico, Ferrugem, Sexual, Shortinho e o Direto Pingüim bem ali, em uma das mais famosas choperias do Brasil: o Pinguim, inaugurada em 1936 e que é só mais um delicioso detalhe no cenário praiano de Ribeirão Preto!
Com todo esse cenário praiano jurava que existia uma praia aqui, pertinho, mas a mais próxima fica a cerca de 400 km e embora ostente vários títulos, que vão da Califórnia brasileira à Capital do Chope, nenhum se refere á praia que é apenas uma miragem alimentada pelo calor intenso, céu azul e o chope deliciosamente gelado.
Hoje sou mais uma entre os mais de 600 mil habitantes de Ribeirão Preto. Acabo de chegar à cidade que só passou a existir de fato depois da Independência do Brasil quando ainda se chamava Vila de São Sebastião do Ribeirão Preto. Sem praia, sem areia, sem mar, sem mesmo um rio que permitisse aos amazônidas amenizar a saudade da água, Ribeirão aos poucos vai se transformando em minha segunda casa. Uma relação que se estreita a partir de seus moradores e que se fortalece nas conquistas dos filhos, no vislumbrar de um futuro mais farto, mais seguro, mais feliz.
Ahh mas se tivesse uma praia ...
(Ruth Rendeiro, é jornalista)